A liberdade entre os dois eixos de uma moto no Canadá

0
13

Quem acredita sempre alcança um novo destino com uma jaqueta estilizada, um capacete e um mapa; peças essenciais que deixam saudades a quem fica para trás nas infinitas highways da vida.

flag

Por Flávia Berredo de Menezes

Amor de outras eras, peripécia, estilo. O sangue aventureiro de quem gosta de se expor ao ar livre pelo mundo e sobre duas rodas corre nas veias de uma família de brasileiros em Calgary. Na bagagem de vinda do Brasil, trouxeram para o Canadá um hobby que só quem gosta de sentir os cabelos ao vento consegue entender: aventurar-se sem medo do novo, desbravando as mais belas fronteiras da América do Norte, testando os limites da liberdade com os pés na estrada.

O analista de crédito João Alencar reside em Calgary e, há 38 anos, anda de moto. Depois da primeira temporada em cima da sua BMW GS1200, ele convidou o sobrinho engenheiro João Cortez, experiente nas estradas brasileiras, a trocar a sua Honda XRE300 pelo cheiro da borracha dos pneus de uma Kawasaki KLR650 queimando em solo norte-americano, em julho de 2012. De carona na aventura, foram o amigo zootecnista Rodrigo Batista na moto de Cortez e, na garupa do precursor do trajeto, a esposa Gleide. O grupo saiu de Calgary em direção a Salt Lake City, Moab, Las Vegas, Carmel pelo caminho da orla, São Francisco, Sonoma Valley, Vancouver. Depois de 8 mil km e 12 horas ao dia de viagem, regressaram à cidade de partida. “O respeito pela velocidade que os motociclistas da América do Norte têm no trânsito e nas estradas são inversamente proporcionais aos buracos encontrados em pistas brasileiras. Parece que as rotas que percorri foram desenhadas propositadamente para serem curtidas, pois cortam parques nacionais, passam ao lado de rios, lagos e florestas”, compara o despojado engenheiro.

Com uma visão empreendedora, Alencar tem estudado alguns planos de transformar o hobby da família em um negócio fixo durante as melhores temporadas de calor do Canadá. “Junho, agosto e setembro são épocas perfeitas para viajar. Com temperaturas elevadas e estradas não tão lotadas quanto em julho. Eu pretendo organizar grupos em excursões com entusiastas que, assim como eu, conseguem ver uma vida mais bela através da viseira do capacete. Este ano, quero partir com um grupo nesta jornada, que já realizo em busca dos melhores destinos turísticos das regiões cruzadas. Afinal, quem viaja de carro vê a paisagem; de moto, faz parte dela.”

Uma dica de passeio para quem deseja percorrer o coração das Montanhas Rochosas canadenses é o caminho que passa pela Trans-Canada Hwy/BC-1 a oeste de Banff, continuando pela rodovia AB-93 norte em direção ao Parque Nacional de Jasper. A experiência é válida para os amantes de uma boa paisagem-pintura, com os lagos azuis-turquesas que cortam os caminhos dos motociclistas. Todavia, são escassos os serviços de beira de estrada ao longo do trajeto, que é repleto de voltas e reviravoltas. Nada muito complicado para quem segue as regras do padrão de viagem canadense, ou seja, abastecer o tanque a cada oportunidade. Nesta rota, o trecho mais longo sem postos de gasolina é o de 150 km entre Saskatchewan River Crossing e Jasper.

Outro “must see” é a rota do lago Duffy, que leva você através de uma das paisagens mais espetaculares do planeta. A primeira parte do caminho passa ao longo do fiorde Howe Sound, com montanhas e vista para o mar que mudam a cada curva, bem como do Whistler, um resort de classe mundial onde você pode facilmente acampar ou apreciar a aconchegante vila, conhecida pela imensa estação de esqui. Depois de Pemberton, o motociclista entra em uma atmosfera desértica através das montanhas cobertas de neve. Nesta parte da rota, as curvas são tão extensas que você não consegue decidir se desafia suas habilidades com a moto ou apenas relaxa sobre os dois eixos e aprecia a paisagem. Seguindo viagem, em Lilloet ficam para trás as exuberantes florestas da costa oeste, seguindo entre os vales do deserto do Fraser Canyon, com mais curvas e montanhas cobertas de neve.

O trajeto começa na Highway 99, em West Vancouver, BC, no sentido norte para Squamish, Whistler, Pemberton, Lilloet. Atravessa a ponte de Lilloet e, em seguida, segue para o sul na estrada 12 em Lytton através do Fraser Canyon, na Highway 1. Pouco antes do distrito de Hope, vire a oeste na estrada 7, seguindo o litoral norte do rio Fraser. Todo o caminho é realizado em Vancouver. O tráfego começa logo após passar por Mission e, caso queira voltar à cidade, basta atravessar a ponte em Abbottsford, na Highway 1 sentido oeste.

Flávia Berredo de Menezes é jornalista pela Universidade de Vila Velha, Brasil, formada em Marketing e Relações Públicas pelo Cavendish College de Londres, Inglaterra, e correspondente internacional pela organização Transitions Online de Praga, República Tcheca. Contato: flavia.berredo@hotmail.com.