Opinião – Identificação com classes sociais limitam nosso poder para impor mudança

por Flavio Nienow

 

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Imagem: “Operários” – Tarsila do Amaral

No Brasil, mesmo sem perceber, nos identificamos intensamente com classes sociais. Todos sabemos com precisão a que classe social pretencemos, e também acreditamos ser capazes de identificar a que classe social as outras pessoas pertencem.
Obviamente no resto do mundo também existem classes sociais, mas elas não são tão evidentes como no Brasil, e não interferem tão claramente na cultura ou ideologia das pessoas. Você pode ir a um restaurante na América do Norte e ver pessoas das mais diversas classes sociais, e vai ser muito dificil identificar a que classe social cada pessoa pertence.
Classes sociais no Brasil não são somente uma questão de renda mensal… elas vão muito mais longe. Existe uma cultura e uma ideologia por trás de cada classe, um forte senso de identificação difícil de explicar para alguém de fora do país. Basicamente, a classe alta não quer ser colocada no mesmo barco da classe baixa, e a classe baixa acha que não é boa o suficiente para estar no mesmo barco. E o que é pior, existe um ressentimento entre uma classe e outra.
Na América do Norte, pessoas de classes mais baixas acreditam que se elas trabalharem muito ou abrirem o seu próprio negócio, elas poderão subir na vida. No Brasil, as classes mais baixas ressentem as classes mais altas por terem mais dinheiro, assim como as classes mais altas julgam com inferioridade (e até mesmo desdém) as classes mais baixas.
Durante as eleições presidenciais de 2015, estas disputas se tornaram ainda mais evidentes nas redes sociais. As pessoas não estavam criticando os candidatos à presidência, mas sim uns aos outros por defenderem seus candidatos. Uma das críticas mais comuns nas redes sociais dizia que as classes mais baixas re-elegeram a presidente Dilma por dependerem do bolsa família e temerem que o programa iria acabar se o oponente vencesse.
O que devemos prestar atenção é que as pessoas não estavam atacando um problema ou uma ideologia… elas estavam atacando umas as outras. Isso não é produtivo, e com certeza não beneficia o Brasil. É claro que no Canadá as pessoas ainda tem suas proprias preferências e opiniões, mas em geral, existe uma voz uníssona no país. Quando algo negativo acontece na política que não corresponde aos valores do país, as pessoas se juntam para atacar o problema. Isso porque os principais valores da sociedade refletem as expectativas da maioria dos cidadãos. Não existe uma divisao de ideologia entre pobres, ricos e classe média.
O problema do Brasil é que enquanto nos dividimos em classes sociais, não temos uma voz uníssona. Nos distraimos com a ilusão de que vivemos em realidades diferentes, quando na verdade somos dois lados da mesma moeda. Essas diferenças não passam de uma ilusão que existe para nos distrair do problema real.
Enquanto nos acusamos, julgamos e atacamos, não estamos olhando para o governo. Estamos olhando uns aos outros, e a raiz do problema está passando despercebida. Enquanto os brasileiros não se darem conta de que estamos todos no mesmo barco e de que todos somos afetados pelas mesmas decisões do governo, vamos continuar ignorando o problema real, ou pior, não tendo as forças necessárias para corrigí-lo. Enquanto não acharmos uma voz uníssona, os brasileiros nunca terão a força necessária para impor mudança.

*Flavio Nienow é editor do jornal Lakes District News, na cidade de Burns Lake, em British Columbia.

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