Entrevista com Maytê Piragibe. Atriz e empresária

A atriz e empresária Maytê Piragibe fala sobre empreendorismo e sobre o sucesso de seu longa-metragem "Mise en Scène - a Artesania do Artista", selecionado para o festival de cinema independente de Toronto

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Maytê Piragibe. (Foto: divulgação)

Ela descobriu que poderia empreender quando precisou se desestressar de uma personagem “pesada” que fazia em uma novela. Foi o que aconteceu com a atriz e hoje empresária Maytê Piragibe, 37 anos, que recorreu à aromaterapia, mais especificamente aos óleos essenciais, para se desconstruir de uma vilã que estava fazendo mal à sua saúde.

Maytê conta que sentia muitas dores de estômago por conta das cenas fortes que fazia e conseguiu combatê-las de uma forma natural após uma indicação da sua mãe, Teresa Piragibe, para utilizar os óleos aromáticos.

E não é que deu certo? Aliás, deu mais do que certo porque tanto a atriz quanto a mãe viram na aromaterapia além de uma solução para os problemas de saúde, uma alternativa para montar um negócio.

Ambas fizeram um curso de perfumaria botânica e idealizaram a Fazenda Pingo do I – Essência da Bocaina, que utiliza 100% de matéria prima natural e consegue obter a cura pela aromaterapia, utilizando óleos e cremes, e com a produção de chás, folhas e flores. Além disso, mãe e filha desenvolvem também os florais, o mel de lavanda e outras plantas.

E as ações não param por aí, pois a Essência da Bocaina promove ainda palestras e cursos sobre cosméticos naturais, bio-orgânicos, biofertilizantes, gastronomia vegetariana e muito mais.

A fazenda era uma propriedade do avô de Maytê, que já criava animais, e foi modificada para receber o novo negócio.

A empreitada na verdade conciliou o gosto da atriz e da sua mãe por esse ramo, mas também foi uma maneira de empreender e garantir o futuro da família.

E o empreendedorismo da atriz não se limita somente aos óleos, pois recentemente ela estreou o seu primeiro longa-metragem, o “Mise en Scène – A artesania do artista”, que foi idealizado em sua produtora, a Piragibe Produção de Arte, e é um dos mais vistos da plataforma Globoplay.

Além de empreender, maternar também é outra vocação muito especial que a artista possui. Ela é mãe solo da pequena Violeta, de 7 anos, e afirma que a opção pela maternidade a fez ser quem é hoje. “Eu não seria a Maytê Piragibe caso não tivesse tido a coragem de assumir essa criança, a minha filha Violeta. Eu sou mãe solo com todo amor e paixão do mundo e assumi dentro de mim que posso me reinventar, sair da caixinha, estar na embalagem e também no conteúdo do produto” – enfatiza.

Leia a seguir a entrevista que Maytê Piragibe concedeu à Brazilian Wave.

Maytê Piragibe. (Foto: divulgação)

1 – BRAZILIAN WAVE – Como foi o seu primeiro contato com a aromaterapia antes de montar a sua empresa de óleos essenciais?

MAYTÊ PIRAGIBE – O meu primeiro contato aconteceu quando eu estava fazendo a personagem Jéssica, da novela “Terra Prometida”, que era uma vilã. Eu estava com algumas dores abdominais e no intestino porque a personagem era muito intensa, muito visceral. E, ao longo do meu processo artístico, desde novinha, eu sempre recorri às medicinas alternativas. Então, eu tratei com homeopatia algumas questões. Eu sempre fui uma criança que gostava muito de me alimentar bem, com muita fruta, e minha mãe sempre foi muito atenta às medicinas mais naturais. Portanto, automaticamente nesse processo e com a chegada da aromaterapia forte no Brasil, há seis anos eu tive a oportunidade de ter essa sessão com a aromaterapeuta e curei todas as minhas dores, resgatei a minha autoestima, tive um processo de transformação energética e biológica muito grande e que foi muito potente e transformador. E isso foi um portal mágico! A minha aromaterapeuta, que mora hoje na Suíça, foi uma fada linda e me apresentou a alquimia, a magia, ou seja, um lugar muito amoroso e que me fascinou. E, depois dessa experimentação, eu e a minha mãe conversamos muito sobre o poder da alquimia, da ervaria e das plantas medicinais e da nossa biodiversidade aqui no Brasil, que é uma referência mundial, e quanto que a gente poderia agregar e transformar a nossa fazenda em algo que proporcionasse mais cura e bem-estar para os outros. E a nossa conexão foi com as plantas aromáticas e medicinais que são encantadas, mágicas e poderosíssimas. Desde então, a minha conexão com elas é diária e muito profunda.

2- BRAZILIAN WAVE – Como aconteceu essa transformação na fazenda do seu avô e que resultou na produção dos óleos? Você já tinha feito um estudo do mercado e da demanda pelo produto quando decidiu montar o negócio?

MAYTÊ PIRAGIBE – Então, esse estudo de mercado foi acontecendo com o processo de implementação e, há quatro anos, quando nós iniciamos o projeto, não existia direito nem apontamentos ou desbravamentos sobre a potência dos óleos essenciais e hidrolatos nacionais. Ao longo dos últimos anos houve um desabrochar. A aromaterapia e aromaecologia é muito popular na Europa. Porém, com a chegada de uma empresa vinda dos Estados Unidos houve boom desse ramo, cuja logística era muito expressiva e isso nos ajudou ainda na qualidade de importação dos óleos. Então, a gente importa muitos óleos. Existem algumas empresas que fornecem esses óleos, mas são pouquíssimos e raríssimos os produtores rurais organizados e legitimados. Portanto, muitos importam, mas quase ninguém produz nessa esfera orgânica, sustentável, ecológica e nessa artesania que é essa produção agrícola. Então, é um estudo de mercado que a gente ainda fica em análise porque há um diferencial gigante da nossa empresa, pois o solo da nossa terra é todo cristalizado, nós temos quatro nascentes cristalinas, protegidas e que abastecem a nossa propriedade com turmalina negra e lepidolita, que são cristais poderosíssimos de ancoramento, proteção ou elevação vibracional. Assim, com esse diferencial dos cristais, eu fui correr atrás da minha formação de cristaloterapeuta e também em perfumaria botânica, junto com a minha mãe. Portanto, o nosso diferencial é proporcionar essa integração da cura pelas plantas com a cura dos cristais, e produzir esses óleos com um certificado orgânico é uma grande vitória. Esse segmento é uma potência, e tem uma demanda gigante de um mercado que está em expansão, graças a Deus!

3- BRAZILIAN WAVE – O que vocês dispõem na fazenda além da produção dos óleos? Gastronomia e agricultura também são segmentos encontrados por lá?

MAYTÊ PIRAGIBE – Agora na pós-pandemia, a gente vai retomar o nosso projeto de voltar a proporcionar workshops, vivências e experimentações na sede. A gente fez isso antes da pandemia com curso de saboaria natural, mostrando o processo de destilação, o acompanhamento das plantações, o nosso laboratório e como é feita a parte da agricultura de experimentação da terra e das plantas. Então, o nosso foco para o ano que vem (2022)é retomar o ecoturismo, pois é importante trazer a experimentação presencial para o nosso público. Então, em breve a gente está reformando para ter a nossa lojinha, para ter um lugar mais aprazível e mais gostoso e que a gente possa receber tanto para visitação quanto para os workshops. A nossa produção é focada nos óleos essenciais de 22 plantas, sendo que algumas delas são nativas da Essência da Bocaina, com todo o cuidado de proteção ambiental e toda certificação regulamentada para estarmos coerentes e cuidadosos com a nossa economia circular sustentável e orgânica. Os hidrolatos, por exemplo, são as águas florais, ou seja, o restinho do óleo essencial bem diluído, que fica bem suave e que o grande público ainda não conhece, mas que tem um poder medicinal, cosmético e gastronômico incrível. E temos ainda a produção do nosso mel de lavanda, que é maravilhoso! A gente está desenvolvendo também uma série de outros produtos, mas ainda é tudo segredo.

4- BRAZILIAN WAVE – Como funciona o tratamento com os óleos essenciais? Quais são os principais benefícios que eles promovem?

MAYTÊ PIRAGIBE – Os óleos essenciais têm quatro pilares: o medicinal, que é surpreendente. Cada planta tem a sua propriedade medicinal muito relevante, muito ativa, algumas bactericidas, vermicidas e anti-inflamatórias. Além da parte medicinal, tem a parte terapêutica que é maravilhosa, ou seja, um lugar de reverberação com o nosso sistema límbico, que é onde acessamos as nossas emoções mais primárias, animalescas, ancestrais e pouco exploradas em nosso cérebro. O nosso sentido olfativo foi pouco explorado ao longo dos anos e agora a gente está nesse resgate para uma questão investigativa, científica, com mais trabalhos, teses e estudos sobre a potência que é ativar a nossa intuição. Então, a parte terapêutica é muito importante para o desbloqueio de antigos medos e traumas. E tem a parte prática do nosso lado lifestyle, que é a nossa cosmética, com produtos que levam os óleos essenciais, os hidrolatos, e que conseguem regenerar a pele de problemas seríssimos como a dermatite ou a psoríase. Então, tem essa parte da beleza natural. Hoje não eu não tenho nenhuma intervenção no meu rosto, pois quero envelhecer com naturalidade e tranquilidade. Eu não sou contra procedimentos, mas o que eu puder cuidar de uma forma natural eu priorizo. E tem ainda a questão gastronômica, que é linda de viver, e traz referências com as nossas ervas. O nosso país é tropical, múltiplo e é onde a gente busca muitas inspirações. Além disso, trazemos referências de outros países. Há ainda um resgate com chefes de cozinha maravilhosos e talentosos, que devolvem receitas com a utilização dos hidrolatos, que é algo inédito em nosso país.

5- BRAZILIAN WAVE – Como foi empreender nesse ramo? Quais foram as dificuldades encontradas e o que foi fundamental para o sucesso dessa empreitada?

MAYTÊ PIRAGIBE – Empreender é um desafio diário porque, infelizmente, no Brasil tudo o que eles querem é que a gente desista de ser orgânico. A parte burocrática é muito cansativa e maçante, mas quem tem paixão, quer aprender e evoluir consegue. E a gente é muito honesta, muito íntegra com as coisas, então a paciência é um lugar diário, de saber que a gente está fazendo o nosso melhor. Existe a burocracia, o tempo da terra, existe o tempo das coisas, então os desafios são grandes e diários, mas a paixão, trazer o inédito com o nosso propósito de vida alinhado à nossa missão de alma é o que faz a gente perseverar com muito carinho e paciência. É claro que às vezes há um choro, um cansaço, mas a gente recomeça no dia seguinte com alegria, com um brilho no rosto e um sorriso.

Maytê Piragibe. (Foto: divulgação)

6- BRAZILIAN WAVE – Você e a sua mãe pretendem expandir o negócio ao exterior, até países como Canadá e Estados Unidos por exemplo?

MAYTÊ PIRAGIBE – Com certeza, agora a gente está na fase de entender como é o mercado internacional. Nós temos uma parceria com a nossa aromaterapeuta, que atualmente mora na França e é a responsável pelo desenvolvimento dos produtos. Além disso, nós estamos focadas num projeto que é completamente sigiloso. O nosso próximo passo é abranger principalmente o mercado europeu e, na consequência disso, todo o mundo.

7- BRAZILIAN WAVE – Além do negócio voltado à aromaterapia, você também é bem sucedida como atriz. Recentemente, lançou o primeiro longa-metragem da sua produtora, o “Mise en Scène – A Artesania do Artista”, e que já é um dos mais vistos da Globoplay. Fale-nos um pouco sobre esse projeto.

MAYTÊ PIRAGIBE – Esse projeto é a realização de um grande sonho. Tal argumento surgiu depois de muitos anos, pois eu estava há quase 20 com contratos longos e exclusivos na televisão. Eu passei durante cinco anos pela Globo, depois fui tragada pela Record, onde fiquei por mais de 12 anos, e esse argumento sempre revirava a minha cabeça, até porque eu comecei a trabalhar muito cedo, com quatro anos. Eu fui me profissionalizar na sequência, com 13 anos, no teatro, e com 17 eu fui fazer faculdade. Eu só não consegui finalizar porque o mercado de trabalho me tragou. Eu sempre fiz cursos de reciclagem, ou seja, um estudo autônomo ao longo da minha vida e entre os projetos. E o argumento sobre o processo criativo, sobre a importância da artesania artística dos atores e atrizes era algo que eu sempre tive muita curiosidade, ou seja, de beber da fonte de outros e não só da minha e do repertório que eu construí ao longo da carreira. Era olhar para um lugar de mais empatia, generosidade e inclusão para criar esse manifesto artístico.

O “Mise en Scène – A Artesania do Artista” surgiu com o meu argumento e com essa vontade gigante de criar um projeto autoral independente, que não precisasse de patrocínios para ser realizado, mas que fosse movido pela paixão. Então, foram quatro anos que eu, ao lado dos meus sócios Manuh Fontes e Leandro Pagliaro, nos incentivamos, nos motivamos e investimos para que esse projeto se realizasse. Essa obra é linda e fala sobre a importância da cultura, da arte, da criatividade, investigando cada ator. São dez atores maravilhosos que participaram desse projeto, onde abordamos um lugar muito individual e cuidadoso das criações artísticas de cada um deles. Vender o projeto para a Globoplay e, em um mês, ser um dos documentários mais vistos do streaming dessa empresa que eu admiro, amo, e para a qual eu estou muito feliz em voltar, é uma grande conquista, uma vitória gigante. E nós fomos selecionados para o Festival de Cinema Independente de Toronto e também para o Festival Internacional Feminino de Cinema de Toronto. E eu desejo que esse projeto tenha vida longa, que mais e mais pessoas o vejam porque, independente da profissão, todos nós somos artistas e esse documentário serve para inspirar e resgatar a criatividade de cada um de nós. Ele é muito significativo para mim e para o lançamento da minha produtora, a Piragibe Produções de Arte, e eu estou muito realizada. Que venham os próximos!

8- Quais são os conselhos que você dá às pessoas que querem empreender, mas não sabem por onde começar ou têm medo de perder dinheiro?

MAYTÊ PIRAGIBE – A nossa felicidade, a nossa vida e a nossa saúde não esperam menos do que a nossa coragem de viver gozos, conquistas e desafios. A gente só surpreende quando a gente acredita, quando erra e acerta, quando tem paixão e não fica refém dos outros, da instituição e das empresas. Também como servidora neste sentido, a gente poder se reinventar, tem que ter uma vocação, assim como qualquer profissão. Mas, empreender e maternar são duas vocações especiais que, se você não tem vontade, se isso não te alimenta ou impulsiona, não seja mãe e não abra uma empresa, porque são duas coisas que você deve estar 24 horas dedicada ao outro, pois são organismos vivos e dependentes da gente. Então, é uma doação diária extrema e que está além da gente, de coisas que estão além do nosso controle. Portanto, a minha dica é que você escute a tua paixão, escute com a tua alma e com o teu coração cada coisa que te faz brilhar os olhos, cada experimentação que você pensa diariamente e quer muito. Para mim, ser mãe sempre foi esse desejo e é a melhor coisa que eu escolhi na minha vida. Empreender na arte e na terra também foi algo que não poderia ter deixado de acontecer. Eu não seria a Maytê Piragibe caso não tivesse tido a coragem de assumir essa criança, a minha filha Violeta, há 7 anos. Eu sou mãe solo com todo amor e paixão do mundo e assumi dentro de mim que eu posso me reinventar, que posso sair da caixinha, estar na embalagem e também no conteúdo do produto. Essa disponibilidade me traz, cada vez mais, coragem para a vida – com carinho, amor, paixão – e para os tombos que a gente leva.