Entrevista com Angelita, Kingston, Ontário

Transcrição do episódio do Podcast: Ontário não é só Toronto

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Angelita Macedo. Kingston, Ontário (Foto: Facebook)

Transcrição da entrevista, em áudio, com Angelita Macedo: Kingston, Ontário

Seja bem-vindo a mais um episódio do “Ontário não é só Toronto”. Eu sou Christian Pedersen e, nessa edição, conversamos com a Angelita Macedo. Ela chegou a Ottawa com suas duas filhas, e acompanhando o marido. Isso já faz 12 anos. Oito anos depois, ela e a família se mudaram para Kingston, que fica entre Toronto e Montreal e que, aliás, foi a primeira capital do Canadá. E, falando em Kingston, saiba mais sobre essa cidade visitando o portal brazilianwave.org. Neste episódio, queremos saber: por que a Angelita foi morar em Kingston?

Christian: Olá, Angelita! Obrigado por participar do nosso Podcast.

Angelita: Sim, claro! É o maior prazer estar participando, e estar podendo ajudar outros brasileiros, informando um pouquinho do Canadá, um pouquinho das cidades, um pouquinho de cada coisa.

Christian: Você veio de Marília, interior de São Paulo. Mas, por que escolheu o Canadá? Qual foi a sua história? O começo?

Angelita: Há 12 anos atrás, o meu marido ficou sem o emprego em que ele trabalhava fazia 20 anos. Ele perguntou, para mim, o que eu achava dele fazer um intercâmbio no Canadá. Porque ele queria aprimorar a língua. Eu disse: oK, não tem problema. Acho legal. Ele disse: “acho que estou pensando em ficar um mês”. E eu disse: Não, um mês é muito pouco! Fica uns 3 a 4 meses, pelo menos. Daí você vai se familiarizando e vendo o que realmente você quer. Ele veio para Vancouver e morou por quatro meses. Fez intercâmbio e tudo. Durante esse tempo do intercâmbio, uma empresa canadense o contatou perguntando (porque, como ele conhecia o sistema tudo dessa empresa), e ele não estava interessado em um emprego. Daí ele terminou o curso, veio [para Ottawa], fez a entrevista e a empresa falou assim: “a gente gostou do seu perfil e nós queremos te contratar. Está aqui a carta de admissão. Corre atrás de toda a documentação e quando estiver tudo pronto, você vem para o Canadá”. Isso foi em outubro e, em dezembro, a gente conseguiu toda a documentação.

Christian: Quando ele fez intercâmbio você veio junto?

Angelita: Não. Ele veio em dezembro e eu só vim em maio do outro ano.

Christian: Que sorte, né? Você não pegou dezembro de cara!

Angelita: Exatamente. E foi um ano… não sei se você se lembra… foi um ano que todos os ônibus entraram em greve. Ele teve que alugar um carro e, em maio do ano seguinte, eu vim. Eu e minhas meninas. Eu tenho duas filhas. Uma, hoje, mora comigo em Kingston, e a outra mora em Vancouver, do outro lado do Canadá.

Christian: Ironicamente, começou lá e no fim…

Angelita: Exatamente. Olha para você ver! É Deus, quando ele traça o seu caminho. É impressionante como foi o andar das coisas. Viemos então para Ottawa. Eu vim em maio com as meninas. Foi uma adaptação super difícil. Porque, até então, nós éramos do interior de São Paulo e tem a língua… eu não dominava a língua. Tem “n” coisas. Muitos paradigmas que o brasileiro tem que quebrar.

Christian: Por exemplo, quais deles?

Angelita: Se reinventar e abrir a mente. Estar com a mente aberta. No Brasil, eu estudei. Sou fisioterapeuta. Quando eu vim para cá, foi como se eu andasse e, de repente, tivesse ficado tetraplégica. Aí você tem que aprender tudo de novo! Fazer tudo novamente. Você tem que esquecer aquela coisa assim… não tem jeitinho brasileiro e a cultura é totalmente diferente. Não adianta você trazer o seu jeito, a sua maneira, porque não vai funcionar. Tem que viver de acordo com o que realmente é aqui.

Christian: E como foi esse choque de estar em Ottawa? Porque mesmo sendo menor que Toronto, Ottawa não é tão pequena assim, é diferente.

Angelita: Por eu ser do interior de São Paulo, eu acho que o choque ia ser maior, se eu tivesse ido para Toronto. Acho que a coisa ia ficar mais pesada. Ottawa é tipo uma Ribeirão Preto, mas Ottawa é a capital. É considerada também do interior, mas é um pouquinho maior. Então, para mim, foi ótimo ter vindo para Ottawa por causa do choque. Foi grande, mas não tão devastador, como acho que seria se eu tivesse ido para Toronto.

Christian: E como foi trazer filhas para cá? Porque elas vieram pequenas.

Angelita: Vieram. A menor veio com 4 anos. A outra veio um pouco maior (porque são 15 anos de diferença entre elas). Foi muito difícil para a menor… e para a mais velha, porque ela tinha toda a vida dela lá. Ela foi à high school (segundo grau) e tudo mais na mesma escola (porque, no Brasil, nós conseguimos fazer isso, né? Estar sempre no mesmo ambiente). E, para ela, foi difícil deixar as amizades. Mas foi uma experiência única. E dolorosa, né…

Christian: Ela veio porque ela não teve a escolha, vamos dizer assim.

Angelita: Realmente, ela não teve escolha. E assim, a gente vem com aquele intuito de que é outro país, outra cultura. A gente vem meio que no oba-oba e depois se depara com as dificuldades. Mas isso é normal.

Christian: Qual foi o maior desafio para você? A cultura, a língua, a distância?

Angelita: Para mim, o maior desafio foi a língua. Porque eu nunca gostei de inglês. Então para mim foi desafiador, a cada dia.

Christian: E como foi para o seu marido? Ele já veio já contratado, o que é uma coisa rara…

Angelita: Hoje, você não consegue mais isso. Por incrível que pareça(isso eu fiquei sabendo anos depois), o sonho dele era morar fora do país. Falei: ok, mas você devia ter me avisado. Porque eu poderia ter me preparado psicologicamente.

Christian: É uma coisa curiosa. Porque você só veio, porque ele veio (e não porque você tinha um desejo de alguma coisa, como um projeto). Você veio porque ele veio, o que é diferente. Você não teve a mesma ambição, não era o seu sonho.

Angelita: Exatamente. O sonho era dele, não era meu! Então, acho que, por isso, eu criei muitas barreiras em relação à língua, em relação a tudo. Tanto que, deixa eu te dizer, eu fiquei sete anos sem ir ao Brasil. Porque se eu tivesse ido, talvez eu não tivesse voltado. Uma coisa meio que me desintoxicando, entendeu? Mas, valeu a pena!

Christian: Como foi encontrar lugar para morar? A empresa facilitou para vocês encontrarem onde morar em Ottawa?

Angelita: Foi tudo por nós mesmos. Os custos… tudo, tudo! Desde os vistos, desde a moradia, desde a mudança. Tudo.

Christian: A empresa não facilitou em nada?

Angelita: Não. A única coisa que eles nos ofereceram foi o emprego. Thats it! Foi difícil. Você tem um padrão, você tem uma vida estabilizada no Brasil… você tem tudo, entendeu? E, de repente, você sai da sua zona de conforto e vai para um lugar estranho, que não é a sua cultura, não é a sua língua… você meio que entra em parafuso. Muitas vezes, eu questionei de eu estar aqui. Esse foi o começo.

Christian: Gerou muito estresse entre vocês?

Angelita: Gerou bastante estresse por conta disso. Por eu ter criado esse bloqueio. Porque aquilo que eu te disse. O sonho não era meu, era o sonho era dele. Você entendeu?

Christian: E você tinha a sua carreira lá.

Angelita: Exatamente. Hoje eu vejo que são pequenas coisas a que você se apega. Isso que eu falo para você: o brasileiro para sair da sua zona de conforto, ele tem que estar com a mente aberta e apta a mudanças e geral. Em tudo!

Christian: É como se você morresse e fosse para outra dimensão. Você tem que ir e desapegar.

Angelita: É desapego total. Total!

Christian: Porque se você vier apegado… acho que quando para muita gente não dá certo, é porque elas estão muito apegadas à vida passada. Elas ficam presas e não conseguem se soltar.

Angelita: Para o meu marido, eu vejo que foi muito mais fácil, porque ele sempre foi uma pessoa desapegada, em geral: desapegado de família, desapegado de amizades, desapegado de pessoas, desapegado de tudo. Às vezes, eu falo pra ele: ô meu! Parece que você é meio que um ET, eu brinco. Mas, pessoas que trabalham com informática, eu acredito que sejam assim.

Christian: Hoje têm muitos nômades digitais que moram em outros lugares, mas estão sempre online, trabalham nesta área.

Angelita: Ele consegue administrar bem isso. Para mim, foi difícil administrar. Mas, hoje não, porque eu me reinventei.

Christian: E como foi que você aprendeu essas coisas em Ottawa? Como você fez para conseguir colégio… Você estava começando do zero, uma nova vida e não teve apoio da empresa.

Angelita: Olha, foi tudo desbravado por nós, sozinhos. Porque há 12 anos atrás, não tinha essa comunidade de brasileiros que tem hoje. Principalmente, em Ottawa, hoje tem uma comunidade de brasileiros que está sempre ajudando e informando: “onde eu encontro isso, como eu faço aquilo, como eu faço isso”. E, há 12 anos atrás, não tinha. A gente descobriu tudo, sozinhos: aprendendo, buscando, procurando. Eu vi pela minha filha. Ela tinha terminado o colegial e entrou de novo no high school para poder se enturmar mais. Ela falou: “mãe, eu quero fazer parte dessa cultura, quero fazer parte, eu não quero ficar em um gueto”. Ela voltou para o high school por um ano e foi desbravando e trilhando o seu caminho. Hoje, ela mora em Vancouver e está super bem, faz o que ela gosta, se reinventou também.

Christian: O que era bom de lá? Você gostava de Ottawa?

Angelita: Eu gostava, porque foi o meu primeiro lugar, a primeira cidade que eu conheci quando eu vim para o Canadá. Então, você acaba se apaixonando. Mas, hoje, eu me desapeguei. E me desapeguei, totalmente. No começo, quando eu me mudei pra cá, eu queria ir toda semana para Ottawa, porque todos os meus amigos são de lá. Hoje, eu confesso para você que eu tenho preguiça de pegar o meu carro e dirigir até Ottawa. Eu sei que, hoje, eu me apaixonei por essa cidade.

Christian: E os seus amigos de Ottawa são mais brasileiros, têm canadenses?

Angelita: Tem bastante canadense, mas têm muito mais brasileiros. Por quê? Deixa eu te explicar. Quando eu cheguei aqui, eu comecei a ficar muito deprimida, e falei: eu preciso fazer alguma coisa, porque eu não domino a língua, estou ficando deprimida e isso está me fazendo mal. Aí eu comecei a cozinhar para uma amiga minha, que foi grande incentivadora. Aí, ela disse: “por que você não começa a fazer para vender?” Aí, eu disse: Eu? Nunca fiz isso no Brasil. Não é a minha área! Ela disse: “mas, menina, você faz super bem, você cozinha super bem”. Aí, eu comecei a fazer assim, sabe, só por fazer. Porque eu tinha saudade das comidas do Brasil e a comida daqui do Canadá é frustrante, né? Aí, eu comecei e fiquei muitos anos fazendo eventos para a embaixada do Brasil. Através da embaixada do Brasil, teve um evento de médicos brasileiros e eles queriam colocar um pouco da nossa comida Brasileira. Aí, eu fui ensinar (sem falar o inglês e, muito menos, o francês)… eu fui ensinar um chef a fazer bobó de camarão. É por isso que eu te falo: tudo aqui para mim foi acontecendo.

Christian: Quando você chegou aqui, você tentou alguma coisa de fisioterapia?

Angelita: Não. Porque eu teria que voltar para a escola e estudar tudo de novo, e eu estava em uma fase muito ruim.

Christian: Ainda mais em inglês, né… tem isso…

Angelita: Tem isso. Hoje eu penso em voltar, mas não na minha área.

Christian: Aí, teve a nova reinvenção da Angelita, porque, há 4 anos, vocês foram para Kingston. Aí, volta tudo de novo…

Angelita: Aí, volta tudo de novo. Meu marido foi para a empresa americana que o chamou. Tanto que essa empresa, que ele trabalha, não é aqui em Kingston. Essa empresa é em Napanee. Aí eu disse: Bom, Napanee, sem chances! Porque é uma cidade menor e eu estava vindo de Ottawa. Mas, Napanee é uma cidade charmosíssima, também. Uma gracinha! Mas é muito pequena. Mas tem outro engenheiro que trabalha lá na empresa (e ele é brasileiro, também, ele é de São Paulo capital, como o meu marido) e ele comprou casa em Napanee.

Christian:Kingston é conhecida por ser no meio do caminho [de Toronto] para Montreal e é muito interessante porque já foi capital de Ontário.

Angelita: Kingston é uma cidade apaixonante. Além de tudo, é turística e é uma cidade universitária. É uma cidade que todo mundo fala assim: “ah, mas ela é pequena!”. Mas, ela tem características de cidade grande. Quando você pega como referência as cidades do interior do Brasil e as cidades daqui, isso não te dá uma referência legal. É, totalmente, diferente. Aqui em Kingston, e estou a 2:30 h de Toronto e a 1:45 h de Ottawa.

Christian: Como suas filhas lidaram com a notícia de mudar de novo? Se bem que, desta vez, foi para perto, não foi para tão longe.

Angelita: A minha filha mais nova, no princípio, sofreu bastante, porque tinha um grupo de amigos lá em Ottawa e ficou bastante apreensiva. Depois, ela foi aceitando. Mas ela desenvolveu tipo uma síndrome do pânico. Ela veio para cá pequena e ficou sem referências. Ela já não tem referência nenhuma do Brasil e a cultura dela é toda do Canadá. Ela sabe que tem o Brasil porque tem a minha família, a gente tem o contato e está junto. Mas a cultura dela é 100% canadense.

Christian: Existe um choque entre vocês: um lado mais canadense e outro lado mais brasileiro?

Angelita: Totalmente. Principalmente, por eu ter duas filhas. Uma “brasileira” e outra “canadense”.

Christian: E qual é o maior deles?

Angelita: Nós, brasileiros, temos sangue latino. Assim, aquela coisa louca de estar se preocupando, de não confiar em ninguém. Ela, não. Ela é canadense: todo mundo é legal, todo mundo é bom, todo mundo é nice. Você tem que ser gentleman com todo mundo. Você não pode ser mean (rude) com ninguém. Qualquer coisa que eu fale com ela, diz: “nossa você está sendo mean comigo”. E, na verdade, não é. É a maneira de o latino ser.

Christian: E o custo de vida de Ottawa em relação a Kingston? Com certeza é diferente, mas é uma coisa gritante?

Angelita: O custo de vidaé tão igual quanto. É até mais caro. Principalmente, casas.

Christian: Épor causa da faculdade?

Angelita: Eu acredito que seja, porque eu vi casas em Ottawa que, hoje… casa aqui é muito mais caro. Nós estamos procurando uma casa para comprar e o preço aqui é absurdo! É aquilo. Eu acredito que seja por conta da universidade, por conta de que seja uma cidade mais calma e muito mais tranquila. Também, nós estamos em um corredor aqui, então, em termos de neve, é bem mais ameno que em Ottawa.

Christian: E foi difícil encontrar onde morar aí?

Angelita: Não foi tão difícil. Porque o meu marido já sabia das minhas exigências. Eu falei: tá, eu vou sair de Ottawa, da minha casa, toda tranquila assim… e você não vai me colocar num… Hoje eu moro em um apartamento na rua principal de Kingston, que é na Princess St. E aí eu disse: eu quero mais perto de tudo para eu me locomover a pé. Então, da minha janela do apartamento eu vejo o Costco e tem um mall que, de um lado tenho um Tim Hortons, do outro um Starbukcs. E do lado do meu prédio tem uma academia.

Christian: A sua filha pretende estudar faculdade aí?

Angelita: Ela pretende. Eu quero muito que ela vá para a Queens. Mas aqui, a gente mora em um país que os adolescentes têm o direito de escolha.

Christian: Aqui com 16 anos elas já saem de casa e ficam independentes.

Angelita: Mas então… eu vou mesmo ficar com a nossa cultura, tá?

Christian: Você acha que o fato de Kingston ser menor que Ottawa favorece o seu dia a dia?

Angelita: Muito. Têm coisas aqui que eu amo! Eu quero ir para um determinado lugar e o que acontece? Em 15 minutos estou onde eu quero. Coisa que em Ottawa, você pega a highway e é complicado.

Christian: Você fez algum curso de culinária depois? Porque você está de chef de cuisine no Marriot

55Angelita: Sim, eu trabalho no Marriot.

Christian: Como é que foi começar nessa coisa caseira e passar a ser chef no Marriot?

Angelita: É aquilo que eu te disse. As coisas foram todas acontecendo. Desde o começo, quando eu vim para o Canadá, tudo aconteceu. Fui para o Marriot, mas entrei, por acaso, também. Um dia, conversando com uma amiga minha, eu disse: ai, eu estava querendo trabalhar, fazer qualquer coisa. Posso fazer voluntariado. Eu não aguento mais ficar em casa. Ela disse: “o hotel lá está precisando”. Dois dias depois, ela falou: “o meu diretor pediu para você ligar para ele”. Liguei, com meu inglês… mas assim, tremendo. Porque você falar pessoalmente é uma coisa, mas, por telefone, isso sempre foi uma barreira pra mim. Liguei para ele e ele me disse: “Você pode vir aqui amanhã?” Fui, e ele falou: “está contratada”. Entrei na parte de ajudante e depois eles me designaram para cozinhar.

Christian: Como eles lidam com o estrangeiro? Têm muitos estrangeiros ali, ou são mais canadenses?

Angelita: Todos ali são canadenses. Eu não vi e não vejo preconceito. Eles te tratam muito bem e, se existe [preconceito], é meio que obscuro.

Christian: Como seu marido está lidando na empresa? Ele se adaptou bem? Mas, também, é o sonho dele, é a praia dele.

Angelita: Para ele foi super bem. A princípio, também, é um desafio. Até hoje é um desafio. Mas, esse ano, por conta da pandemia, está tudo parado.

Christian: E têm muitos brasileiros em Kingston? Você conheceu bastante, fez amigos?

Angelita: Tem bastante brasileiro, mas por eu estar aqui há 12 anos… você sabe, a gente se torna uma pessoa meio seletiva, né? Não é por mal, entendeu?

Christian: É por experiência?

Angelita: É por experiência.

Christian: Isso é duro porque quando você mora aqui, depois de um tempo, você passa a pensar diferente do que era lá, né? Porque já não é a mesma coisa.

Angelita: Não, já não é. E têm brasileiros que estão chegando agora (e mesmo uns que já estão aqui há um tempo) que continuam com aquela mesma mentalidade. Então, eu não tenho muita paciência. É aquilo que eu te falei: ou você abre a mente, ou você fica no seu gueto.

Christian:E como é a segurança aí em Kingston e Ottawa, comparado com o que você se lembra do Brasil?

Angelita: É muito mais tranquilo. Muito mais tranquilo em termos de segurança! Mas, nós temos, como brasileiros, aquela cultura do medo que ainda faz parte de você. A gente ainda desconfia de tudo, tem medo de tudo. Mas, hoje, eu sou mais relax, mais tranquila em relação à segurança. Aqui em Kingston é super tranquilo. Às vezes, eu tenho que sair às 4:30 da manhã para ir para o hotel trabalhar, e desço para tirar o carro da garagem e tudo. Coisa que jamais eu faria no Brasil. Uma coisa interessante que aconteceu essa semana foi que a porta do meu apartamento ficou aberta. Eu entrei, deixei a chave fora mas dormiu tudo tranquilo, assim. Jamais no Brasil! Aqui têm roubos (não vou dizer para você que não tem). Mas, outro dia, eu vi uma pessoa no grupo: “ai, estou querendo me mudar para Kingston, mas eu estou preocupado porque tem um presídio aí”. Gente, o presídio está lá e não tem nada a ver (comparado ao Brasil). Nada, nada, nada.

Christian: E se você quiser pegar um ônibus daí para o centro, é fácil?

Angelita: Super fácil! Como eu te disse, como eu moro em uma rua principal aqui de Kingston, para você ter uma ideia, em frente ao meu prédio tem um ponto de ônibus. Minha filha, às vezes, quer ir para downtown e ela pega e vai de ônibus.

Christian: E o inverno? Como é o inverno aí?

Angelita: Maravilhoso. É aquilo que eu te disse: nós estamos em um corredor super ameno. Às vezes não tem neve, como tem em Ottawa. Às vezes Ottawa está se acabando de neve e aqui não.

Christian: Se alguém chegasse para você agora e dissesse: “ah, tem um novo emprego em outro lugar”. Você iria?

Angelita: Deixa eu te falar uma coisa que eu sempre falo para todo mundo: o mais difícil eu já fiz, que foi sair do Brasil. Hoje, eu vou para qualquer lugar. Só não voltaria para o Brasil.

Christian: E, para encerrar, o que a Angelita de hoje diria para a Angelita que estava saindo do Brasil e chegando a Ottawa, há doze anos. Se você pudesse dar um conselho para ela, o que você diria?

Angelita: Tente outra vez. Tente, tente, tente sempre. Nunca desista!

Christian: Então valeu a pena, no fim.

Angelita: Valeu! Valeu muito a pena. A Angelita de 12 anos atrás (aquela outra Angelita) é uma Angelita, hoje, totalmente, diferente. É uma Angelita mais humilde, mais confiante e que acredita mais. Para mim, foi muito gratificante. Foi dolorido, foi super dolorido, mas é gratificante demais. E eu agradeço muito a Deus por Ele ter me dado essa chance. Porque muita gente queria ter tido esta chance. E persistência, né! Porque você tem que ser persistente para estar em um lugar onde, como eu te falei, não era o meu sonho. Mas, valeu a pena. Hoje, eu não mudaria nada.

Christian: Então é isso. Em nome da Brazilian Wave, agradeço à Angelita Macedo pela entrevista. E visite o portal brazilianwave.org para outros episódios do “Ontário não é só Toronto” e, também, para saber um pouco sobre Kingston. E aproveito, também, para pedir para você deixar um like, uma curtida nos nossos posts e, também, compartilhar com seus amigos e com quem mais se interessa em morar no Canadá. E se você chegou até aqui, agradeço a sua audiência e até o próximo episódio. Tchau!

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