Madame Tattoo

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Marcella Rangel e seu talento pela arte de tatuar.

Por Nádia Nogueira

A Paulista e bacharel em moda, Marcella Rangel traz para Toronto seu talento e amor pela a arte de tatuar.

Marcella chegou ao Canadá pela primeira vez há mais de dez anos e atualmente divide seu tempo como tatuadora profissional entre Toronto e São Paulo. Para ela foi difícil estabelecer-se em um mercado profissional dominado por homens.

Praticamente autodidata, Marcella aprendeu técnicas com a mãe de uma amiga e praticou a arte entre amigos. De repente, encontrou uma fila de amigos querendo fazer tatuagem e, dessa forma, Marcella percebeu que precisava de uma estrutura melhor para atender a todos e firmou-se como profissional em 2006, atuando em um estúdio em São Paulo.

Formada em moda, Marcella tem vasta experiência em estamparia e ainda hoje faz alguns trabalhos. Para ela, moda tornou-se algo muito massificado, bem diferente de tatuagem. “Tatuagem ainda é uma coisa alternativa, você não copia o que outra pessoa faz,” conta Marcella.

Wave conferiu de perto o trabalho da artista em Toronto. Leia abaixo, entrevista com a Madame Tattoo.

Você acha que moda e tatuagem andam juntas?
Rangel: A tatuagem é um pouco mais pessoal, pois você “veste” aquilo que você é. Está no seu corpo, mostra para o mundo todo e não tem medo de dizer quem é.

 Conte-nos como surgiu a paixão por tatuagem.
Rangel: A tatuagem sempre foi uma paixão desde que me conheço por gente. Eu fazia desenhos e tinha uma canetinha para desenhar nos amigos. Então, quando eu tinha mais ou menos 16 anos visitei o Canadá pela primeira vez e a mãe de uma amiga minha, que fazia maquiagem definitiva aqui, me ensinou a montar o equipamento e foi então que comecei a praticar os desenhos em pele de porco e frutas. Depois de uma certo tempo, comecei a praticar nos meus amigos.

 Você tem várias tatuagens no corpo, qual foi sua primeira, quantas tem e qual sua preferida?
Rangel: Minha primeira tatuagem fiz no dia do meu aniversário de 18 anos. É o desenho de umas asas, que fica nas minhas costas. Fui um dia antes para fazer, mas o tatuador disse que não poderia fazer, pois eu era menor de idade, então tive que voltar no dia seguinte. Já perdi a conta de quantas tatuagens tenho. A última tatuagem é sempre a preferida.

A pessoa tem que saber desenhar e pintar, ser um artista antes de tudo. Isso é o principal antes de iniciar em qualquer escola de tatuagem, não dá pra você ser tatuador e não ter o mínimo de conhecimento de composição e contraste de cor.

Como é o seu trabalho aqui em Toronto? Qual a diferença entre os clientes brasileiros e canadenses?
Rangel: Na minha opinião, os brasileiros são muito conservadores e não têm muito espaço para criatividade. O brasileiro gosta de fazer um desenho pequenininho, que vê na televisão ou em outra pessoa, como um tribal que já viu mil vezes. No geral, não estão muito abertos para coisas novas. Já o canadense, o europeu ou pessoas que vêm de fora têm uma grande abertura, dizem que gostam do meu trabalho, dizem o que querem, mas sou eu quem personalizo a arte.

 Então o seu estilo é o de customização?
Rangel: Faço o que chamam de “custom tattoo”, tatuagem customizada; o cliente me explica o que quer, traz algumas referências e eu faço um desenho especial para ele, o que quer dizer que só ele vai ter aquele desenho, ninguém mais. A pessoa não pega o desenho de uma revista, por exemplo. É um pouco mais trabalhoso, tem toda uma preocupação sobre o lugar escolhido para fazer o desenho e como vai curvar no corpo. Então, dentro disso, cada um faz o que tem uma aptidão maior. Eu, por exemplo, não faço retratos, símbolos orientais, ondas ou carpas. Eu faço muito o estilo ilustração, algo mais vintage.

 Existe alguma diferença entre trabalhar com tatuagem no Brasil e no Canadá?
Rangel: A principal diferença é justamente a customização. Quando você começa a tatuar, faz de tudo um pouco para aprender várias técnicas, até desenvolver seu próprio estilo. Como hoje em dia eu tenho meu próprio estilo, têm pessoas que gostam do que eu faço, mas tem gente ainda, especialmente no Brasil, que fala: “não, mas eu quero isso e não aquilo”, então às vezes há conflitos. O Brasil tem materiais muito bons e tatuadores maravilhosos. No Canadá, em termos de materiais é a mesma coisa.

Existe algum tipo de desenho que você se recusa a fazer?
Rangel: Eu não gosto de tatuar nome de namorado, marido, mulher. Como não tenho alegria em fazer, prefiro passar para alguém que tenha prazer em fazer.

 Você acha que ainda existe preconceito com pessoas tatuadas?
Rangel: Eu acho que está melhorando muito, mas ainda existe preconceito quando a área é dominada por pessoas mais velhas ou na medicina, engenharia ou no mundo corporativo. Nas áreas de artes e profissões mais liberais, acho que não se importam. Meu irmão, por exemplo, é arquiteto, inteirinho tatuado e nunca sofreu preconceito. Mas acredito que isso ainda vai mudar, vai ser mais aberto.

Acho que a tatuagem é como uma capa, quem vê sua capa pode achar legal ou não.

 Na sua opinião, você acha que deveria ser mandatório um curso para quem deseja se tornar um tatuador?
Rangel: Curso eu não diria, mas acho que deveria ser mantadório a pessoa fazer um estágio em estúdio, como aprendizado. O que eu fiz e que muita gente faz, de aprender sozinha, é muito difícil e demora muito mais. A pessoa erra mais, então o que eu errei em três anos, se eu tivesse feito o aprendizado, eu poderia não ter errado nada e ter começado já em um nível superior.

 Quanto tempo demora para fazer um nome na carreira de tatuador?
Rangel: Eu estou no ramo profissionalmente há sete anos e acho que agora estou começando a ter um reconhecimento, mas acho que demora mais ou menos uns dez anos para você ser um profissional reconhecido. É um aprendizado bem grande, estou sempre aprendendo e sempre tem coisa nova acontecendo.

 Qual é seu trabalho preferido e porquê?
Rangel: Hoje em dia eu gosto muito de fazer escaravelhos e mariposas, também adoro fazer coisas que relembram alguma história ou algum livro.

 Quem são suas referências e o que te inspira na hora de tatuar?
Rangel: Minhas referências são as pessoas com quem trabalhei ao longo dos anos. Música me inspira, tem que ter música sempre.

Seus pais aceitaram bem a sua escolha de ser tatuadora?
Rangel: Minha mãe achava que era só uma fase. Meu pai falava, “não, você não vai ser tatuadora!” Eu dizia que o quanto mais eles falassem que eu não seria tatuadora, mais minha vontade aumentaria. Mas hoje recebo apoio e eles têm bastante orgulho da minha profissão.

 Onde você atende e quais são os horários?
Rangel: Em Toronto, eu atendo em um estúdio chamado Adrenaline, que fica na Queen Street com University Ave. Lá, estou em horários diferentes, geralmente entre 2 e 5 p.m. até a meia noite. Peço que liguem para verificar. É sempre bom agendar um horário e se for tatuagem customizada tem que ir antes. Quando estou no Brasil, geralmente fico três meses e atendo em meu estúdio particular no Morumbi. Mas sempre que viajo, divulgo no meu site e também visito outros estúdios.

Qual conselho você daria para quem teve alguma experiência ruim com tatuagem?
Rangel: Acho que para qualquer um, mesmo para quem ainda não teve uma experiência ruim, a tatuagem tem que ser procurada mais por um significado artístico do que um adorno ou alguma coisa que está na moda; Tatuagem de $50 tem de monte, mas tatuagem de $300 tem poucas, a diferença está no tatuador. Então antes de procurar preço, procure o tatuador certo para a coisa que você quer fazer. Pesquise antes de fazer uma tatuagem.

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