Do fundo do coração

Médico brasileiro criador de famosa técnica de cirurgia cardíaca confessa a sua paixão pela medicina e por dois países: o Brasil e o Canadá.

Por Fátima Mesquita

Ele é idolatrado pelos pacientes e admirado e respeitado pela comunidade médica internacional. Mas pouca gente sabe que o diretor do Toronto General Hospital é brasileiro nascido em Ribeirão Preto e formado em Medicina pela Universidade Federal do Paraná. Conheça aqui um pouco da história do Dr. Tirone David – o otimista inveterado, o cirurgião habilidoso, o imigrante que ganhou a comenda máxima do governo canadense, o brasileiro que ainda tem saudades do povo, da comida e da geografia brasileira, e que, sobretudo, é um médico absolutamente apaixonado pelo que faz.

 O senhor nasceu em Ribeirão Preto em 1944, mas têm vivido fora do país há décadas. O senhor ainda tem vínculos com o Brasil ou todos esses anos acabaram criando uma considerável distância entre o senhor e o país?
Dr.David: Embora eu tenha deixado Brasil em 1970, tenho família grande e vários amigos no país. Eu vou ao Brasil pelo menos uma vez por ano para ver os meus pais, meus três irmãos e duas irmãs e a família deles. Além disso, tenho alguns grandes amigos em Curitiba e estou sempre parando por lá para visitá-los. E, sim: ainda tenho saudades da minha terra. Adoro o povo, a comida, a geografia.

 O seu pai queria ser médico e, de certo modo, realizou esse sonho através do senhor. Agora, o senhor é pai de três filhas. Com pai médico e mãe enfermeira, alguma delas já se decidiu a seguir os seus passos e ser sua sucessora?
Dr. David: A minha filha mais velha até pensou no assunto, mas acabou decidindo seguir a carreira de negócios. Ela hoje tem um MBA na área. A segunda está pensando em fazer enfermagem no ano que vem. E ela já se formou no college. A caçula terminou o college e ainda está “à procura” de uma carreira em que ela possa ter “a mesma paixão que meu pai tem pela medicina”. Nenhuma delas está interessada em ser médica. Uma pena. Queria que pelo menos uma delas fosse estudar medicina.

 Como o senhor compara o jovem estudante de medicina da Universidade Federal do Paraná com o médico respeitado e de sucesso que o senhor é hoje?
Dr. David: Não mudei. Meu caráter, meus valores, minhas ambições são basicamente as mesmas. Já faz 38 anos que deixei a escola de medicina. Eu era jovem, inocente, mas também esperto, inquisitivo e cheio de sonhos. Eu consegui da vida tanto quanto eu me dediquei. Sou exatamente o que sempre quis ser. E não me arrependo de nada. Quer dizer, talvez eu tenha uns poucos arrependimentos. Mas são tão poucos que nem me lembro deles (em tom de brincandeira).

Depois de ter em mãos seu diploma de médico no Paraná, como o senhor veio para no Canadá?
Dr. David: Comecei com um estágio na State University of New York, no Brooklyn, em 1970. Foi um ano fantástico. Nova York era uma maravilha para um médico jovem, muito cosmopolita, mas você não se sente tão estrangeiro assim por lá. De Nova York, fui passar quatro anos em Cleveland, no Cleveland Clinic Hospital fazendo residência em cirurgia geral e cirurgia vascular. E foi aí que decidi que queria ser cirurgião cardíaco e, então, eu vim para a University of Toronto para treinar como cirurgião. Eu pensei, naquela altura, que ia me especializar e depois voltar para o Brasil para ser cirurgião cardíaco lá. Mas quando terminei meus oito anos de treinamento percebi que eu estava superqualificado e que não ia ter campo para atuar no Brasil. Não acho que teria feito o que fiz se estivesse por lá. Minha ambição era mesmo acadêmica e a infra-estrutura simplesmente não existia em lugar algum do Brasil naquela época. Hoje isto pode já não ser verdade, mas agora é tarde demais para voltar. Mas é como eu disse: sem arrependimentos. Eu estou muito feliz aqui.

O senhor mora no Canadá já faz muito tempo e está totalmente adaptado, é um cidadão canadense e já conquistou muita coisa por aqui. Mas como foi o começo da sua vida de imigrante? Quais foram os seus maiores desafios?
Dr. David: Moro no Canadá há 32 anos. Eu talvez estivesse mesmo morando no Brasil se eu não tivesse vindo para Toronto me especializar em cirurgia cardíaca. Nos EUA, eu me sentia um estrangeiro. Nunca tive a sensação de pertencer ao lugar. Mas aqui eu me sinto em casa. Desde o momento em que cheguei até hoje, eu nunca me senti um estrangeiro aqui. Os canadenses fizeram com que me sentisse como se fosse mais um deles. Eles, de fato, descrevem a si mesmos como um “caldeirão de raças”. E eu concordo com eles.

E o que aconteceu foi que me ofereceram uma vaga no Toronto General Hospital. A oferta partiu do Dr. Wilfred Bigelow, que era na época o professor e chefe do departamento de cirurgia cardíaca. Mas imigrar naqueles tempos era uma coisa muito difícil para os médicos porque havia, então, médicos até demais no Canadá. O Dr. Bigelow e o Reitor Holmes (reitor da Escola de Medicina da U of T) foi ver o falecido Pierre Trudeau em Ottawa. O Sr. Trudeau resolveu o problema mandando uma carta para o Departamento de Imigração definindo a minha admissão no país como uma questão de “interesse nacional”, e no dia seguinte eu já era um “landed immigrant”. E uns anos depois eu me tornei cidadão.

 A cada ano, mais e mais brasileiros optam por ter o Canadá como endereço permanente. Que conselhos o senhor dá a quem está chegando, cheio de sonhos e qualificações, mas sem saber direito como fazer as coisas acontecerem?
Dr.David: O Canadá é um país maravilhoso para imigrantes. Você só precisa fazer bem o seu trabalho, seja ele qual for. Concentre-se no seu trabalho e se diferencie dos seus colegas fazendo um trabalho melhor que o de todos os outros. O reconhecimento e aceitação virão como recompensa. E isso não é só na medicina, não. Acontece em toda profissão e carreira. Eu mesmo tenho vários exemplos no campo das artes, na construção civil, publicidade, esportes.

 Há uma técnica cirúrgica famosa que leva o nome do senhor – a técnica Tirone David. O senhor pode nos explicar, em termos leigos, o que é essa técnica e por que ela é tão importante?
Dr. David: Os pacientes podem desenvolver um aneurisma na raiz da aorta, a parte que contém a valva aórtica, que separa o coração da aorta. O tratamento padrão era substituir esta valva ou válvula e usar um tubo de poliéster no lugar da aorta. Eu desenvolvi uma operação em que o aneurisma é substituído por um tubo de poliéster, mas em que a válvula aórtica do paciente é poupada. Batizei o procedimento de “aortic valve sparing operation”. Mas a maioria dos cirurgiões se refere à técnica como sendo a “Operação David”.

Dentre as várias conquistas da sua vida, uma parece muito especial: o senhor recebeu a Ordem do Canadá, a maior honra possível do país. Como foi receber tamanha honraria?
Dr. David: É mesmo uma sensação maravilhosa ser reconhecido pelos seus colegas. Quando eu fiquei sabendo que ia receber a Ordem do Canadá, eu mal pude acreditar porque achava que eu não havia feito nada de excepcional para merecer isso. Mas de uma carta que eu recebi, aquele negócio evoluiu até culminar com uma cerimônia muito especial e elegante na residência do governador geral em Ottawa, além da enorme satisfação por saber que o que eu fiz havia sido realmente apreciado pelo governo.

 Conte-nos um pouco sobre os seus desafios hoje à frente do departamento de cardiologia do Toronto General Hospital, assim como sobre os seus planos para o futuro.
Dr. David: A cirurgia cardíaca nunca parou de evoluir durante a minha carreira e a velocidade dessas mudanças não pára de aumentar. Esse é o maior desafio que enfrento como líder: há sempre muita coisa nova a explorar, mas uma grande parte dela não vai dar em nada. O segredo para o sucesso é saber escolher os vencedores, as novas abordagens que vão resultar na melhora da qualidade dos tratamentos cardíacos. O Centro Cardíaco Peter Munk está muito bem preparado para continuar a ser um centro de excelência, de ponta em termos de inovações, pesquisa e tratamento clínico.

Eu estou com 62 anos e adoro o que faço. Vou continuar tocando a minha carreira enquanto a paixão pela medicina ainda estiver aqui comigo, continuar a a fornecer o melhor tratamento possível aos meus pacientes. Mas sei que um dia vou ter que abrir mão das cirurgias, porque essas operações cardíacas são fisicamente muito puxadas. Mas espero que isso ainda demore a acontecer.

E, por último, a questão que nós, potencialmente futuros pacientes cardíacos, fazemos a nós mesmos de quando em quando: o que vem por aí em termos de tratamentos para o coração?
Dr. David: Só coisa boa: diagnósticos melhores, mais opções de tratamento e um maior conhecimento quanto à prevenção. O futuro nunca esteve tão bom.

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