Deborah Colker

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Uma brasileira no comando de espetáculo do Cirque du Soleil.

Ela coreografou, durante três anos, a comissão de frente da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. Com o espetáculo MIX, foi a primeira brasileira a vencer, em 2001, o prêmio Laurence Olivier, um dos mais prestigiados das artes cênicas em Londres. Em 2006, sua companhia de dança foi convidada a representar o futebol em forma de arte na Copa do Mundo da Alemanha. Deborah não pára! Desde janeiro deste ano, a inquieta e mundialmente reconhecida bailarina, 47, mãe de Clara e de Miguel, passou a ser também a primeira mulher e brasileira a comandar o novo espetáculo (o nome ainda é guardado à sete chaves) da não menos mundialmente conhecida máquina de fazer circo canadense que emprega 4 mil pessoas que representam mais de 40 nacionalidades e falam 25 idiomas.

 No imaginário popular, bailarinas são associadas à delicadeza e a sensibilidade dos movimentos. Como é a Deborah mulher?
Deborah Colker – Eu não separo muito a Deborah mulher da mãe, da diretora, da coreógrafa ou mesmo da bailarina. Preciso ser forte, decidida e dizem até que sou um vulcão. Estou aprendendo a ser delicada, o que é muito importante para todas as “Deborahs”, que posso realizar todos esses grandes desafios e ao mesmo tempo ser delicada. Já sou mandona por natureza, portanto tenho que poder também descansar um pouco de tantas tarefas.

Hoje você desfruta de um reconhecimento mundial. Como foi chegar até aqui? Quais foram as barreiras enfrentadas, principalmente para levar o nome da bailarina e coreógrafa brasileira para fora do país?
Deborah Colker – Quando comecei a dançar e mesmo quando comecei a companhia, a dança ainda era muito complicada como mercado. Não havia nenhum espaço na mídia e, principalmente para dançar, era preciso pedir por favor. Desde que comecei a companhia queria mudar isso. Trabalhar uma formação de platéia, mudar as pessoas quanto ao respeito à dança e, principalmente, fazer ver que a dança pode ser e é um ótimo produto de Arte. Fiz sempre questão de tornar meu trabalho de dança profissional, fazer com que a companhia existisse como gente grande, com que todos os bailarinos tivessem seguro saúde, de vida, carteira assinada, ou seja, que os bailarinos pudessem viver do seu trabalho. Sempre acreditei na seriedade, na disciplina e principalmente na criatividade e na experimentação que é a alma da Arte.

 Este ano você estréia na direção do novo espetáculo do Cirque du Soleil. Qual o nome do espetáculo e como se sente em sendo a primeira brasileira e a primeira mulher a assumir esta função na companhia canadense? Você considera um marco em sua carreira?
Deborah Colker – Ainda não posso adiantar o nome do espetáculo mas posso dizer que todos os brasileiros vão ficar muito orgulhosos! Fico muito honrada por esse convite e feliz por ter um desafio tão grande a cumprir. Estou trabalhando feito louca e espero fazer um espetáculo que tenha a assinatura da Deborah Colker com o Cirque de Soleil. É maravilhoso estar aqui nessa fábrica alucinante de fazer espetáculos. Com certeza é um marco incrível na minha carreira, ainda mais se eu fizer um grande show. Espero que consiga, estou me matando pra isso.

 Como é conciliar a direção do Cirque du Soleil com a administração da companhia de dança, a Escola de Movimento e o Centro de Movimento?
Deborah Colker – É duro. Muita coisa e por vezes fico cansada. Entretanto, tenho uma equipe extraordinária no Rio de Janeiro e que é de um profissionalismo e de uma capacidade perfeitos. Então tanto a escola e seus projetos, como a companhia estão indo muito bem. Tento estar em contato e, de longe, estar presente. Consigo decidir muitas coisas e também me preparei o ano passado todo para isso. Pois só estou direto no Canadá desde janeiro.

Sua companhia de dança está ensaiando algum espetáculo no momento?
Deborah Colker – A Companhia reestréia Cruel, no dia 13 de março, no teatro João Caetano e também estamos preparando 4por4 para Nova Iorque em outubro desse ano no New York City Center.

Em março celebramos o mês internacio-nal das mulheres. Acha que o fato de ser mulher lhe ajuda na hora de conciliar tantas atividades profissionais ao mesmo tempo?
Deborah Colker – Não penso muito nessa coisa de homem e mulher, acredito mais na personalidade de cada um mas é lógico que o fato de eu ser mulher influencia, como também o fato de eu ser loura.Talvez o fato de eu ser judia seja mais importante pra tudo isso.

 Desde janeiro você passou a residir em Montreal por conta do trabalho. E a família? Como fica com esta nova rotina?
Deborah Colker – Sinto muita falta, mas tenho skype e meu filho Miguel está agora aqui comigo por um mês. Toni, meu marido, já veio e vai voltar e ficar 15 dias. Espero que Clarinha também venha mas ela está muito ocupada trabalhando na escola e também com seus projetos de design.

 E a saudades? Vale o sacrifício?
Deborah Colker – Sinto muita saudades e muita falta mas é uma grande experiência e estou fazendo o que preciso fazer para estar viva nesse mundo. Faço esse trabalho como todos os outros pois preciso disso para viver. Falo filosoficamente, financeiramente e emocionalmente. Respiro dança, respiro arte, esse é meu sentido de viver.

O que mais lhe impressiona na relação dos Canadenses com o seu trabalho?
Deborah Colker – Eles são profissionais competentes e se colocam totalmente no suporte e atendimento para que eu faça um grande show.Temos sistemas muito diferentes e para ambos os lados é um grande aprendizado e troca. Eu como brasileira tenho muitas vantagens e, por vezes, qualidades superiores. Eles, como canadenses também. Mas não temos somente brasileiros e canadenses, temos também russos, chineses, ingleses, japoneses e franceses. Toda a equipe é muito bacana.

 O fato de trabalhar no Canadá, um país estrangeiro, faz com que você tenha que provar mais do que se estivesse no Brasil? É mais difícil?
Deborah Colker – Claro que vez ou outra me deparo com nossas diferenças e preciso mostrar que eles (os canadenses) podem confiar em mim. Em alguns momentos aparece aquela insegurança se eu vou ter a capacidade de dirigir uma máquina tão grande como a do Cirque du Soleil mas acho que agora comecei a provar que sim. E claro que nunca esqueço que eles me convidaram e me contrataram, portanto desde o início confiavam em mim. Estou encarando esse desafio com minha personalidade, tentando fazer aquilo que acredito e da maneira em que acredito. O respeito dos canadenses para com o meu trabalho é grande e isso é bacana para ambos os lados.

 Qual o tamanho da equipe que você coordena no Cirque du Soleil? Qual a nacionalidade dos bailarinos? Há algum brasileiro?
Deborah Colker – Somente no palco são 53 pessoas entre músicos (9), acrobatas (41) e palhaços (3). Não há bailarinos mas a equipe toda é composta de canadenses, ingleses, russos, chineses, japoneses, franceses e um brasileiro! Fora do palco, entre técnicos, criação e produção a equipe é enorme! Também temos no Brasil o Gringo Cárdia responsável pelo maravilhoso cenário, Berna Ceppas na trilha sonora, o Ulysses Cruz na dramaturgia e a Jaqueline Mota, minha assistente de direção e coreografia.

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Cia Deborah Colker