Dunga

0
528

2010 é ano de Copa!

Por Cosme Rímoli

A equipe da Wave não deixou por menos, correu atrás da bola e conseguiu os direitos de publicação de uma entrevista exclusiva com Dunga, técnico da equipe brasileira de futebol para a Copa FIFA 2010 na África do Sul. O entrevistador foi Cosme Rímoli, jornalista esportivo de São Paulo que já fez a cobertura das últimas quatro Copas do Mundo. A entrevista ocorreu em um aeroporto, pouco antes de Dunga partir para África do Sul para participar do sorteio dos grupos da Copa do Mundo. Foi uma conversa leve e informal, onde o técnico falou de suas aspirações para o torneio e … para depois do torneio!

Você teme o fato de a França e Portugal não serem cabeça de chave? Eles podem cair no grupo do Brasil na primeira fase?
Dunga – Olha, o brasileiro tem um costume que eu não concordo. Pensa sempre que o pior vai acontecer. E eu quero deixar bem claro que não acho cair no grupo da França ou Portugal o pior. Todo o trabalho nesses três anos e meio foi feito com uma meta: chegar o melhor possível para a Copa do Mundo. Eu estou indo acompanhar o sorteio dos grupos da Copa com a maior tranqüilidade possível. O Brasil não teme adversário. Lógico que começar contra seleções mais fracas e depois pegar as mais fortes no caminho seria melhor. Mas eu falo com toda a sinceridade: não tenho medo de França nesta primeira fase, de nada e de ninguém. O trabalho foi bem feito e temos condições de enfrentar quem estiver na nossa frente. Respeitando a todos, mas não esquecendo que somos a Seleção Brasileira.

Isso significa que você não está preocupado com o sorteio?
Dunga – Não estou nem um pouco preocupado, não. Quando você sabe que fez a lição de casa como deveria, sua convicção de que tudo vai dar certo é maior. Eu sempre fui assim na minha vida. Venha o adversário que vier, estaremos preparados para ele. Não estou falando só por falar. É o que eu penso, o que eu sinto.

De onde vem essa convicção?
Dunga – Do que fizemos na Copa América, na Copa das Confederações e nas Eliminatórias. Muita gente duvidava do meu trabalho. Eu sei disso. Era uma pessoa que teve uma carreira vencedora como jogador de futebol. Vitoriosa e longa. Já tinha vivido tudo o que se possa imaginar no futebol Só que era estreante como treinador. Fui chamado para mudar todo um cenário. Não foi fácil. E consegui resultados expressivos. Consegui o que vários técnico vividos, experientes não conseguiram. A pressão foi enorme, mas serviu para moldar a forma, o meu jeito de meu de trabalhar na Seleção. Fiz um longo trabalho de observação, dei chances a quem merecia. Escolher jogadores entre tantos talentos é uma das missões mais difíceis. Mas conseguimos montar um grupo em que acredito. Estou convicto que o nosso trabalho foi o melhor possível para a Copa.

 Você falou que teve de mudar todo um cenário. Está falando sobre a enorme decepção do Brasil na Copa da Alemanha?
Dunga – Eu estava lá e sei que houve muita coisa que não deu certo. E eu fui campeão do Mundo e capitão da Seleção na Copa dos Estados Unidos. Houve uma mudança de filosofia, de atitude em relação ao que aconteceu na Alemanha. Não vou me aprofundar porque não fazia parte da Seleção, só posso dizer que o meu trabalho foi e será durante o Mundial exatamente como eu sou: muito sério, comprometido. Para tentar ganhar uma Copa do Mundo é preciso muita doação, entrega, seriedade. E teremos tudo isso na Copa da África. Falo porque conheço profundamente o grupo que formei.

 Você quer dizer que não haverá aquela farra na preparação do time na Suíça, como aconteceu em 2006? E os jogadores estarão liberados para baladas até as cinco da manhã em plena Copa do Mundo? Será que você conseguirá controlá-los por tanto tempo?
Dunga – Foi ótimo você ter feito essa pergunta. Eu vou antecipar a você que a Seleção Brasileira fará na África do Sul algo que a imprensa sempre cobrou. Eu cansei de ouvir que vocês jornalistas apontam que as seleções européias é que estão certas. Então vamos seguir o caminho do profissionalismo, da modernidade que eles adotam. Eu não quero ninguém reclamando na África. Estou avisando antes. Vamos ser tão ou mais profissionais que os europeus em relação a tudo. Principalmente em relação à imprensa. E eu quero falar mais: tudo o que vocês acusam que a Seleção fez na Alemanha…

 (interrompendo)Você quer dizer farras, baladas, festas pela madrugada em plena Copa…
Dunga – Sim…Essas coisas. Quero ser bem claro para que você e todos me entendam. Essas situações vieram de fora para a Seleção. Não foram os jogadores que impuseram nada. Eles tiveram a liberdade e não fizeram nada além disso. Não podem ser acusados de nada. O que atingiu a Seleção Brasileira não partiu da própria Seleção, dos jogadores. Havia ordem, liberdade para isso. Muitas acusações são injustas porque nada além do combinado estava contecendo.Ninguém fugiu da concentração e foi para balada. Era permitido. Comigo não será. Ponto final. Tudo transparente, combinado antes. Eu sou direto. Comigo não há mal entendido.

 Já entendi. O Parreira deu essa liberdade. E você não deixará tudo tão solto. É isso?
Dunga – Você é inteligente. Sabe o que eu quero dizer. E importante: não estou acusando ninguém particularmente. Falo sobre o contexto. Não sei até que ponto qualquer pessoa, mesmo o Parreira, tinha como impor certos limites. Em Copas anteriores houve liberdade até exagerada e o Brasil voltou campeão. Só que os tempos mudaram. O preparo físico, a concentração, o foco tem de ser total. Não aceita deslize. E quero dizer que nestes três anos e meio de convívio com a Seleção nós disputamos torneios oficiais e fizemos vários amistosos. Ficou bem claro o comprometimento, todos que têm trabalhado comigo sabem o que significa estar na Seleção Brasileira. E na Copa a dedicação de todos será ainda maior.

Você acha que conseguirá controlar os jogadores nesse mês de competição? E as baladas após as partidas? Eles estarão liberados?
Dunga – Repito apenas que a palavra comprometimento tem um sentido muito claro para mim. A Copa fica para a vida inteira. O jogador que for para lá sabe o quanto vale a pena estar mergulhado de cabeça no Mundial e não pensar em mais nada. Eu estou tranquilo. A Seleção Brasileira estará protegida dos fatores externos. Até da imprensa. Repito: faremos exatamente como as seleções da Europa. (Dunga não quis dizer claramente, mas as entrevistas estarão restritas. O contato com os jornalistas será superficial. Limitado às entrevistas coletivas que a Fifa exige. Nada além. Na Alemanha vários deles ficam esperando o horário dos principais telejornais da televisão. Atendiam na própria concentração. O treinador já pediu e conseguiu com o comando da Seleção que isso não aconteça no ano que vem. A concentração será sagrada, só dos jogadores e Comissão Técnica.)

Dunga…
Dunga – Eu já preciso embarcar…

 As últimas, por favor. Você já sabe em que lugar da África o Brasil ficará antes da Copa? Angola? Moçambique?
Dunga – Olha. Não há uma decisão tomada ainda em relação a este lugar. Eu só posso falar a você o que eu disse ao presidente Ricardo Teixeira. Nós precisamos de uma cidade com um clube igual ao que iremos encontrar na África do Sul durante a Copa do Mundo. Quero uma cidade com baixa temperatura, fria. E que fique na altitude. O país quem vai definir será a CBF. Nosso planejamento será o melhor possível. E repito: desde antes da Copa a Seleção estará recebendo tratamento europeu que eu já disse. Estou falando agora, em dezembro, os jogadores terão toda a tranqüilidade para trabalhar. Se tiverem de ficar um pouco mais isolados, como os europeus que vocês da imprensa tanto gostam, vão ficar. Eu tenho de ir embora…

 Por favor essa é a última pergunta, prometo. Várias pessoas na CBF, a começar pelo presidente Ricardo Teixeira, estão entusiasmadas com seu trabalho. E inclusive cogitam sua permanência para a Copa de 2014. Você quer ficar se ganhar a Copa?
Dunga – Eu serei o mais claro possível. Não fico de jeito nenhum. Nem se for campeão. Não há como me convencer. Sou um homem de palavra. Meu compromisso com o presidente Ricardo e com a CBF termina com a Copa do Mundo. Sei que a próxima Copa acontecerá no Brasil. Mas não há nada no mundo que me faça mudar de idéia. É uma honra estar no lugar mais cobiçado do futebol mundia. Ter o privilégio de comandar a Seleção Brasileira. Mas é uma das cargos que mais exigem da pessoa. A pressão é enorme. E não só para você. É pressão para a sua família, para as pessoas com quem você se importa na vida. Quatro anos está bom demais. Sinto que aprendi e estou aprendendo muito. E que, graças a ajuda de muita gente, a começar pelo Jorginho, estou conseguindo cumprir a missão que o presidente Ricardo me passou. Assumi a Seleção desacreditada, vindo do baque da Copa de 2006 e tenho certeza que estou fazendo um trabalho digno. E será assim até a Copa do Mundo. Depois, eu vou seguir a minha vida. Não fico de jeito nenhum. Pode escrever. E eu não volto atrás no que falo…

 Você vai seguir como técnico ou pode assumir outro cargo na Seleção, como coordenador?
Dunga – Vou continuar como técnico. Essa é a minha nova carreira e não quero mudar. Não há motivo. Só não vou ficar na Seleção Brasileira. A minha decisão já está tomada. Agora eu tenho de ir…(Agentes federais o levam rapidamente para a sala de embarque para a África do Sul…)