Carla Neto

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A dançarina e assistente social Carla Neto é uma dessas pessoas que, quando você cita o nome em uma roda de amigos da comunidade, recebe de volta uma verdadeira avalanche de elogios. E não é para menos. Afinal, essa angolana de coração canadense se dedica de corpo e alma à cultura de língua portuguesa e às meninas e mulheres vítimas de violência doméstica em Toronto.

Por Juliana Dalla

Trajetória de vida

Angolana natural de Malanje, Carla Neto chegou ao Canadá em1987, com o objetivo de viver com seu pai em Ottawa e se formar. No começo, a adaptação foi difícil. “Os primeiros 8 meses foram muito difíceis, principalmente porque não tinha o domínio do inglês e, mesmo morando com o meu pai, me sentia muito isolada, morrendo de saudades de minha mãe, meus amigos e familiares”, conta Carla. Porém, Carla soube transformar os obstáculos em aprendizado: “A primeira coisa que reparei, e que era muito diferente de Angola, foi que não conhecia os meus vizinhos. As pessoas mal se comunicavam. O meu pai trabalhava de noite e eu estudava durante o dia, por isso, sentia ainda mais a falta de amigos e convívio com vizinhos. Usei a solidão para me concentrar mais ainda em aprender inglês. Assistia muita TV, e isso também ajudou a me aperfeiçoar na língua”.

Em busca de mais oportunidades, Carla e seu pai se mudaram de Ottawa para Toronto tempos mais tarde. O multiculturalismo da metrópole fez com que eles se sentissem menos distantes da cultura angolana e de sua identidade. Carla, então, percebeu que não havia só diferenças entre as culturas angolana e canadense: “No início, não percebi semelhanças entre as duas culturas. Acho que porque a coisa que eu mais temia era perder a minha identidade angolana/africana. Mais tarde, me dei conta que existem valores em comum entre as duas culturas, que se manifestam de maneira diferente. Por exemplo, tanto o povo canadense quanto o angolano é hospitaleiro. No entanto, eles diferem uns dos outros em como demonstram a hospitalidade. O angolano, mais entregue, e o canadense, mais reservado”.

Carla Neto

YWCA Toronto

Carla não é apenas admirada pelo seu gingado e samba no pé, mas também pelo trabalho exemplar que realiza na YWCA Toronto, organização feminista dedicada a melhorar a vida de jovens meninas, mulheres e seus filhos. Carla começou a trabalhar na organização como estagiária, no quarto ano do curso de Assistência Social pela Ryerson University. Hoje, gerencia abrigos de emergência para mulheres e seus filhos vitimados pela violência doméstica. “Nós ajudamos as mulheres e as meninas a escapar da violência, ajudamos a procurar moradia segura e permanente, a encontrar emprego, a estabelecer suas vozes, a melhorar as habilidades e desenvolver autoconfiança. Temos programas habitacionais, programas de apoio à comunidade, programas para meninas e programas para família e também dedicamos esforços para que mudanças sistêmicas, que diminuam a opressão da mulher, aconteçam”, explica.

Agradecimento

O reconhecimento que Carla Neto recebe da comunidade, ela retribui com a generosidade que tanto lhe é peculiar: “Eu gostaria de agradecer à comunidade brasileira por terem me acolhido e me adotado bem no início, em 1989, quando eu mais me senti perdida. Eu amo essa comunidade e tenho muita afinidade com ela, porque partilhamos muitos valores culturais. Meus filhos são cidadãos brasileiros, e eu sempre digo que tenho Brasil no meu coração. É com muita honra e responsabilidade que, muitas vezes, representei a cultura brasileira da melhor maneira que pude, através do samba, que tem como raiz o ‘semba’, e da minha companhia de dança The Samba Connection. A Tania Nuttall, que me confiou o cargo e a tarefa de diretora artística por 4 anos do Brazilian Day Canada. A Angela Mesquita, que confia no trabalho que o The Samba Connection faz nos seus eventos. A Wave Magazine, pelo consideração e por esta entrevista. Aos meus amigos brasileiros, que têm sido família para mim; muitos para mencionar, mas gostaria de agradecer particularmente uma brasileira superespecial para mim, a minha comadre e irmã baiana Celia Shimanuki. Deus vos abençoe!”