Rita Espechit

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Jornalista, escritora, mulher das artes e das letras.

Vai ver você nunca ouviu falar da autora Rita Espechit, mas já faz anos que os adolescentes e as crianças brasileiras se acostumaram a desfrutar da criatividade desta ex-estudante de medicina que virou jornalista, escritora, mulher das artes e das letras. A autora mineira deixou Belo Horizonte em 2001, aflita com a crescente onda de violência que assolou a capital de Minas Gerais lá pela metade dos anos 90. Veio com a família e se estabeleceu em Edmonton, Alberta. Aqui, Rita conta um pouquinho de sua vida de “colonizada”, família e desafios pessoais no Canadá.

Por que a família resolveu se estabelecer em Edmonton?
Rita Espechit – Escolhemos Edmonton pelo seu tamanho e economia forte. Aqui é fácil de ir e vir, e gente que não te conhece te cumprimenta na rua, puxa conversa. Há uma tradição de ajudar uns aos outros. Gosto muio daqui. Só o conservadorismo é que às vezes me deixa aflita, mesmo sendo um conservadorismo mais brando, diferente, ele está presente e às vezes incomoda.

Não sou visible minority, mas sou audible minority.

E em relação ao país, ao Canadá, do que você gosta e desgosta?
Rita Espechit – No Brasil, a gente vive em clima de alta tensão, e no Canadá a voltagem é outra, e eu gosto disso. Também acho positivo o multiculturalismo, apesar de sentir que o conceito, em termos de política cultural, é confuso. O governo faz do multiculturalismo uma salada meio maluca nesta área. Um exemplo é a definição de “visible minority”. Ninguém bate o olho em mim e nota que não sou daqui. Mas sou “audible minority”. Basta eu abrir a boca que a discriminação aparece. (risos) Sei que comparado ao que acontece em outros países, o Canadá é um paraíso para imigrantes, mas há ainda muito espaço para melhorar.

Mas o que me incomoda de fato é o sistema eleitoral . Você vota só na sua região e, se a pessoa em que você votou não ganhar, o seu voto vai para o lixo. Isto gera uma distorção incrível. O poder é representado pelo número de cadeiras no parlamento. O total de votos do partido NDP, por exemplo, pode ser, em porcentagem, muito maior que a porcentagem de cadeiras que eles conseguiram. O sistema é desenhado para manter o status quo.

 Qual foi seu maior desafio para se estabelecer no Canadá?
Rita Espechit – Acho esse negócio de fronteira bobagem. Então, me sinto muito em casa aqui. Mas tenho um problema grave que é a minha profissão, que é baseada na língua portuguesa. Estava acostumada a ser Rita Espechit e aqui virei “a mãe da Alice”. Mas gosto deste desafio. Vim aos 40 anos, largando emprego estável, uma vida confortável e previsível. A mudança me revitalizou. Eu estava cristalizando e tive que quebrar tudo de novo. E isso faz bem à inteligência da gente. Aprendi muita coisa mudando de país.

Sinto muita falta de água de filtro de barro.

Sente falta de alguma coisa do Brasil?
Rita Espechit – Sinto muita falta de água de filtro de barro. Quero trazer um… E sinto falta das pessoas. Eu também achava que vivia uma vida universal e descobri que muitas coisas são só nossas, brasileiras. A gambiarra, por exemplo, que a gente julga uma coisa ruim, também demonstra nossa capacidade criativa e eu só fui entender isso melhor aqui.

 Quais foram os desafios específicos em relação à adaptação da Alice, sua filha?
Rita Espechit – Alice tinha dez anos na época e acho que estava no limite da idade. Mais velho que isso, começa a ficar complicado. Ela teve problemas no começo porque era a única imigrante em uma escola que tinha um professor conivente com a intimidação pelos colegas. Mas bastou passar para uma escola onde havia mais diversidade que o problema acabou. Alice aprendeu a língua rápido e fez vários amigos. Agora. ela está terminando o curso secundário, e deve passar um ano viajando pelo Brasil e Europa. Depois, quer estudar para ser bibliotecária.

 Nestes seus anos de Canadá, o que você considera um passeio imperdível para quem está chegando?
Rita Espechit – Concretizei aqui algumas fantasias norte-americanas da minha vida de “colonizada”: fui ver filme em drive-in e dirigir um motor-home por Quebeque, Nova Escócia, Nova Brunswick… Muito legal! As Rochosas também são imperdíveis. A gente acha que Minas tem montanha, mas as Rochosas são enormes e muito bonitas. Em termos culinários, aqui em Edmonton, ninguém pode deixar de experimentar a comida ucraniana. Uma delícia!

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Em sua carreira, Rita Espechit já vendeu mais de 1 milhão de livros. Conquistou com seus escritos vários importantes prêmios no Brasil, como o João de Barro e o Prêmio Jabuti e tem nas prateleiras das livrarias brasileiras três coleções de poesia, 13 volumes de literatura infantil, um dicionário escolar e uma série de oito livros didáticos.

Agora a autora está dando seus primeiros passos na conquista do público canadense. Rita foi escolhida como Escritora em Residência do programa Writer in Exile da PEN Canada em Edmonton e também já faturou o primeiro lugar do concurso Poetry by New Canadians com seu poema A Guide for an ESL-Friendly Language. A escritora teve uma peça de teatro (They’re Not Like You and Me) encenada no Sprouts New Play Festival for Kids em Edmonton e também colaborou no livro The Story that Brought me Here, além de ter publicado poemas em diversas revistas literárias do país.