Entre e-mails e poesias

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Por: Helena B. Souza e Fernando Augusto Badauy Szervinski

Crônica: Entre e-mails e poesias.

Uma, duas; dez, vinte; cem, mil. Quantas mensagens você costuma receber em apenas uma hora em seu WhatsApp? Seja no grupo do trabalho, da família, ou até mesmo em uma conversa mais empolgada com amigos, o sistema de notificações do seu celular com certeza trabalha incansavelmente. E, neste momento de isolamento social, com as saudades de todos batendo e devido à ânsia de conversar sobre o que está acontecendo, torna-se ainda mais difícil administrar e falar com todos. É “oi, tudo bem?” pra cá, é vírus pra lá. As mensagens simplesmente não param de chegar. Não é raro que deixe de responder alguém puramente porque a janela de conversa ficou para trás.

Refletindo sobre isso, tomei uma decisão: pelo menos por esse período em que ficaria em casa, com menos responsabilidades, iria tomar um ”detox” das vibrações do celular. No entanto, concluí que apenas desabilitar as notificações não seria suficiente. Queria uma medida mais drástica. Assim, após um aviso em minhas redes sociais e uma conversa mais direta com os principais familiares e amigos, apaguei o WhatsApp, Instagram, Twitter e Facebook da minha vida por tempo indeterminado. Deste momento em diante, utilizaria apenas a antiquada plataforma e-mail.

Tenho 20 anos e nunca enviei nem recebi uma carta de ninguém. Quando era criança, cheguei a mandar um ou outro e-mail para amigos e família. Mas, como eu era pequena, o conteúdo era simples e infantil. Assim, apesar de para gerações mais antigas parecer cômico, meu desconhecimento acerca desse tipo de comunicação era imenso. Acostumada a respostas curtas e instantâneas e a compartilhar em tempo real o que estava fazendo, muitas vezes sem ter nada a dizer, a experiência de ligar o computador, sentar e escrever um pequeno texto começou complicada. Mas, pouco a pouco, eu e alguns amigos que toparam entrar na onda fomos pegando o jeito. Nunca pensei que chegaria um dia em que aproveitaria tanto conversar por carta, mesmo que digitais, mas assim está sendo.

Para isso, foi preciso adotar uma postura diferente. Aprendi que é preciso reservar um tempo – às vezes até 1h! – para reunir todas as informações desejadas, organizar, encadear e digitar. E, acredite se quiser, é mais difícil do que parece. Por vezes mencionava fatos concretos – meu almoço, o livro que tinha começado, ou até o clima -, já outras me abria à possibilidade de assuntos mais abstratos – um pensamento enquanto tomava banho ou uma memória ressurgida através de uma música. Cada vez mais percebo como é possível conversar sobre coisas diversas e, inclusive, poetizar. É isto. Me sinto uma verdadeira poeta ao readaptar a maneira como me comunico durante a quarentena. Uma artista. Passei não só a ver fatos banais com outros olhos, mas também a desenvolver formas de repassar essa minha nova visão aos outros. Percebi como, desde que entrei na faculdade, não escrevia mais do que resumos. Não havia criado nada. Nada havia partido de mim. Fiquei feliz por mudar esse cenário.

Ontem mesmo meu namorado me mandou um e-mail falando sobre como, ao ler um determinado livro de Machado de Assis, se imaginava ao lado do escritor, vendo ao vivo as palavras sendo colocadas no papel. E é exatamente isso que me ocorre ao ler e-mails. Me imagino ao lado do remetente, ouvindo de sua boca as palavras escritas. Não sei, mas acho que consegui me acostumar bem a essa fantasia. Inicialmente, imaginava que dar um tempo das redes sociais iria me afastar das pessoas, mas vejo como, na verdade, me aproximei ainda mais de quem realmente me importo. E aqueles que se atreveram a passar esse período de maneira semelhante que não me deixem mentir sozinha. Quando este período de incertezas vai acabar, ninguém sabe. Mas está sendo maravilhoso ousar um pouco e me inserir nesta experiência nada familiar.

E você? O que tem feito durante a quarentena de diferente da sua rotina?


Helena B. Souza – Já morou em tanto lugar em seus 20 anos que nem sabe mais definir de onde é, mas atualmente reside na capital de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Lá, está em seu segundo ano de medicina, onde parece ter se encontrado. Namora Fernando, e se considere uma pessoa tímida. Estudiosa, adora dançar e estar ao ar livre, mas nunca recusa um filminho no sofá.

Fernando Augusto Badauy Szervinski – Natural da capital de Goiás, Goiânia. Mora atualmente em Belo Horizonte, onde também estuda medicina, embora acredite que seu coração sempre será da viva cidade de São Paulo, que o conquistou após apenas 1 ano morando lá. Faixa preta de karatê, gosta de correr, nadar, jogar videogame. Extrovertido e altamente sociável, namora Helena há 9 meses, tendo se conhecido na própria faculdade.

8 COMENTÁRIOS

  1. Helena,que ideia maravilhosa!
    Quantas cartas escrevi quando tinha a sua idade…e era delicioso esperar a resposta.
    Muitos jovens deveriam tentar esta experiência…com certeza iriam adorar!
    Vejo o quanto escreve bem e com muita sensibilidade! Parabéns pela iniciativa e que continuemos em contato.
    Deixo meu abraço afetuoso!
    Valéria?

    • Oi Valéria, fico feliz que tenha gostado! Notei mesmo que a espera faz a resposta ficar ainda melhor rsrs
      E com certeza acho que é uma experiência que vale a pena.
      Obrigada pelos elogios!
      Abraços,
      Helena

  2. Oi Helena e Fernando. Adorei a ideia, a iniciativa e a crônica. Parabéns! Me inspirou, mas vou ser mais radical, estou pensando em escrever cartas e enviar pelo correio. Vivi esse tempo e foi bom demais!

    • Oi Elmar, ficamos felizes que tenha gostado! O correio realmente já é um nível para os mais experientes rsrs quem sabe para a próxima etapa? Mas mande sim! Tenho certeza de que tanto você quanto a outra pessoa irão adorar a velha novidade

  3. Salve Helena aqui é o Tonton Alcino Ferreira, de Olinda e Recife, tenho 71 aninhos, amigo da Carol, do César e do Frei Klaus. Gostei da crônica de vocês, uma crônica que cutuca, futuca, massageia o cérebro, saculeja, balança o rozeiral, e move o carrocel das Idéias. Criem mais e enviem também por bilhetes ou vias telepáticas. Uhúuuuuu!

  4. Oi Alcino! Que bom que gostou da crônica! O objetivo era mais ou menos esse mesmo rsrs. Quem sabe se em breve não escrevemos mais? O processo da escrita também foi muito prazeroso.
    Abraços!

  5. Adorei a crônica, super divertida e me deixou com muita vontade de escrever varias cartas! Parabéns!! ??????

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