Como sambar na cara do sucesso

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A trajetória do multi-instrumentalista Marco Castillo, o brasileiro que ganhou o Canadá ao som dos aplausos dos fãs que o consagram como referência cultural no país.

Por Flávia Berredo de Menezes

“Você constrói a sua felicidade e a carrega consigo”. Com esta filosofia o carioca bacharel em Música faz desde 2006 a alegria do povo canadense na cidade de Winnipeg, na província de Manitoba, que o abraçou como ícone dos mais variados estilos musicais brasileiros ao se manter no “top number 1” das rádios universitárias por várias semanas após a gravação do CD “Brazilian Season”.

Tamanho sucesso fez o primeiro trabalho do artista ser o início de uma espetacular história de êxitos como o líder da banda Brazilian Beats, uma das mais requisitadas na capital multicultural do jazz do Canadá, onde em 2011 lancou o CD “Trip to Brazil”, ganhador como o World Recording of the Year para o Western Canadian Music Awards.

Em uma entrevista concedida a Wave, Marco Castillo (48) mostra todo o gingado entusiástico verde e amarelo que influencia inúmeros artistas locais a contribuir imensamente para a difusão da música e cultura brasileira.

Como nasceu a sua paixão pela música?
Castillo: Meu contato com a música foi muito cedo tendo como pai um dos integrantes do Trio Irakutan que gravou dezenas de discos. A paixão tomou forma de expressão quando tive meu primeiro violão, na verdade era um requinto (instrumento típico de trios mexicanos como “três ases” e “los três Reyes ” (umas das referencias de meu pai). Eu morava na Guatemala com minha mãe nessa época e estava com 12 anos, uns amigos mais velhos ensaiavam na garagem e como eu sempre estava lá, logo comecei a aprender os primeiros acordes. Aos 14 anos montei um trio com dois amigos e o repertório variava de Santana a Rush e passava por Chic Corea, Billy Cobham, Jeff Beck, etc.

 Quais as suas influências musicais?
Castillo: Tenho certeza que a música escutada desde criança me influenciou em algum conceito químico no cérebro com informações que na época eu não tinha consciência. Nas minhas composições consigo identificar algumas dessas influências. Sempre admirei a música instrumental, ouvi muito jazz fuzion e também rock como Deep Purple, Led Zeppelin , Van Halen e os progressivos da Europa. A influencia da África na cultura e na nossa música brasileira é muito intensa e é algo que nos diferencia dos demais países da America, até porque o Brasil foi o último país a abolir a escravidão e trouxemos 10 vezes mais negros do que os EUA.

 O que mais lhe encanta na música brasileira e como é a receptividade do povo canadense com o seu trabalho?
Castillo: O que mais me encanta é a complexidade da mistura de culturas que tivemos desde a inevitável invasão européia até a sofrida migração forçada dos negros. Essa fusão se manifesta na cultura e na música e no caso do Brasil, de uma maneira muito intensa, complexa e única. Isso além de encantador é ao mesmo tempo intrigante e profundamente inspirador.

As pessoas tem gostado muito do meu trabalho e isso claro é muito motivador, essa indicação do meu recente CD para um Award é um bom sinal. É muito gratificante o reconhecimento da minha música no Canadá.

A receptividade da música brasileira é muito boa, o povo canadense é muito educado e respeitoso, e eu me sinto honrado em representar nossa cultura aqui através dos meus acordes. A educação faz muita diferença numa sociedade.

Falando em “povo canadense”, o que o levou a se mudar para o Canadá? Quando chegou ao país?
Castillo: Vendo minha filha crescer e por ser músico e ver o aspecto cultural e de educação por um ângulo diferente do que a maioria, decidi dar uma guinada e criar uma oportunidade melhor para ela e consequentemente para nós. Sabe aquela coisa do “Brasil é o pais do futuro?” Esperei esse futuro prometido que nunca chegava e a melhor coisa que fiz foi buscar por ele. Não foi fácil, todo o processo levou um ano e meio, milhares de papéis, a incerteza de arriscar tudo sem nenhuma garantia. Cheguei aqui em 2006 e tenho trabalhado muito pra conquistar meu espaço, mas eu sou uma pessoa muito determinada e gosto muito de trabalhar.

…quando me perguntam se vale a pena morar aqui digo que depende muito da pessoa, tem gente que nunca está feliz em canto algum. Eu estou feliz aqui. Acho que você constrói a sua felicidade e a carrega consigo.

 Como foi o seu primeiro show no Canadá?
Castillo: Meu primeiro show aqui foi muito curioso, minha irmã Miriam tinha um grupo de belly dance e me convidou informalmente para me dar uma força, “você pode tocar uma música ou duas”, disse ela que me apresentou a Myron Marteens, um percussionista que já tinha morado no Brasil. Através dele conheci o baixista Jay Taylor e embora recém chegado, já estava tentando me conectar, e assim respondi a um anúncio de um baterista renomado, Tood Talbot, que procurava um guitarrista para uma banda. Como sou bom articulador e faço amizades facilmente, ensaiamos uma vez e lá fui apresentado a uma tecladista chamada Suss, então em pouco tempo eu tinha um grupo.

Faltando uma semana para o show da minha irmã eu disse a ela que tinha uma banda completa, o que a deixou abismada a exclamar “como é possível? eu queria que você fizesse um número ou dois!”. Ela teve que fazer algumas modificações no roteiro do evento e lá estava eu com uma banda fazendo meu primeiro show na América do Norte com músicos canadenses.

Como os seus fãs podem ter acesso aos seus CDs/shows?
Castillo: Através do meu website você acessa os CDs via iTunes, mas se me escrever posso mandar por correio já autografado (risos). Estou com um projeto onde vou fazer um show cuja idéia é apresentar novos grandes compositores da nossa música, além de um material novo. O show vai ser 21 de Outubro no Park Theatre e é em gratidão ao meu público que me apóia e que gosta da nossa música.

 Quais os planos para o seu futuro musical?
Castillo: Continuar compondo, produzindo e expandindo o mercado para a minha música. A música é minha vida, enquanto eu viver vou estar no palco. As vezes penso que mesmo se eu ganhasse um prêmio milionário eu não conseguiria abandonar a música, ou melhor, se ela gostar de mim ela não me abandonará nunca! Passei muitos momentos difíceis onde tive que abrir mão de fazer o que eu gostava para sobreviver.

Trabalho desde meus 13 anos, fiz o segundo grau em colégio estadual enquanto trabalhava no primeiro McDonald’s da América do Sul. Me graduei na universidade com o apoio da minha família, mas sempre trabalhando, então o trabalho é fundamental e no meu caso como músico não é diferente, você tem que ser dedicado e lutar honestamente com garra e determinação!

 E em relação aos brasileiros que estão começando agora fora do Brasil, que mensagem você pode deixar a eles?
Castillo: Persevere, leve seu trabalho a sério, dedique-se com afinco e sonhe alto com os pés no chão. Um passo de cada vez, valorize as pessoas, cada show é importante, não importa se tem pouco público! Eles foram lá para te ouvir, então respeite a todos e jamais julgue pessoas pela aparência ou pelo que alguém disse. Faça seu trabalho respeitando seus princípios e os outros. Construa relações sólidas e de confiança. Acho que essas são premissas indicadas para qualquer profissão. Valorize-se e respeite o seu trabalho, pois só assim os outros vão lhe valorizar. Procure aprender com cada experiência nova. E uma ultima dica que é o que faço desde o inicio, ame o que faz. Faça com paixão. Acredite em si mesmo e nos seus sonhos e vá por eles, trabalhe.

Para entrar em contato diretamente com Castillo mande email para brasilguitar@yahoo.com.br ou pelo telefone (204) 296.7705.