Partido em Dois

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Por Rogério Silva

Mania que tenho de guardar coisas velhas que um dia poderão me ser úteis. Revirando periódicos antigos empilhados na estante de minha sala, encontro uma edição 2012 da Revista “Língua Portuguesa”, que tão bem trata nosso idioma. Logo na página 7, nas frases da semana, deparo-me com algo escrito por Caetano Veloso à época: “No domingo passado chamei de ‘agudo’ o acento que indica crase. (…) Logo o meu amadíssimo acento grave, de que sinto tanta falta nos casos em que ele, até aquela mudança ortográfica dos anos 1970, apontava a sílaba subtônica dos advérbios de modo construídos a partir de adjetivos proparoxítonos, como ‘gràficamente’. Passei anos achando feio ler (e escrever) ‘graficamente’ [ou sólidamente, em vez de solidamente (…)], em que a palavra pode parecer ter nascido de um adjetivo paroxítono, ‘grafica’, ‘solida’, ‘rapida’… Deus me livre”.
Não me recordo de ter uma explicação tão singela e tão completa do assunto numa sala de aula. Caetano é baiano, nordestino, politizado e culto. Sinto-me bem em ser seu conterrâneo. É como se eu fosse Caetano também. Uma cultura saborosa, romântica e feliz. Como em tantas canções suas.
Nordestinos também são, das letras, João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado, Ferreira Gullar, Ariano Suassuna, Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos. Da dramaturgia, Dias Gomes, José Wilker e Chico Anysio. Da política, Miguel Arraes. Da música, Luiz Gonzaga, Hermeto Pascoal e Sivuca. Das artes plásticas, o Mestre Vitalino. Todos estes e mais um punhado, personalidades incontestes que deram suas parcelas de contribuição à formação cultural brasileira.
Mas não há muralha que separe o Nordeste do restante do país. Daí, a arte de todos eles ter sido admirada por todos os brasileiros e ganhar o mundo nas páginas, telas, esculturas, oratórias e letras fabulosas desses gênios que nos inspiram e orgulham.
O Brasil pós-eleições 2014 entrou num embate sem sentido de país dividido. De um lado o sul e o sudeste, de outro o Nordeste. Agressões absurdas ganharam as redes sociais desferidas a quem teria contribuído para a vitória da atual presidente Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores. Seriam os nordestinos os principais “culpados” pelo resultado das eleições. Seriam os nordestinos burros, ignorantes, escravos do Bolsa Família, incapazes de experimentar a alternância de poder numa possível eleição do social democrata Aécio Neves. O peso dos programas sociais, na visão de intransigentes, influenciou na decisão.
O fato reacendeu o ideal separatista, com um levante oportunista de tratar dessa possibilidade, que vai repousar no esquecimento certamente, após o casuísmo alimentado de atitudes intempestivas.
O Brasil é um só, com suas mazelas e belezas, suas atrocidades e fascínios, miséria e riqueza, atrasos e avanços, tristezas e alegrias. Os defeitos e virtudes de nosso país não se separam pela geografia, mas pela intolerância. Somos herdeiros de nossos patrimônios. Nortistas, nordestinos e sulistas. O que um produz, o outro consome. Viva o bom senso!

(*) Rogério Silva tem 43 anos, é jornalista e administrador de empresas. Professor universitário da Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação (ESAMC), tem MBA em Gestão Executiva e Empreendedora, com extensão em liderança. Desde 2007 dirige as áreas de infraestrutura midiática e jornalismo da Rádio Educadora Jovem Pan e TV Paranaíba/Record, em Uberlândia, Minas Gerais, Brasil.