Embaixador Afonso José Sena Cardoso

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Cônsul-Geral do Brasil em Toronto.

Por Cristiana Moretzsohn

Embaixador Afonso Cardoso e esposa Solange Escosteguy Cardoso.

Há um ano e dez meses, o embaixador Afonso José Sena Cardoso chegou em terra canadense assumindo o posto de Cônsul-Geral do Brasil em Toronto, acompanhado da esposa, a artista plástica Solange Escosteguy Cardoso. Com mais de 40 anos de uma brilhante carreira diplomática, Afonso Cardoso representou o Brasil em países muito distintos e agora nos conta um pouco da experiência de viver e trabalhar no Canadá, em uma das maiores cidades multiculturais do mundo, Toronto.

Em breve o senhor completará dois anos à frente do Consulado Brasileiro em Toronto, como avalia esse período inicial?
Cardoso: Solange e eu temos gostado tanto de nossa experiência em Toronto que já estamos achando que passa rápido demais. A comunidade brasileira em Toronto é bem diferenciada, mas todos têm em comum a maior capacidade de se integrarem, além de competência e disposição para o trabalho. Não espanta, portanto, que, nos meus contatos com autoridades locais, ouça sempre o reconhecimento pelo aporte sempre positivo e pacífico que a comunidade brasileira traz para esta cidade multicultural.

São 44 anos de carreira diplomática representando nosso Brasil em países de culturas muito distintas; Hungria, Uruguai, Chile, EUA e Angola. Qual desses lugares mais lhe marcou?
Cardoso: Nunca comparamos países ou cidades. Tanto Solange quanto eu procuramos sempre encontrar o que de melhor podemos ter no novo destino. E, sinceramente, aprendemos muito em cada um de nossos postos e temos de todos eles as melhores recordações.

A similaridade cultural entre Brasil e Angola facilitou seu trabalho frente à Embaixada do Brasil?
Cardoso: No último censo, mais da metade da população brasileira se autodefiniu como descendente de africanos. Anos atrás, quando tive a honra de representar o Brasil em um encontro sobre integração econômica na África do Sul, fui inesperadamente saudado como o participante do segundo maior país africano do mundo: o Brasil.

Mais que em nosso sangue, a África está em nossa cultura: nossa maneira de ser, de ver e entender o mundo. Por isso, sempre digo que para um brasileiro visitar Angola, ou a África negra, é como ir ao encontro de aspectos importantes de nossa identidade. No caso específico de Angola, os 500 anos de história em comum, a música, as mesmas leituras aproximam ainda mais brasileiros e angolanos.

O Brasil é a sexta maior economia do mundo (ultrapassou recentemente o Reino Unido) e um mercado prioritário para o Canadá. O senhor percebeu um aumento de pedido de vistos de trabalho para o Brasil?
Cardoso: É muito bom termos nos tornado a sexta maior economia do mundo. Melhor ainda saber que, muito breve, seremos a quinta. Mas sobretudo ter a certeza de que essa progressão se dá também porque o mercado brasileiro aumentou, porque milhões de brasileiros são incorporados anualmente à classe média, à sociedade e à cidadania. Esse é fator essencial para que se possa avançar com um crescimento realmente sustentável.

O crescimento do Brasil em um mundo ainda tão severamente afetado pela crise gerada em 2008 nos EUA, faz do país e de sua economia a esperança de emprego e de uma vida melhor para milhares de pessoas mundo afora. Tem aumentado substancialmente o número de vistos de trabalho para o Brasil em todo o mundo, em alguns lugares mais que nos outros.

Os tristes e espantosos níveis de desemprego para jovens na Europa ameaçam com uma geração perdida. Muitos dos brasileiros que são hoje expatriados tiveram também que sair do país, anos atrás, por conta da década perdida. Sabemos o que significa a emigração e sinceramente esperamos que muitos dos jovens e não tão jovens vitimados pelo desemprego mundo à fora possam encontrar no Brasil ou em outros países, que têm resistido melhor à crise internacional, a esperança despedaçada.

Do ponto de vista multilateral, Brasil e Canadá são parceiros em diversas áreas. Qual delas o senhor acredita ser a prioridade para o Brasil no momento?
Cardoso: Brasil e Canadá já estiveram juntos em várias campanhas nos foros multilaterais e, ainda hoje, estamos juntos. Por exemplo, no Haiti procuramos ajudar nossos irmãos haitianos a paliar o déficit de desenvolvimento com que há décadas se defrontam. No plano bilateral, temos igualmente um acervo importante de diálogo, cooperação, comércio e investimento. A boa nova é que Canadá e Brasil coincidem agora em atribuir um ao outro prioridade ainda mais alta na sua interação com o mundo. E a enumeração das áreas que reclamam a maior atenção dos dois parceiros é a mesma: energia limpa, ciências da saúde, nanotecnologia, ciências do mar…

O Canadá já é o principal destino de estudantes de intercâmbio….a Província de Ontário tem sido a número um na preferência desses estudantes.

Os dois países compartilham estreitos laços culturais e acadêmicos. Quais as novidades que os brasileiros podem esperar dessa importante aliança?
Cardoso: Brasil e Canadá firmaram recentemente novo acordo de cooperação científica, tecnológica e de inovação. Ao abrigo desse instrumento, vários memorandos de entendimento têm sido assinados entre instituições canadenses e brasileiras, como a Universidade de Toronto e a Universidade de São Paulo, e projetos comuns começam a ser desenvolvidos em algumas das áreas identificadas como prioritárias pelos dois lados.

Adicionalmente, como sabem, o Brasil iniciou um ambicioso programa intitulado Ciência sem Fronteiras que tem como objetivo permitir que centenas de milhares de estudantes brasileiros, em escolas técnicas e universidades, façam pelo menos um ano de seus cursos nas áreas de ciência e tecnologia em instituições estrangeiras. O Canadá, juntamente com os EUA, Alemanha, Reino Unido, França e outros países receberão milhares desses jovens brasileiros.

…..vários memorandos de entendimento têm sido assinados entre instituições canadenses e brasileiras, como a Universidade de Toronto e a Universidade de São Paulo.

O Canadá é atualmente o destino preferido dos estudantes de intercâmbio. Quais províncias canadenses são as mais procuradas e porque?
Cardoso: O Canadá já é o principal destino de estudantes de intercâmbio que querem, por imersão, aprender bem um idioma no exterior. Ultrapassou a Austrália, que tinha a dianteira nesse quesito. No Canadá, até agora, a Província de Ontário tem sido a número um na preferência desses estudantes.

Existe um perfil definido do imigrante brasileiro no Canadá?
Cardoso: Se olharmos os números das estatísticas canadenses, veremos que o fluxo de migrantes brasileiros para o Canadá – importante para nós, mas pequeno quando comparado aos fluxos que vêm hoje da Ásia e vieram anos atrás da Europa – foi mais intenso até 1991 e retomou pulso a partir de 2001. É provável que o primeiro momento tenha a ver diretamente com a já mencionada década perdida. E, que o segundo, esteja mais relacionado com a internacionalização da economia e do profissional brasileiro. Tudo isso são hipóteses porque o perfil é um só: gente séria e trabalhadora, que tem uma clara capacidade de integração. São os nossos melhores representantes diplomáticos.

A comunidade brasileira em Toronto é bem diferenciada, mas todos têm em comum a maior capacidade de se integrarem, além de competência e disposição para o trabalho.

Qual a opinião sobre o Brasil aos olhos canadenses? E sobre o Canadá aos olhos brasileiros?
Cardoso: Para que aperfeiçoemos e concentremos ainda mais as relações bilaterais, faz falta um conhecimento recíproco melhor. Na verdade, os brasileiros conhecem pouco do Canadá, e o vice-versa dá empate. Somos todos até certo ponto responsáveis por isso: quando acentuamos estereótipos ou nos conformamos com lacunas. Porém, estou convencido de que projetos conjuntos, cooperação educacional e promoção cultural do Brasil no Canadá e do Canadá no Brasil nos ajudarão a descobrir a riqueza e a diversidade da alma do brasileiro e do canadense.