Choques temporais e culturais em O TEMPO NÃO PARA

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Marocas (Juliana Paiva)
Crédito: Globo/João Miguel Júnior

Por Aline dos Santos Ferreira (Globo)

Quem vive no século XXI já se acostumou a uma rotina agitada. Atender ao celular enquanto responde ao e-mail, ficar preso em um trânsito caótico e fazer compras online parecem situações corriqueiras para os dias de hoje. Manchetes anunciando a chegada do homem à lua, as guerras mundiais, a construção de aviões, a invenção da penicilina e o surgimento da internet seriam notícias velhas se estampassem a capa de um jornal na atualidade. Só surpreenderia mesmo alguém que fosse de outra época e viesse parar neste século por uma obra do destino ou do acaso. É o que acontece com os Sabino Machado, uma família do século XIX. Após o naufrágio de um navio, eles ficam congelados por 132 anos e despertam em uma São Paulo pulsante e turbulenta, em pleno 2018.

Em ‘O Tempo Não Para’, escrita por Mario Teixeira e com direção artística de Leonardo Nogueira, a família e seus agregados vão se deparar com mais de cem anos de revoluções sociais, inovações tecnológicas e conquistas científicas que agregaram novos valores e comportamentos à sociedade, gerando um imenso choque temporal e cultural. São treze pessoas que congelam: Dom Sabino (Edson Celulari), Dona Agustina (Rosi Campos), Marocas (Juliana Paiva) e as gêmeas Nico (Raphaela Alvitos) e Kiki (Nathalia Rodrigues), os escravos Damásia (Aline Dias), Cairu (Cris Vianna), Cesária (Olivia Araujo), Menelau (David Junior) e Cecílio (Maicon Rodrigues), o guarda-livros Teófilo (Kiko Mascarenhas), a preceptora Miss Celine (Maria Eduarda de Carvalho) e o jovem Bento (Bruno Montaleone), além do cão fox terrier Pirata.

Em 2018, um imenso bloco de gelo se aproxima da praia do Guarujá, em São Paulo. Samuca (Nicolas Prattes), empresário engajado em causas sociais, humanista e dono da holding SamVita, está surfando e é o primeiro a avistá-lo. Ele fica intrigado com o imenso bloco, perplexo e fascinado ainda mais pelo rosto sereno e belo de Marocas, emoldurado pelo gelo translúcido. Uma fissura ameaça partir o bloco e Samuca, no ímpeto de salvar Marocas, se agarra ao pedaço do iceberg em que ela está. Eles são puxados pela corrente e chegam à fictícia Ilha Vermelha.

Já os demais membros da família continuam congelados e são levados para a Criotec, laboratório especializado em criogenia, a ciência que estuda a manutenção da vida sob baixa temperatura. A chegada do iceberg se torna caso de segurança de estado e gera curiosidade e comoção nacional. Aos poucos, cada um dos “congelados” despertará à sua maneira e terá que enfrentar a realidade contemporânea e as particularidades das relações humanas no século XXI.

O autor Mario Teixeira e o diretor artístico Leonardo Nogueira
Crédito: Globo/João Miguel Júnior

Entrevista com o autor Mario Teixeira

Em seus últimos trabalhos, Mario Teixeira assinou a autoria das novelas ‘Liberdade, Liberdade‘ (2016) e ‘I Love Paraisópolis’ (2015), esta ao lado de Alcides Nogueira. Foi coatuor das novelas ‘Os Ossos do Barão’ (1996), ‘O Cravo e a Rosa’ (2000) e ‘Ciranda de Pedra’ (2008), além de ter colaborado com Silvio de Abreu em ‘Passione’ (2010). Também foi roteirista de séries infanto-juvenis como ‘Sítio do Pica-pau Amarelo’ (2001-2007) e ‘Castelo Rá Tim Bum’ (1994). Tem uma importante carreira literária que já lhe rendeu os Prêmios Jabuti e Fundação Biblioteca Nacional de 2015 com o romance ‘A Linha Negra’. ‘Salvando a Pele’, ‘Alma de fogo’ e ‘O Golem do Bom Retiro’ são outros livros de destaque em sua carreira. Escreveu também ‘O Anjo de Hamburgo’, produção ainda em desenvolvimento.

Como você define a novela?

É uma comédia romântica. Conta uma história de amor inusitada entre duas pessoas de séculos diferentes, cheia de reviravoltas e peripécias. Uma delas veio do final do século XIX; e o outro, dos dias atuais. Isso vai causar inúmeras confusões. No fundo eles são muito parecidos, cada um deles em sua época. Marocas era uma inconformista, era a favor da abolição, era republicana. Hoje em dia, Samuca é dono de uma grande empresa que tem preocupação ambiental. Eles sonham em mudar o mundo, cada qual a seu modo. Por isso vão se completar. É uma novela realista e com humor, que se passa na Freguesia do Ó, em São Paulo. É uma crônica de comportamento.

Como surgiu a ideia de escrever essa história?

Acredito que as referências vão surgindo ao longo da vida. Tem um livro que eu gosto muito chamado “O Dorminhoco”, do H. G. Wells, que depois virou o filme do Woody Allen. Mas eu não pensei necessariamente nesse livro que eu leio desde os 14 anos seguidamente para criar a novela. Está no meu inconsciente e aflorou no momento certo.

Como os “congelados” vão reagir diante da sociedade contemporânea?

A  premissa principal é o deslocamento desses personagens no tempo e a necessidade de eles se adaptarem ao século XXI. Eles vieram de um mundo onde não existia penicilina, por exemplo; onde não existia televisão; onde a fotografia estava no início. Eles vão enfrentar um mundo novo onde tudo é diferente. O principal choque, no entanto, não vai ser o das questões tecnológicas. Eles vão ter que reaprender a sentir como uma pessoa moderna, contemporânea. A questão da ética e o inconformismo dos personagens congelados em relação às injustiças de hoje em dia terão destaque na novela. Eles vão se surpreender bastante com as novas estruturas sociais e a liberdade que, aos poucos, estamos alcançando para cada um ser quem é em pleno século XXI. Mas eles vão aprender a lidar com isso. Damásia, Cesária, Cairu, Menelau e Cecilio vão perceber que são livres e descobrir seus novos lugares. As crianças Nico e Kiki vão para a escola, apesar da resistência inicial de Dom Sabino, já que, embora houvesse exceções, era improvável que meninas de sua classe social fossem para o colégio em 1886. As que estudavam geralmente tinham preceptoras. Marocas vai querer trabalhar e tirar sustento para ajudar a família. Ou seja, eles também vão descobrir pontos positivos dos dias atuais e se adequar a essa realidade.

O século XIX fica apenas no primeiro capítulo, mas os personagens carregam essa época no comportamento, no visual e na forma de se expressar, com um vocabulário de época. Fale um pouco sobre isso?

Sim, boa parte do vocabulário dos “congelados” é de época e eles têm uma gramática que é muito particular. A fala deles é anacrônica, mas está sempre inserida numa situação que é compreensível. Ao mesmo tempo em que eles abraçam as comodidades do progresso, eles conservam valores que são muito sólidos e que vão acabar contaminando outros personagens também, que vão querer ser melhores perto deles. Tudo isso feito com humor. Gosto muito de comédia e acho que rir é a solução para muita coisa.

O que o público pode esperar da história?

É uma história divertida e inusitada, cheia de reviravoltas que tem tudo a ver com os dias atuais. Parte de uma premissa fantástica, que é o congelamento de pessoas por mais de 100 anos, mas é uma trama realista, que vai contar o dia a dia dessas pessoas na cidade grande. A visão dos nossos “congelados” é muitas vezes o que as pessoas pensam hoje em dia. Esse olhar vai lançar luz sobre uma série de coisas, inclusive sobre o óbvio, as coisas que, por conta da correria dos nossos dias, passam despercebidas e que são tão importantes.