Palestra de Denise Gastaldo. Uma análise da saúde do imigrante no Canadá.

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Quando realizado o processo de imigração não é só o país que muda. A distância da família e dos amigos, novos rumos profissionais e o aprendizado de um novo idioma são alguns dos muitos desafios enfrentados pelos imigrantes. E todas essas mudanças refletem diretamente na saúde, como afirma a professora da Bloomberg Faculty of Nursing, Doutora Denise Gastaldo.

A brasileira, que mora no Canadá há 16 anos e também trabalha na Dalla Lana School of Public Health, apresentou seu estudo sobre a saúde do imigrante no Canadá. O encontro aconteceu no ultimo mês no Café com Letras, evento realizado pela artista plastica Solange Escosteguy. A Wave esteve presente e conversou com a professora Denise sobre esse tema, que tanto interessa a quem está “longe de casa”:

Quando a senhora começou a pesquisar sobre a saúde do imigrante?
Gastaldo: Em 1997, quando eu estudava meu pós-doutorado na Université de Montreal fiz o meu primeiro estudo sobre a saúde dos imigrantes. Ao ser recrutada pela Universidade de Toronto, percebi que em Toronto esse era um tema de grande relevância para a promoção da saúde e continuei estudando essa temática.

Na palestra a senhora explicou o “Efeito Imigrante Saudável”. Ao chegar ao Canadá a maioria dos imigrantes tem melhor estado de saúde do que os canadenses. No entanto, após dez anos morando no país, o indivíduo tem uma saúde pior do que a dos canadenses. Quais são os fatores que influenciam na qualidade de vida do imigrante?
Gastaldo: Para entender como isso ocorre é preciso ter em consideração que o melhor fator preditivo do estado de saúde de um indivíduo é a sua percepção de posição social (posição social subjetiva); pessoas que além de estarem em uma situação socioeconômica desfavorecida (posição social objetiva) sentem-se inferiores e experimentam discriminação e têm pior estado de saúde.

No caso da imigração, para muitos o processo é caracterizado pela perda de posição social objetiva e subjetiva. Isso se deve a múltiplos fatores que combinados criam uma experiência de exclusão e que afeta o status social dos imigrantes.

Outros, no entanto, têm na imigração uma oportunidade de deixar experiências de discriminação que ocorriam no Brasil e podem perceber-se em melhor posição social no país de adoção, o Canadá, nesse caso. Não há uma tendência única, mas domina a perda de posição social que afeta o bem-estar psicológico e social, que ao passar dos anos pode impactar a saúde física dos indivíduos.

Segundo estudos, uma sociedade com mais desigualdades e injustiças sociais tende a adoecer mais facilmente…
Gastaldo: Quanto maior a desigualdade em uma sociedade, maior o número de pessoas doentes, sejam ricos ou pobres. As sociedades mais saudáveis do mundo são as que têm menor variação econômica e social entre os seus membros. Por exemplo, o Japão ou a Suécia são países com as maiores expectativas de vida ao nascer porque são os mais igualitários do mundo. Para que haja uma melhora da saúde dos imigrantes no Canada é preciso que haja mais oportunidades de inserção social e econômica dos imigrantes. Os próprios imigrantes podem desenvolver iniciativas para ter uma boa rede social.

A senhora também tem estudado a situação dos imigrantes indocumentados em suas pesquisas, são muitos?
Gastaldo: Hoje em dia há em torno de 30 a 40 milhões de trabalhadores indocumentados ao redor do mundo. No Canadá, a maioria chega com visto de turista ou estudante e trabalha sem autorização. Algumas pessoas vêm com um plano específico para ganhar uma certa quantidade de dinheiro e voltar ao Brasil, mas outros querem sair do Brasil sem um plano muito concreto de retornar.

Os imigrantes são considerados por muitos como ignorantes porque falam inglês com sotaque ou pouca fluência e muitos só conseguem trabalhos em ocupações que não utilizam a formação trazida do país de origem.

 Quais são as maiores dificuldades que esses trabalhadores experimentam no Canadá?
Gastaldo: Os principais problemas relatados por trabalhadores latino-americanos indocumentados que participaram do estudo foram jornada de trabalho muito longa (muitos trabalham em 2 ou mais empregos), condições de trabalho precárias, pouca possibilidade de negociar questões laborais pelo risco de demissão, falta de pagamento (alguns chefes se aproveitam da falta de status migratório desses trabalhadores) e uma rede social limitada por medo de deportação. Além disso, alguns trabalhadores brasileiros se sentem discriminados dentro da própria comunidade. Ao não pertencerem nem à comunidade brasileira e não ser parte oficial do Canadá, eles vivem no “limbo”, o que é muito prejudicial para a saúde emocional e social dos indivíduos.

 Ainda que em condições adversas, muitos imigrantes optam por permanecer no Canadá. Como explica isso?
Gastaldo: Alguns têm planos claros, como comprar um apartamento ou pagar a educação dos filhos e não podem retornar até que tal objetivo seja atingido. Outros, no entanto, não querem voltar porque deixaram para trás situações de violência e discriminação. No nosso estudo, uma brasileira homossexual que sentia cotidianamente a reprovação de sua família por sua orientação sexual foi vítima de violência várias vezes na escola e na rua. Ela disse preferir estar no Canadá sem documentos a viver no Brasil como cidadã. A maioria, no entanto, não tem planos claros e acaba vivendo dia a dia numa rede de compromissos econômicos, sonhos, ajuda de amigos e colegas, que se alarga muito. No nosso estudo, pessoas que vieram passar alguns meses já estavam aqui há 6 ou 8 anos trabalhando e não conseguiam explicar como isso tinha ocorrido.