O Céu é o limite…

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Entrevista com Daniel Shurz, da Air Canada.

1.370 vôos diários, 33 milhões de passageiros transportados para 170 destinos e serviços oferecidos em 965 aeroportos espalhados pelo mundo. Este é um universo que Daniel Shurz, Vice-Presidente de Planejamento de Malha da Air Canada, conhece bem. O executivo, pai de um pequeno que o mantém ocupado quando está em casa longe dos aviões, acompanhou de perto as negociações do acordo de compartilhamento de vôos (code share) e de programas de milhagem fechado com a a brasileira TAM.

Por Paula Mazulquim

 Como é um dia típico no Planejamento de Malha da Air Canada?
Daniel Shurz – Todos os dias estamos focados no planejamento ou na agenda de vôos e em construir alianças e parcerias efetivas com as maiores empresas aéreas do mundo. Planejamos nossas rotas sazonalmente, ao menos com seis meses de antecedência, para identificar oportunidades de mercado e enxergar como podemos implementar nossos recursos, aeronaves e tripulação de maneira lucrativa. O grupo de agendamento elabora, rota por rota, os horários de vôos de acordo com o tamanho das aeronaves. Também somos membros fundadores da “Star Alliance” – a primeira e maior aliança do mundo que combina a malha de nossos parceiros para oferecer aos clientes um maior poder de escolha que nenhuma empresa sozinha seria capaz de oferecer. Este é outro setor em que a Air Canada tem liderado e justamente por isso fomos atrás do recém assinado memorando de entendimento com a TAM. Queríamos encontrar meios de operar em mais pontos dentro do Brasil, além de São Paulo onde já operamos de nosso ponto central de operações em Toronto.

Quanto tempo demorou para que as negocições chegassem ao Memorando de Entendimento (MOU) assinado com a TAM e como foi negociar com a empresa brasileira?
Daniel Shurz – É um prazer fazer negócios com a TAM, uma excelente companhia aérea e muito profissional. Foram alguns meses para chegar no acordo final.

 Considerando que a Air Canada domina o cenário aéreo no Canadá, como este acordo com a TAM ajudará a Air Canada a se tornar ainda mais forte internamente?
Daniel Shurz – Temos essa forte presença no mercado interno particularmetne por causa de nossa malha internacional, alianças e a habilidade de colocar os canadenses em conexão com o mundo. Acreditamos que os clientes TAM acharão a nossa malha de rotas muito útil – não somente chegando e partindo de todos os pontos do Canadá, mas também para os destinos mais importantes na Ásia e na Europa.

Daniel Shurz

Por meio de acordos como o recém assinado com a TAM, empresas aéreas aumentam sua malha internacional e o número de membros em uma aliança tende a intensificar sua produtividade e lucratividade. Sob o ponto de vista do Mercado Canadense, a competição internacional e entre fronteiras (Canada/EUA) diminuiu?
Daniel Shurz – Ao contrário, o nível de vôos internacionais e entre fronteiras (Canada/EUA) está menor agora que há um ano devido à persistente alta recorde do custo do combustível. Mesmo com uma pequena queda em Agosto, o preço do combustível ainda está duas vezes mais alto do que há um ano e quatro vezes mais do que há quatro anos. Apesar disso, toda empresa que voava em Janeiro de 2008 ainda está voando hoje para os EUA e para a maior parte dos mercados internacionais. Com 3 alianças globais de maior expressão, incluindo a “Star Alliance” – que ajudamos a fundar em 1997 – acreditamos que a competição aumentou no sentido que todos trabalhamos de maneira mais efetiva para atrair clientes.

No próximo inverno (hemisfério norte/dezembro), a Air Canada vai colocar em operação na rota do Brasil a sua maior e mais moderna aeronave – o Boeing 777-300 ER – resultando em um aumento em 138 assentos por dia. Por que este aumento?
Daniel Shurz – O Brazil é nosso maior mercado na América do Sul. Achamos que há uma forte demanda nos negócios devido ao crescimento da economia brasileira, além de um consistente crescimento, ano após ano, nas transações comerciais entre o Canadá e o Brasil.

 O uso do Boeing 777 na rota do Brasil também possibilitará um aumento no transporte de carga entre Canadá e Brasil. Quanto da atual capacidade da aeronave é designada ao transporte de carga e em quanto você espera aumentar?
Daniel Shurz – Atualmente, nossos Boeings 767-300 são capazes de transportar 4 containers de carga, além da bagagem dos passageiros. Com nossos novos Boeings 777-300 durante o inverno no hemisfério norte (voltamos a operar os Boeings 767-300 durante o resto do ano), esta capacidade aumentará em 250% passando para 10 containers. Em peso, vamos dobrar nossa capacidade atual de carga em até 19 toneladas no sentido Canadá (sul/norte) e um pouco menos no sentido inverso (norte/sul).

 Além de aumentar o tráfego aéreo entre Brasil e Canadá de 73.000 para 93.000 passageiros por ano, em que sentido assinar um acordo com a maior empresa aérea brasileira torna a Air Canada ainda mais competitiva no tráfego aéreo internacional?
Daniel Shurz – Nosso acordo com a TAM nos permitirá oferecer aos nossos clientes, e aos da TAM, um único bilhete, checagem de bagagem, o mesmo ponto de atendimento ao cliente e fácil acesso para tarifas mais competitivas, ou seja, uma maior rede de serviços e rotas. Sem falar do ponto de vista dos negócios, o tráfico adicional que acaba sendo gerado de mercados secundários via um país importante como o Brasil.

 Setores aéreos de muitos países passaram por um conturbado período de consolidação e restruturações nos últimos anos. Qual o maior desafio em criar condições para manter um cenário aéreo competitivo no relativamente pequeno mercado canadense?
Daniel Shurz – Nós já temos um ambiente relativamente estável na indústria no Canadá. Com duas empresas domésticas de maior expressão (*West Jet e Air Transat) e a Air Canada competindo com as maiores empresas internacionais que atuam no Canadá, nós nos mantemos sempre alertas e prontos para reagir a qualquer movimento da concorrência. Forças de mercado deixam pouca margem para o comportamento irracional. Além do combustível – nosso maior item de despesa que hoje está duas vezes mais caro que há um ano – os maiores desafios são outros custos operacionais como taxas aeroportuárias, de navegação aérea e altos custos adicionais repassados aos clientes.

 De acordo com relatório do “Canada Transportation Act” (documento que regulamenta o transporte aéreo e ferroviário no Canadá), nos próximos 20 anos, o tráfego de passageiros vai crescer a uma taxa estimada de 3.1% ao ano e o de carga a 4.8%. Essa tendência persistirá mesmo com o preço do petróleo acima de $100 o barril?
Daniel Shurz – Essa é difícil de responder uma vez que não tenho bola de cristal. Assumindo que o preço do petróleo se estabilize, enquanto inevitavelmente haverá uma redução na demanda devido ao aumento das tarifas aéreas, tanto o PIB (Produto Interno Bruto) quanto o comércio internacional experimentarão um retorno ao crescimento só que partindo de um referencial mais baixo.