O homem invisível

Lucas é um apaixonado por viagens. Desde pequeno, caçula apegado com a mãe, era o companheiro dela nas viagens para fazer as compras da boutique da família. Quando começou a trabalhar, iniciava cada contrato com um planejamento das férias – em todas elas, um lugar diferente para conhecer. E foi depois de planos e mais planos bem detalhados que ele desembarcou em Toronto para visitar uma ex-colega de trabalho. Era a primeira viagem internacional.

Os primeiros dias no Canadá foram um deslumbre. Andava Toronto inteiro com Carla, que tinha acabado de receber os papéis da imigração. Ir à Niágara Falls com ela para cruzar a fronteira com os Estados Unidos e dar entrada como imigrante parecia um ótimo passeio. De carro, chegaram rapidinho. Carla era pura ansiedade – finalmente as coisas estavam dando certo. Na van estavam ela, o marido e a filha que dariam entrada como imigrantes pela fronteira, a irmã dela com o marido e os três filhos e Lucas. Só quando o carro estava no meio da ponte é que lembraram:

– Lucas, você tem visto de múltiplas entradas para o Canadá?

– E o que é isso mesmo? Perguntou espantado Lucas. Eu nem trouxe meu passaporte!

Foi uma confusão! O carro não podia parar. Tinha que seguir. E agora?

-Desce e espera ali na calçada, Lucas! – Sugeriu já nervosa Carla.

-Eu? De jeito nenhum… não sei falar nada de inglês, vou acabar preso!

-Calma gente, vai dar tudo certo – disse o cunhado de Carla que dirigia o carro.

Na saída, os agentes americanos recolheram os passaportes. Lucas quieto estava e quieto continuou no meio de todos. O cunhado explicou rapidamente que iria só retornar para dar entrada com Carla e a família como imigrante.

-OK. Go ahead! -disse o agente mostrando o retorno e devolvendo os documentos sem conferir direito. E assim, Lucas entrou nos Estados Unidos sem mostrar sequer o passaporte.

-Mas e agora? E para entrar no Canadá? -Carla estava quase infartando.

-Seja o que Deus quiser, disse o cunhado, estacionando o carro em frente ao guichê da imigração.

Por sorte, estava lotado. No meio do tumulto, Lucas sentou na sala de espera com as crianças enquanto Carla dava entrada com os papéis. Ninguém sequer percebeu o rapaz no meio de todos. Tudo resolvido, de volta ao carro e ainda havia outra barreira para passar. Mas o agente estava tão preocupado em dar boas vindas para a nova família imigrante com uma série de recomendações que Lucas mais uma vez passou despercebido. Difícil mesmo foi aguentar as brincadeiras depois do sufoco, afinal ele praticamente ficou invisível numa das fronteiras mais vigiadas do mundo.

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