Cidades e Cidades

Ao longo de nossas vidas, por quantas cidades passamos? Cada uma nos conta algumas histórias e nos esconde outras. Suas paisagens provocam as mais diferentes sensações. Apesar de sentirmos na pele a diferença entre as cidades, nem sempre nos damos conta do que é que nos traz essas sensações. O que será que diferencia as cidades brasileiras das canadenses?

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Por Denise Fernandes Geribello

Uma cidade formada por uma trama de ruas tortuosas, seguindo a topografia do terreno, com alguns eixos que destacam igrejas, prefeituras, teatros e tantos outros edifícios monumentais. Áreas comerciais e habitacionais que se mesclam. Mesmo no coração de um bairro residencial, há sempre um mercadinho na esquina, um bazar na rua de cima, um bar na rua de baixo. Neste ambiente, a padaria da esquina, a estátua do fundador da cidade ou a praça da matriz costumam ser os pontos de referência.

Enquanto esta é a realidade de muitas das cidades brasileiras, grandes ou pequenas, a maior parte das cidades anglo-canadenses possui traçado ortogonal, como um grande tabuleiro de xadrez. Suas ruas principais determinam grandes glebas, que às vezes repetem em seu interior a organização ortogonal e às vezes possuem traçados tortuosos, formando verdadeiros labirintos, como um tradicional jardim inglês.

 A separação dos espaços residenciais e comerciais é clara. Nas vias principais, predominam os usos comerciais. Quando há habitações, elas geralmente se localizam acima do nível da rua, em torres ou nos pavimentos superiores de edifícios comerciais. No interior destes grandes blocos, casas, muitas casas. Neste modelo de cidade, os entroncamentos de avenidas se tornam os pontos de referência.

Da Luz, em São Paulo, ao Regent Park, em Toronto, as áreas centrais vêm sendo alvo de projetos de “revitalização” e “requalificação”. Tanto em cidades brasileiras, como em canadenses, estes projetos buscam atrair e manter em áreas centrais comércio e serviços voltados às classes mais altas, causando o deslocamento dos grupos sociais que ocupavam estes espaços.

Também é comum aos dois países o espraiamento das cidades. Os perímetros urbanos não param de crescer. No Canadá, os novos empreendimentos são enormes bolsões residenciais servidos por malls, geralmente constituídos por uma grande loja âncora, cercada por comércio e serviço de menor porte. Já no Brasil, estes novos empreendimentos são condomínios fechados servidos por shopping centres. Em ambos os casos, a presença do carro é fundamental e a diminuição da vivência no espaço público é evidente.

É bom lembrar que as cidades de um mesmo país não seguem rigorosamente um mesmo padrão, elas apenas partilham características comuns, seja pela semelhança em seus processos de formação, pelo clima, pela topografia ou por aspectos sociais.

Assim, os itens elencados acima apresentam algumas das inúmeras diferenças entre as configurações que predominam em cidades destes dois países. A diferença entre as cidades, entretanto, vai muito além de seus espaços construídos. Suas dinâmicas, seus fluxos, a forma como os cidadãos utilizam o espaço público, tudo isso, somado ao ambiente construído, constitui a cidade.

Outro elemento, talvez o mais importante, que devemos considerar quando pensamos a cidade são os pontos de vista sobre ela. Cada um enxerga a cidade de uma forma específica. Acredito, então, que ao invés de categorizar cidades simplesmente como “melhores” ou “piores”, devemos tentar entender porque nos sentimos bem em um lugar e não no outro, porque deixamos algum lugar para trás ou porque voltamos para ele.

Errata: Na página 07 da edição 48 da revista Wave Magazine, foi publicado o nome de Michael Saulnier como autor da versão em português do artigo. Na verdade, tanto o artigo em inglês quanto o artigo em português foram escritos por Denise Fernandes Geribello.

 Denise Fernandes Geribello é arquiteta e urbanista, doutoranda em História e Fundamentos da Arquitetura pela Universidade de São Paulo. Contato: [email protected].

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