Entrevista com Armando Padovan, Cambridge, Ontário

Podcast “Ontário não é só Toronto” #9: Por que o Armando foi morar em Cambridge?

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Transcrição da entrevista, em áudio, com Armando Padovan: Cambridge, Ontário

Olá, eu sou Christian Pedersen. Sejam bem-vindos a mais um episódio do “Ontário não é só Toronto”, o podcast da Brazilian Wave Canadá.

Neste episódio, conversamos com Armando Padovan, um reverendo graduado em economia e administração de empresas. Nestes últimos 20 anos, ele e sua esposa viveram no subúrbio de Etobicoke, que fica aqui em Toronto. Depois, foram para Mississauga, depois Cambridge e, agora, planejam se mudar para Milton. Só para você ter uma ideia das distâncias, Mississauga fica a uns 27 km a oeste do centro de Toronto. Já Cambridge fica a, mais ou menos, 80 km, também, a oeste do centro de Toronto, e Milton situada a mais ou menos 48 km a oeste do centro de Toronto.

Christian: Obrigado, por participar do nosso podcast.

Armando: Uma alegria, meu querido. É uma alegria mesmo.

Christian: Você morou em Edmonton, Alberta, por um ano, em 1996. Como foi a experiência por lá?

Armando: Uma organização missionária me convidou para representá-los na parte oeste do Canadá. Porque eles eram muito fortes aqui no leste. Então eles me convidaram. Queriam uma pessoa como eu. Eu tinha o perfil como eles queriam. Eu vim com a família toda para ficar um ano. O contrato foi esse. Então, aí eu conheci o Canadá inteiro. Viajei 74.000 km. Falei em 11 conferências missionárias. Falei em 27 igrejas diferentes. Para um público (puxa vida! na época eu fiz a contabilidade disso)… mas, foi um número assim de sete mil e tantas pessoas (público direto). Quando você está em uma conferência, você fala para mil pessoas, quando você está em uma igreja, você pode estar falando para cinco pessoas, entendeu? Fazendo contatos, representando a organização (que tem uma filosofia muito bonita). Eles não enviam missionários, eles suportam missionários nacionais. São locais. Eu era um desses locais lá em Curitiba, quando eles me ajudaram. Deram-me suporte, inclusive financeiro, para eu desenvolver o meu trabalho com casais. Eu promovia encontros para casais e depois o ministério se transformou. Ficou maior do que, simplesmente, para casais. Ficou para homens, mulheres, crianças, adolescentes, jovens em geral.

Christian: E como foi lá em Edmonton, em Alberta? É muito diferente de Toronto, em Ontário?

Armando: É, totalmente diferente. Inclusive, em termos culturais, se percebe mais a presença de canadenses do Canadá mesmo. Mas foi se multiculturalizando ao longo dos anos e, hoje, também, está multicultural. Lá, em Edmonton, é muito frio, mas é muito joia. É uma sociedade, uma comunidade muito bonita, muito gostosa de viver. Fiz muitos amigos e é muito mais provincial, se eu posso dizer assim. É como viver no interior, para o brasileiro entender um pouco do nosso papo. E, ao mesmo tempo, é uma cidade que oferece tudo o que você possa imaginar. Inclusive custos mais baixos, porque o provincial tax não existe lá, então você paga 8%. Aqui são 13%. E tem essa idiossincrasia do oeste. Eles são muito abertos para os que vêm de fora, porque eles não são muitos. Então, todo mundo que chega lá é bem bem-vindo. Foi excelente! Quando eu cheguei a Edmonton, eu tinha, praticamente, só um a dois contatos.

Christian: Depois de um ano você voltou para o Brasil, e em 2000 você voltou para o Canadá. Foi pelo mesmo motivo da primeira vez?

Armando: Não. Foi um pouco diferente. Meu trabalho, lá no Brasil, por uma série de motivos, eu vi que tinha terminado. E foi até muito interessante. Quando eu me desliguei do ministério que eu participava lá no Brasil, em Curitiba, no dia seguinte que eu me desliguei, eu recebi um telefonema. Não foi nem um telefonema, foi um e-mail me perguntando se eu estava disposto a vir para uma entrevista no Canadá, para um ministério que estava procurando alguém como eu. Até chamei minha esposa, que ela estava na cozinha, eu falei: Odila, dá uma chegadinha aqui! Ela olhou no e-mail deu risada e falou: “Ah! Isso não vai dar em nada!” E eu falei: Odila, isso aqui é sério. É gente séria que tá convidando. E ela falou: “Bom, então vamos ver”. Aceitei o convite de vir para cá. Isso foi em agosto de 1998. Eu já estava há um ano lá no Brasil em 98, e aceitei de vir para fazer a entrevista. Na entrevista, o pessoal me sabatinou e fez uma série de considerações, perguntas e aí me fizeram o convite. Só que eu não podia vir, de imediato. Demorou dois anos para eu vir para o Canadá. Porque eu tinha muitas coisas… eu tinha um trabalho com os atletas profissionais de futebol. Eu era o conselheiro nacional dos “Atletas de Cristo”. E aí eu comecei um trabalho “Atletas na Divulgação do Evangelho” que se chamava ANDE. Então, demorou dois anos para eu aceitar, definitivamente, o convite e virmos, eu e minha esposa, definitivamente, para o Canadá.

Christian: E ai você veio com todo mundo, esposa, filhos…

Armando: Não, não. Só eu e a esposa. Isso foi uma coisa muito difícil para nós. Eu já com 52 anos e com toda estrutura lá no Brasil em todos os sentidos. Meus filhos ainda não são casados e estão terminando suas faculdades. Deixamos os meninos para trás e nós temos filhos revoltados por causa disso (estou brincando, rsrsr). Não, graças a Deus, eles nos abençoaram: “Pai, a gente já não é mais criança”. Nós, como família, nos reunimos, oramos, conversamos, explicamos os motivos, respondemos às perguntas que ainda não sabíamos as respostas. Fomos buscar as respostas dessas perguntas e fizemos tudo, juntamente, com a família. Aliás, esse é um conselho que eu gostaria de dar. Ninguém me pediu, mas eu dou. Você quer vir para o Canadá, ou para qualquer lugar do mundo? Você não está sozinho, você tem sua família, você tem que ver… a primeira coisa, é ver com a sua família. Então, marido e mulher, por exemplo. Eu falei: Odila, como é que você está em relação a isso? Ela falou: “olha é algo para gente pensar, porque nós vamos deixar os meninos para trás. Os meninos estão terminando a faculdade, ainda não estão casados. E eles querem se casar com brasileiras. Eles têm seus planos”. Eu falei: tudo bem. Mas, e você? E então ela falou: “onde você for eu vou. Eu sou sua mulher. Não sou nem pastora, nem economista. Eu sou tua esposa. Eu estou aqui para te abençoar, para te dar suporte e esse é o meu ministério”. Uma mulher dessas merece uma estátua de ouro e meu amor eterno! A responsabilidade caiu em cima de mim e eu decidi partir para o ministério em tempo integral, como pastor, como missionário. Como disse o Herzog uma vez: “Quem se mete a avestruz, tem que aguentar o ovo”. Eu aguentei o ovo e aceitei o convite. Então, esse é o primeiro conselho que eu dou, se eu posso ser ouvido nesse sentido; a sua esposa tem que estar do seu lado em todos os sentidos. Porque depois que a gente já está aqui, na hora que vem o problema sério e que você fala assim: não é aqui mais o meu lugar eu quero chutar o balde. Se você tem uma esposa, um parceiro ou uma parceira que te dá o apoio mesmo, ela (ou ele) fala: “espera aí! Qual foi o nosso propósito? Qual foi o nosso objetivo, que nós traçamos juntos? Porque nós vamos aguentar!”.

Christian: Parece que é simples, mas não é. Muitos dizem: “Eu posso ficar longe da família, sem problemas”. Mas, na prática, quando passa um mês, dois anos, três anos sem poder voltar ao Brasil, se você não tem um apoio da família, é mais difícil.

Armando: No meu caso, por exemplo. Já maduro, estou com 52 anos, já não sou mais uma criança. Eu confesso que teve dias que eu deitei, chorei: ai que saudade do meu filho mais velho, do meu filho mais novo! Ai que saudade dos dois! E chorava mesmo. Não chorava perto da minha esposa, porque, senão, ia virar um caos. Mas ela, também, chorava. Então, se você não tem convicção, meu querido, você não aguenta. Tem que ter muita convicção. Outra coisa: o Canadá é o céu, é o paraíso, é a resposta para todas as coisas. Não é! Não é! É um lugar como qualquer outro. Eu diria o seguinte… o Canadá é um país justo. Alguém definiu assim para mim. Não me lembro nem de quem foi, mas quando eu ouvi, eu concordei: “é um país justo”. Você anda na linha, você é recompensado por andar na linha. Aqui não tem esse negócio de querer levar vantagem em tudo, não. Aqui tem jeitinho, por incrível que pareça. Mas, tem o jeitinho brasileiro e o jeitinho canadense, que é o seguinte: “não tem jeito certo de fazer a coisa errada. Se você fez errado, você paga por isso”. Recentemente, tomei uma multa porque atravessei um sinal vermelho, sem perceber. Eu não tive intenção, mas eu fiz! O guarda veio atrás de mim. Eu falei: pois é, eu não percebi. Eu estava distraído. E quando eu falei que eu estava distraído, pensei: é melhor eu ficar calado, porque cada palavra que eu disser aqui vai contra mim. Para encurtar a história, a multa era de Can$345.00 a Can$325.00 e tal. Aí, o procurador, lá da rainha, falou: “o que eu posso fazer por você?” E falei: me abaixa esse valor. Daí, ele falou: “vou abaixar para Can$200.00, tá bom?” Eu falei: está ótimo. O quanto você abaixar é melhor… e tira os pontos da carteira, por favor? Ele falou: “tá tirado, não tem problema. É a tua primeira infração e tal”. Então, é uma coisa justa, você tá entendendo? Eu nem me surpreendi. Aí a juíza entrou no meio (porque era uma reunião virtual), perguntou para mim algumas coisas e eu respondi. E aí ela falou: “olha eu estou satisfeita com o acordo que foi feito, com o preço e está tudo certo. E o senhor está satisfeito?” Eu falei: Estou e agradeço e reconheço a minha falta. Caso encerrado, meu irmão. Não faça a coisa errada porque não tem jeito certo de fazer a coisa errada. É andar na linha!

Christian: E também não existe lugar perfeito. Claro que têm lugares com mais problemas ou menos problemas. Mas, não pode vir para cá achando que é o paraíso, que vai ser tudo perfeito. Não. Tem muita coisa errada.

Armando: Eu tenho muitos amigos no Facebook. Tenho mais de quatro mil amigos, é uma coisa incrível. E com o meu trabalho aqui, eu inaugurei aquele ministério “Viva Brasil Integration”, ajudando os brasileiros a se integrarem aqui. O pessoal ainda me pergunta: “aí é bom?”. Adentro daquilo que você me falou agora: o melhor lugar do mundo para se estar é no centro da vontade de Deus. Se você está na África, se está em Angola ou se está no centro de uma revolução, se Deus te colocou lá, Ele vai te livrar ou pode te sacrificar. Mas, você tá no centro da vontade Dele. Aí não tem erro. Agora, nem todo mundo pensa assim. Têm aquelas pessoas: “eu sou mais eu. Eu vou lá e o Canadá é o melhor lugar do mundo. Se não for, eu vou tornar o lugar mais maravilhoso do mundo”. Boa sorte!

Christian: Boa sorte, porque vai ser mais difícil ainda!

Armando: Vai ser mais difícil ainda. É a arrogância. O orgulho precede a queda. É um princípio. Quando você se humilha, você é exaltado. Quando você se exalta, você é humilhado.

Christian: É verdade. E você teve uma situação interessante aqui. Porque você morou em Toronto. Depois foi para Mississauga, que é pertinho (mas, têm diferenças), e foi para Cambridge há cinco anos. Quais as diferenças entre elas?

Armando: Bom, primeiro, é a diferença de preço e dos aluguéis de imóveis. Essa é uma diferença gritante entre uma coisa e outra. Na época que eu vim, eu fiquei em Etobicoke (Toronto). Aluguei um basement lá, eu e minha esposa. Era pequenininho, mas muito bem-arrumado e começamos a viver lá. Mas, depois de três a quatro meses, mudamos para Mississauga. Então, em Etobicoke é, praticamente, Mississauga, porque são áreas muito próximas. Mas já havia diferença de preços. Eu pagava Can$950.00 por mês (isso no ano 2000) e eu fui pagar Can$1,100.00 por um apartamento de três quartos. Hoje, já está diferente. Inclusive, os aluguéis, hoje, estão um absurdo. Aí compramos uma town house em Mississauga, que foi um ótimo negócio que fizemos. A situação de compra de um imóvel era diferente naquela época. Com 5% de entrada eu comprava um imóvel com certa tranquilidade e eu consegui isso. Depois de três anos, vendi o imóvel com Can$40,000.00 de lucro. Aí nos mudamos para Mississauga mesmo, mas para um apartamento de dois quartos (muito bom!) que o preço era viável. Hoje, você não compra com tanta facilidade um imóvel, um apartamento ali em Mississauga, como era o nosso. Mississauga tem suas diferenças para Toronto. Por exemplo: em Mississauga, as ruas são mais largas e o ambiente é menos intenso que Toronto. Já Toronto dá muito mais oportunidades de empregos do que Mississauga, que foi se tornando um grande centro, também, com uma grande administradora que foi a Hazel McCallion, a quinta prefeita de Mississauga (que ficou no poder de 1978 até 2014). O “furacão Hazel”, como ela é conhecida, acaba de completar 100 anos de idade. Realmente, incrível. Após a Hazel ter se aposentado, a Bonnie Crombie foi eleita prefeita em 2014 e está no poder até hoje. Ela é ótima, também. Vai na mesma linha e é trabalhadora. Essa é outra coisa que os brasileiros precisam entender no Canadá: político, vale. Ela terminou o mandato dela com 94 anos. Ela é uma política? Claro que é! Mas vale, é gente séria e a palavra dela pesa. Os políticos aqui, em geral, são muito sérios. Tanto os liberais como os conservadores. Claro, eu tenho minha preferência política. Aí tá certo, estamos em uma democracia. Mas, a palavra do político aqui é importante. Outra coisa, eles te ouvem, não só falam. É um país justo.

Christian: Entre Mississauga e Toronto, o que você acha? No fim, as duas têm lados bons e ruins, também. Não tem nada 100% perfeito…

Armando: A questão de preços de imóveis são bem diferentes entre Toronto e Mississauga. A questão de empregos vai depender do que a pessoa está pretendendo. Tem uma questão, Christian, que é muito comum para o imigrante, que é: poxa! eu sou advogado e vou ter que entregar pizza aqui?! Ou: eu sou Doutor em economia, mas eu vou ter que fazer faxina nas casas aí?! Enfim, existe o emprego de sobrevivência, que a gente fala. Se a pessoa chega aqui com humildade, como um grande amigo meu… ele veio para cá e ele foi ser o garoto que limpava as mesas do restaurante. Hoje, ele é um muito bem-sucedido homem de negócios. Muito bem! A esposa dele era faxineira de uma organização e um dia ela estava limpando a sala de desenho e deu uma olhadinha na prancheta, no desenho e tal. Ela viu o projeto e aí o chefe da seção falou: “o que você tá olhando?”. Aí ela falou assim: “eu sei fazer isso”. Aí o cara falou: “como assim”? Aí ela falou: “eu sou arquiteta”. O cara falou: “então continua esse projeto porque o camarada tirou licença e eu preciso de alguém, já”. E ela falou: “é para já”. Sentou na prancheta e começou a trabalhar. Conclusão: no ano passado, ela se aposentou com uma baita de uma aposentadoria (E começou como faxineira!). Então, cito esses dois amigos, que são um casal. Tenho muito orgulho de ser amigo deles e prezo muito a eles e eles me ensinaram isso. Não éramos amigos, nos tornamos amigos. Eles têm toda a minha admiração por causa disso. Então é um outro conselho para os brasileiros que chegaram: humildade! Você não é dono do mundo, vá com calma!

Christian: Aqui não é como no Brasil, onde certos empregos são vistos de forma pejorativa. Aqui, não tem essa. Se pessoa é faxineira, se ela é entregador de pizza, não existe esse preconceito de ser inferior. Aqui é tão normal, que ninguém liga para isso. Nós temos amigos encanadores, temos amigos que cuidam de escolas e não tem nada.

Armando: Eu fui convidado para ser um líder espiritual num acampamento de adolescentes e jovens e eu fui. Foi lá em Manitoba. Eu fui. Era um frio! Chovia! Eu cheguei lá e o coordenador do acampamento falou: “o Pastor Armando está aqui e vai ser o nosso líder espiritual nessas duas próximas semanas. Vai ser o Conselheiro para as crianças, para os adolescentes, para os jovens e para nós também, o staff e tal”. Terminou a reunião, ele chegou para mim e falou: “pastor, vou dar um trabalho para o senhor fazer”. Eu falei: o que for necessário. E ele: “durante o dia, nós precisamos que o senhor limpe os banheiros”. E eu fui limpar os banheiros! Foram duas semanas limpando sujeira (e a sujeira brava porque a molecada chegava e estava tudo enlameado, sabe como é criança… eles eram muito educadinhos, mas eram sujinhos e eu tinha que limpar. O quanto que isso foi bom para o meu caráter e para mim! Eu estou falando com você com orgulho, no bom sentido. Poxa, eu venci essa fase! Então, o fato de você estar limpando o banheiro, não quer dizer que você não presta ou que você não tem valor. Aliás, o teu valor está nisso! Porque se eu for trabalhar por dinheiro, meu amigo, eu vou ganhar uns trocados e nada mais. Mas, precisamos do dinheiro para viver, precisando, às vezes, de muito para se virar, mas é isso. Na minha vida, eu sempre falei isso para os meus meninos e, graças a Deus, que eles entenderam o recado: dinheiro não tem que ser seu objetivo, dinheiro é consequência. E, graças a Deus, Christian, eu tenho dois meninos (não são perfeitos, mas não são nada disso que eu estou falando). São meninos que têm família, são joias. O mais velho tem uma empresa de tecnologia e está muito bem. A empresa está crescendo, mesmo na pandemia. O mais novo é o gerente-geral da empresa. Eu sou o controle financeiro e estou abaixo dos dois. Dinheiro não é o nosso objetivo, ele é consequência do nosso trabalho. Mesmo nas igrejas, quando trabalhei para igrejas em full time e tudo mais (porque fui pastor de uma equipe Pastoral), nunca trabalhei por dinheiro. Eu precisava do dinheiro para viver e eles sabiam disso. Então, me remuneravam. Mas eu: não, não. O dinheiro não é o meu objetivo. Outra coisa, brasileiro vem para cá vem com essa consciência: “eu vou ter sucesso”. Ótimo, a sua ambição é positiva, mas deve haver humildade, em tudo que você faz.

Christian: Tem um caminho, não será de graça…

Armando: Tem um caminho. O meu filho, por exemplo, se formou em engenharia elétrica, lá no Brasil. Engenheiro elétrico!. Mas, quando ele aplicou, a própria pessoa que o entrevistou falou assim: “se você for como engenheiro você vai ter que tirar as credenciais de engenheiro e isso vai demorar de um a dois anos. Você vai ter que ter um mentor canadense etc.” Ele coçou a cabeça e falou assim: “e se eu for como técnico?” Daí, ela falou assim: “está aprovado, já”. E ele: “então me põe como técnico”. Ele veio como técnico e depois de três anos, ele tinha uma empresa na mão, entendeu? Ele começou a trabalhar em uma empresa de tecnologia (o dono da empresa era meu amigo). Um dia, ele chegou: “teu filho vai ser dono da empresa porque eu vou passar para ele”. Aí que está! Contando do meu filho… quando ele chegou aqui, a esposa Carina estava grávida da Júlia, nossa primeira neta. Eles chegaram, aqui, em janeiro, e ele começou a trabalhar naquela semana mesmo que eles chegaram. Ele chegou em 25 de janeiro e no dia 26 eles estavam aqui. No dia primeiro de fevereiro ele estava empregado nessa empresa de tecnologia. Só que o dinheiro era muito pouco. Não me lembro se era Can$10 a hora… e ele também não poderia ultrapassar um determinado número de horas semanais. Então, ele foi trabalhar de faxineiro em uma agência da BMW. Uma senhora portuguesa tinha esses contratos e eu fui ajudar meu filho. Era a família Padovan limpando a BMW. Olha que chique: “onde você trabalha? Eu trabalho em uma concessionária BMW.” Detalhe: eu era o rei do MOP (um instrumento de limpeza), porque eu fazia o MOP da loja toda (uma loja grande). O Márcio limpava os banheiros e as coisas mais pesadas. A Carina estava grávida e ela e a Odila, minha esposa, limpavam as outras coisinhas mais leves. O Márcio passava o aspirador. Trabalhávamos como faxineiros, sem problema algum. No final das contas, aquilo nos deu a subsistência para aqueles meses todos (acho que foi por um ano). A Carina trabalhou até um dos últimos dias da gravidez. Teve um dia… deixa eu te contar essa, Christian. Essa é legal. Eu estava limpando e aí chegou a chefe, a dona do negócio (a que fazia o contrato e que nos deu o trabalho). Aí, ela puxou um armário e estava cheio de sujeira. E assim, quase que me pegou pela orelha sabe… e me puxou lá para ver: “o senhor não está vendo isso?” Eu falei: não estava, mas agora estou. E ela: “poxa, não limpa e tal…” E eu: não limpei porque eu não estava vendo. Agora, você que tem a experiência e que está me mostrando com toda essa educação, então vou limpar para você. Não tem problema. O meu negócio não é esse, mas, tudo bem, eu vou fazer o meu melhor, estou aprendendo com você. A mulher quase chorou. Ela falou: “poxa, me desculpa”. E eu: não tem problema nenhum. É que você está acostumada a lidar com pessoas que, talvez, não compreendam muito bem a posição em que estão. Mas eu acho que a gente tem que passar por essas experiências aqui.

Christian: Acho que sim. E Mississauga? Você acha que dá para morar em Mississauga e trabalhar em Toronto? Esse negócio de trânsito, também, é complicado aqui.

Armando: O custo de transporte vai ser um probleminha. Se você não tiver um carro, vai ter que pegar transporte em Mississauga, até o ponto final de Mississauga. E do ponto inicial de Mississauga para Toronto, até o ponto de Toronto. Então, são dois transportes e pelos custos que têm aqui em Toronto e em Mississauga… você sabe, não é barato!

Christian: E Cambridge? Como é que é a diferença de morar em Missisauga e Cambridge?

Armando: Bom, aí tem uma diferença muito grande. Nós viemos para Cambridge porque a Renew Church, que era a igreja onde eu estava pastor, me deu a oportunidade de começar uma igreja aqui em Cambridge, que eles não tinham uma igreja da Renew aqui. A questão de imóveis, a gente vendeu o imóvel em Mississauga e compramos à vista um imóvel em Cambridge.

Christian: E a diferença de preço?

Armando: Para você ter uma ideia, eu comprei o imóvel em Cambridge com a mesma metragem que eu tinha em Mississauga e ainda me sobraram Can$80,000.00. Começa por aí. Preço. Como é que a comunidade Cambridge? Há uma estatística de que 32% da população de Cambridge falam o português. É a maior concentração de portugueses, proporcionalmente, em todo o país. Então, aonde você vai, fala-se o português. E o português é um povo maravilhoso! É amigo, hospitaleiro, super sincero. Às vezes é complicado isso, porque eles te falam aquilo que eles pensam a respeito de você. Eu gosto muito de Cambridge, e um dos motivos é esse. Outra coisa. No hospital, fomos atendidos na hora. Em duas horas, estava tudo resolvido. Então, você tem um atendimento médico… a minha esposa chegou a dizer: “o que eu mais gostei de ter ido para Cambridge foi ter encontrado o family doctor”. E o camarada é sensacional, o cara é fabuloso! Temos tudo que a gente precisa. As escolas são boas. Um grande número de igrejas, para todos os gostos… toda a estrutura que você precisa você tem aqui.

Christian: E foi difícil encontrar um apartamento?

Armando: O apartamento que nós fomos, ele tem o teto meio baixo, sabe. Isso se tornou deprimente para minha esposa e aí viemos para um prédio que é coqueluche aqui em Cambridge. É um prédio de 30 anos de idade, mas tem uma estrutura que parece que foi ontem, entendeu. Muito bem conservado e tal. Com 1.440 square feet, é um baita apartamento e tem uma vista espetacular. O condomínio é mais barato do que qualquer condomínio de Toronto ou Mississauga. Então, um dos motivos que nos trouxe para cá foi isso, a questão de imóveis. Agora, não está tão fácil. Mas, em relação a Toronto, é mais fácil, com certeza.

Christian: E o transporte é tranquilo?

Armando: Muito tranquilo mesmo. Eu, quando cheguei aqui 2015… eu tenho um amigo que é motorista de ônibus aqui (ele e a esposa dele). Aí, eu falei assim: poxa vida, eu queria conhecer a cidade. Ele falou: “ah, então pega o meu ônibus”. Aí eu pegava carona no ônibus do amigo e conheci a cidade toda. E também conheci o sistema de trânsito. Muito interessante! E serve às três cidades: Cambridge, Waterloo e Kitchener (eles chamam de three cities). Isso é tudo interligado. Com um passe você vai em tudo quanto é lado. Pega um ônibus aqui em Cambridge, vai para Waterloo, vai para Kitchener. É tranquilo, é muito tranquilo.

Christian: E como foi para seus filhos se mudarem de Toronto e Mississauga para lá, já que ele tem filhos?

Armando: Eles foram para Milton, outra cidade muito joia. Era uma vantagem em relação à Mississauga.Questão de preço. Já não é mais! Milton tem toda estrutura. Nós vamos nos mudar para Milton, no ano que vem. Essa é a grande novidade! Porque a nossa missão terminou como igreja e os nossos filhos estão em Milton. O neto e as netas estão lá. Então nós estamos nos mudando para lá. Compramos um apartamento na planta e foi um ótimo negócio, também. Esse é outra dica. Nós temos um apartamento, praticamente, pago. O nosso apartamento está subindo de preço e o de lá de Miltonestá fixo (porque compramos a planta). Estamos calculando que nessa transação nós vamos ter uma vantagem quase de Can$100,000.00. Então existem oportunidades, que você vai conquistando, também. A única coisa é que tem que ter abertura. Agora, o nosso motivo de ir para Milton é por causa dos nossos filhos estarem lá. Eu estou trabalhando para eles. Então não faz mais sentido, hoje, apesar da gente gostar demais daqui.

Christian: Os seus netos falam e escrevem em português?

Armando: Não. Uma das netas fala muito bem o português. As outras já têm dificuldade de manter uma conversação. O neto, que é o mais novo, o Daniel, está com cinco anos. O Daniel não fala uma palavra, mas ele entende o português. Aliás, todos eles entendem o português. Para falar é que são elas! A mais velha fala muito bem o português. A gente se relaciona em português, não tem problema.

Christian: Como é a segurança em Cambridge ou em Milton? Mais tranquilo?

Armando: Uma das dificuldades maiores que existe entre essas cidades maiores e Cambridge, por exemplo, é essa: a segurança é total. Um dia, esqueci minha carteira em um supermercado e um cara veio correndo atrás de mim: “olha, você esqueceu a carteira”. E eu disse: obrigado. A segurança é total. É lógico que, uma vez ou outra, acontece alguma besteira por aí né, mas é total! E se fosse falar da diferença entre o Brasil e o Canadá, no Brasil você sabe como andam as coisas. É terrível, né? Agora, aqui, existe o tal do bullying e isso é grave. Por isso que eu te digo: “os pais precisam estar de olho, precisam estar participantes, estar presentes, saberem o que acontece no dia a dia da criança”.

Christian: Como é o inverno aí? Melhor? Mais tranquilo que Toronto? É a mesma coisa?

Armando: É um pouco pior. Às vezes a temperatura varia uns dois a três graus a menos do que em Toronto. Começa a nevar aqui antes de Toronto. Foi o que nós percebemos esses dias. Mas, é o tal negócio, estamos no Canadá e faz parte. Estamos muito protegidos.

Christian: Você comentou que têm muitos portugueses aí. Tem muitos brasileiros também?

Armando: Começando a encher. Começando a aparecer muitos. Principalmente, em Kitchener, onde existe uma comunidade de brasileiros bastante grande já. Começaram a chegar há uns dois ou três anos atrás e não está parando.

Christian: Qual é o maior desafio para os brasileiros aqui?

Armando: A adaptação. Bom, é aquilo que eu te falei: têm os brasileiros mais esclarecidos, que são humildes, que vêm para se estabelecer e para passar por alguns momentos difíceis. Vêm bem preparados para isso. E tem aqueles que são inconsequentes. O cara que acha que o Canadá tem é que falar o português… português da região dele. Eu diria o seguinte: o meio-termo é muito bom. O brasileiro que chega aqui querendo ficar, não é do tipo: “vou ganhar uns trocos e voltar para o Brasil rico”. Esse tipo de brasileiro não tem muito sucesso aqui, não. Agora, aquele brasileiro que vem aqui com dificuldade, inclusive para falar, mas quer aprender, e tem dificuldade para encontrar um emprego na sua área, mas tá aberto para arrumar um emprego de sobrevivência… esse tem muita chance! A oportunidade vai aparecer. Um cara desses, ele dá muito valor ao trabalhador honesto. A honestidade de propósito, principalmente. Eu tenho uma admiração profunda por uma brasileira que se estabeleceu aqui e começou bem por baixo. Hoje, ela é uma mulher espetacular para comunidade. Eu a tenho como… eu sou um admirador dela e essa pessoa é a dona do Brasil Remittance. Eu sou fã dela (ela nem sabe disso, mas eu sou) porque começou por baixo, entendeu. É o tal negócio… se você tem que comer arroz com ovo, coma arroz com ovo. Se tiver banana, ponha banana para engrossar. Se não tiver ovo, coma arroz, mas fique firme nos seus propósitos: você veio para ficar? Você vai ficar, você quer aprender? Então você vai aprender e vai trabalhar. Você vai ter trabalho, talvez não na sua área de imediato, mas você vai encontrar seu caminho. Existe todo um caminho a seguir, como você falou. Não tem imediatismo, não tem receita pronta, entendeu?

Christian: E falando em receita, o que você recomendaria para um brasileiro que estaria vindo para Ontário ou mais precisamente para Cambridge? Qual seria a recomendação que você daria, além da humildade?

Armando: Buscar amigos. Buscar conexão com amigos ou com amigos em potencial. Hoje, temos as redes sociais, têm os grupos de brasileiros em Cambridge (e tem tantos!). A gente está aqui para servir. Procura a gente. Armando Padovan tá no Facebook, então procura a gente. O “Viva Brasil Integration” está lá. A gente está aqui para servir. Então, se a gente não tem o que oferecer, a gente tem alguém que possa oferecer, você está entendendo? Existe um networking. Então, é procurar se integrar nesse networking, porque existe muita gente séria por aqui. Pode tirar o Armando de jogada, mas têm outros que, também, são muito sérios. E a gente conhece.

Christian: E com tantos brasileiros que você conheceu, ainda mais com o que você faz (e com o que você fez) a pessoa chega aqui no Canadá percebe que não é nada daquilo que tinha pensado… por que, às vezes, o pessoal chega com uma convicção, com uma ideia: “ah, vai ser isso!”

Armando: Uma coisa comum que aconteceu e continua acontecendo: “eu [só] tenho o dinheiro da passagem e tá tudo certo. Vou chegar aí.” Ou seja, inconsequência. Não tem propósito, não tem um plano. Isso eu diria que é um ponto comum em muitos brasileiros, infelizmente, e que acontece todos os dias. Por outro lado, a gente encontra tanta gente séria que vem com plano, com perspectivas… e, às vezes, não se encontram. Mas um erro muito grande, também, é a questão do visto. Antes da pandemia, muita gente aplicou para o visto como o estudante. Mas estudante de inglês e não estudante de faculdade. Eu tive o desprazer e a tristeza de ver algumas famílias voltando para o Brasil, depois de terem gastos Can$50,000.00 ou Can$60,000.00 ou Can$70,000.00 ou mais. Porque vieram para estudar inglês e achavam que iam ter todos os benefícios que um residente teria. Então, má informação! Informe-se antes de sair do Brasil. Mas, em fontes fidedignas. Não é qualquer informação. Não é ouvir aquilo que você quer ouvir.

Christian: Que tipo de conselho você daria para o Armandão que chegou aqui no ano 2000? O que você diria para ele?

Armando: Antes de responder qualquer coisa… eu vim com tanta convicção, que acho que a única coisa que eu falaria para mim mesmo seria assim: vai em frente! Se Deus é por nós, quem será contra nós? E a minha divisa: o Senhor é o meu pastor nada me faltará. Então, vai em frente, Armando, não baixa a cabeça. Omnisci para Deus! Não esqueça dos seus valores. Não esqueça a quem você serve. Se comprometa e seja íntegro e honesto nos seus propósitos. Continue sendo transparente. “Pratique a justiça e ande humildemente com Deus”. Esse foi o conselho que o profeta Oseias deu.