Embaixadora Wanja Nóbrega

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Diplomata será a nova Embaixadora do Brasil em Bangladesh.

Por Cristiana Moretzsohn

Embaixadora Wanja Nóbrega

Diplomata de longa carreira internacional, há seis anos no Consulado Geral do Brasil em Toronto, a Ministra Wanja Nóbrega brilhou à frente do Setor de Promoção Comercial e de Investimentos do Brasil (SECOM), estreitando ainda mais os laços comerciais entre Brasil e Canadá e brevemente será a nova Embaixadora do Brasil em Bangladesh.

A Sra. foi indicada pela presidente Dilma Rousseff para ser a nova Embaixadora do Brasil em Bangladesh, quando irá assumir o posto?
Nóbrega: O processo de designação para assumir a chefia de uma Embaixada é longo e composto por várias etapas. A primeira delas, naturalmente, é a escolha de seus embaixadores pela Presidente do Brasil; em seguida, o país receptor deve expressar o acordo em receber aquele embaixador ou embaixadora, o chamado “agrément”, fase que já passei, isto é o Governo de Bangladesh expressou oficialmente a concordância que eu represente o Governo brasileiro junto aquele país. Agora a próxima etapa, exigida pela Constituição Federal, é ter meu nome submetido a aprovação pelo Senado Federal. Estou aguardando que o Senado me convoque para ser sabatinada pelos senadores membros da Comissão de Relações Exteriores e, caso aprovem a minha indicação, ser em seguida referendada pelo Congresso Nacional. Após cumpridas essas etapas, serei oficialmente removida de Toronto para Dhaka. A minha saída está dependendo de cumprir esse processo, o que deve ocorrer ao longo dos próximos meses. Acredito que antes do final de 2012 terei assumido minha nova função diplomática como Embaixadora do Brasil em Bangladesh.

 Bangladesh é o nono país mais populoso do mundo, uma democracia parlamentar. O que a Sra. acredita ser seu maior desafio profissional no país?
Nóbrega: O Brasil reconheceu a independência de Bangladesh em 1971 e em 1974 abriu sua embaixada em Dhaka. Entretanto, em meados da década de 1990, por razões de dificuldades orçamentárias, desativou a representação naquele país, assim como em vários outros. Há dois anos reabriu a Embaixada em Dhaka. Nesse contexto de reinicio de presença diplomática, as relações tendem a se adensar sobretudo porque se reveste de grande importância o fato de que é a primeira embaixada de um país latino-americano em Bangladesh. A nossa presença constante certamente contribuirá para a aproximação política entre os dois países.

Brasil e Bangladesh vivem um momento político e econômico muito interessante e de certa forma coincidente. O Brasil, república presidencialista, tem a Presidente Dilma Rousseff, pela primeira vez uma mulher como Chefe de Estado e de Governo; Bangladesh, república parlamentarista e de maioria islâmica, também tem uma mulher como Chefe de Governo, a Primeira-Ministra Sheikh Hasina Wajed.

Pelo lado econômico, o Brasil em 2003 foi apontado pela instituição financeira Goldman Sachs como promissor país emergente, e hoje se destaca no cenário internacional; em 2010, o mesmo grupo financeiro Goldman Sachs analisou os “novos 11 países” emergentes, entre eles, Bangladesh, que já está exportando mais US$ 15 bilhões em vestuário e confecção.

Os desafios, que sempre existem ao iniciar uma nova missão, serão, em primeiro lugar, compor e treinar uma nova equipe de trabalho, e, em seguida, detectar as melhores oportunidades para adensar as nossas relações e dar um bom andamento aos projetos de interesse mútuo.

 E qual será seu maior desafio pessoal em um país tão diferente do Canadá?
Nóbrega: Em termos pessoais, sem dúvida a distância e a diferença de fuso horário, acarretarão ajustes e adaptações naturais, sobretudo tendo em vista que tenciono manter contatos frequentes com o Canadá, mais particularmente em Toronto, onde deixarei muitos amigos ademais da minha filha Nina, que estuda na Universidade de Toronto.

As diferenças entre o Canadá e Bangladesh são diversas, desde tamanho do país e da população, ademais de cultura, lingua, religião e modo de vida. Mas é justamente a diversidade que me fascina como diplomata: a perspectiva de poder conhecer e viver em lugares tão diferentes, mas igualmente enriquecedores.

Como é o relacionamento entre Brasil e Bangladesh?
Nóbrega: Graças à reabertura das embaixadas em Dhaka e em Brasilia, Brasil e Bangladesh iniciam, como disse, uma nova e promissora fase de relacionamente diplomático, comercial e de cooperação em vários níveis. No meu entender, há muito a ser explorado, desde a área de promoção comercial (atingimos, em 2011, mais de US$ 1 bilhão em trocas comerciais, volume já promissor); cooperação bilateral tanto técnica (por exemplo, Bangladesh tem muito interesse em receber cooperação agrícola da Embrapa para desenvolver o plantio de novos grãos de feijão), quanto cooperação na área social. Pelo lado bengale, um dos melhores exemplos nesse campo é a criação bengale do sistema de micro-crédito para a população mais pobre, projeto esse que, além de ter sido agraciado com o Prêmio Nobel da Paz, em 2006, tem merecido o interesse do governo brasileiro em aprofundar o conhecimento dessa sistemática, e despertado a curiosidade de estudantes universitários que procuram estagiar no Grameen Bank, em Dhaka, para melhor entender a aplicabilidade e adaptabilidade financeira para a realidade brasileira daquele sistema. Além disso, Bangladesh tem interesse em receber a cooperação para eventualmente instituir programas sociais como Bolsa Família, Fome Zero, Minha Casa/Minha Vida, para citar alguns.

Ademais o relacionamento bilateral ser muito cordial, há um grande potencial de cooperação diplomática em foros multilaterais, sobretudo nas áreas de meio-ambiente, tema particularmente importante tanto para o Brasil quanto para Bangladesh. Outro campo de interesse mútuo é cooperação e capacitação para participar das Forças Internacionais de Paz, organizadas pelas Nações Unidas. Atualmente, Bangladesh é o pais com maior contigente nas Forças de Paz.

Embaixadora, a Sra. brilhou profissionalmente em Toronto, durante os seis anos a frente do Setor de Promoção Comercial. Como avalia sua passagem pelo Canadá?
Nóbrega: Ter trabalhado no Consulado Geral do Brasil em Toronto chefiando o Setor de Promoção Comercial e de Investimentos do Brasil (SECOM) nos últimos seis anos foi para mim um privilégio e uma honra. Quando cheguei, em 2006, o SECOM em Toronto era responsável por promover o comércio e os investimentos no Brasil em todo o território canadense. Assim, tive oportunidade de viajar de leste a oeste, de norte a sul no Canadá, o que me possibilitou a ter uma visão ampla desse pais. O comércio bilateral Brasil-Canadá era modesto e deficitário para o Brasil, pouco ultrapassando US$ 2 bilhões. Em 2011, a balança comercial bilateral alcançou mais de US$ 6,6 bilhões e, o nível de investimento bilateral alcança hoje mais de US$ 20 bilhões. Entre vários trabalhos que desenvolvi no Canadá, alguns merecem destaque, entre eles, ter iniciado a participação brasileira na feira de alimentos SIAL, que se realiza em Montreal e em Toronto; ter contribuído para solidificar vários segmentos comerciais brasileiros sobretudo na área de alimentos e bebidas (vinhos e cachaça).

Além disso, fui convidada a fazer muitas palestras e em várias cidades e para diversas instituições, tanto acadêmicas quanto financeiras. Destaco, ainda, ter podido desenvolver e falar sobre um assunto que me é particularmente caro, que é o “Empreendedorismo Feminino”, tema sempre desafiador. Esses são apenas alguns exemplos, entre tantos outros.

Após seis anos em Toronto, o mais gratificante mesmo é perceber no dia-a-dia que há nova percepção pelo povo canadense em relação ao Brasil. Os eventuais estereótipos foram substituidos por uma genuína vontade de conhecer a realidade, cultura e linguas brasileiras. Consequentemente, a comunidade brasileira em Ontário tem sido beneficiada com um maior número de manifestações culturais, políticas e de oportunidades comerciais que provocam uma gostosa sensação de elevada alto-estima. As relações Brasil-Canadá passaram para uma etapa superior e se trata de um relacionamente sustentável.

 Quem lhe substituirá?
Nóbrega: Dois novos diplomatas acabam de chegar para compor a equipe do nosso Cônsul-Geral, Embaixador Afonso Cardoso: o Conselheiro Luis Antonio Bordas Silos e a Secretária Angelica Ambrosini. O Luis Antonio passará a chefiar o SECOM e a Angelica o setor consular.

A respeito de equipe de trabalho – e eu sou muito consciente disso -, todo e qualquer trabalho que eu tenha logrado em Toronto, não teria sido possível sem a primorosa e exemplar chefia do Embaixador Afonso Cardoso, de todo apoio, carinho e estímulo recebidos da querida Solange Escosteguy Cardoso, e também pela qualificada e profissional equipe do SECOM (Priscila Hirai, Angela Rodrigues, Eduardo Rodrigues, e Adriana Gaertner), ademais dos Vice-Consules e dos funcionários consulares, sempre atentos e dedicados. A todos eles, sou muito grata pelo profissionalismo e cordialidade com que sempre me distinguiram.

 Canadá e Brasil estão cada vez mais parceiros na área comercial, algum recado para os brasileiros que pensam em investir aqui?
Nóbrega: O Canadá é um país com grande potencial, mas também com grandes desafios. O brasileiro deverá buscar nichos criativos e inovadores, usufruir de todo o arsenal de ferramentas disponíveis nos sítios eletrônicos, e sobretudo “fazer o dever de casa”, isto é, não tentar “short cut”, mas sim seguir a legislação, respeitar as regras de rotulagem, por exemplo, e persistir nos seus objetivos. E sempre ter em mente que os consulados brasileiros, assim como nossa Embaixada em Ottawa, têm setores e funcionários disponíveis para auxiliar na inserção mercadológica.

 Durante esses anos em Toronto sua família passou por várias mudanças. Suas duas filhas entraram na Universidade e seu marido, Ministro Aldemo Garcia, deixou o posto de Cônsul Adjunto de Toronto para assumir a chefia da assessoria internacional do Ministério das Comunicações em Brasília e agora a Sra. também parte para o outro canto do mundo. Como consegue lidar com a saudade?
Nóbrega: De fato, em termos pessoais e familiares, esses últimos 6 anos também testemunhei significativa evolução, mudanças, conquistas, mas também dolorosas perdas. Minhas filhas, Nina e Alice, chegaram aqui pré-adolescentes, e hoje são ambas estudantes universitárias, uma na Universidade de Toronto, onde cursa Relações Internacionais, e a segunda na Carolina do Sul, nos Estados Unidos, onde recebeu uma bolsa-de-estudo para jogar tênis e estudar na Universidade de Winthrop; Aldemo, após 5 anos dedicados ao trabalho junto à comunidade brasileira, atendeu a um importante convite para retornar a Brasilia e assumir função de grande responsabilidade. Perdemos, nesse meio tempo, minha mãe Wanice e meu sogro Aldemo. Agora, cada membro da família seguirá seu rumo atual, cada um em uma cidade, em um país; mas todos com a certeza que permanecemos uma mesma família, apoiando e nos amando. E, é claro, a internet, sobretudo o Skype, nos ajudará a manter a comunicação corrente e amenizará a sensação de distância.

 Qual recado a Sra. deixa para nossos leitores do Canadá que também estão longes de seus familiares?
Nóbrega: Repito o que disse o poeta libanês Gibran Kalil Gibran:

“Saudade é uma forma de encontro”.

OBRIGADA!!