Duas crônicas de Nilson Lattari: Remediado e Infortúnios 🔊

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🕪 Ouça — Remediado

Houve um tempo, se não estou enganado, por volta dos anos 70 do século passado (Meu Deus!) onde as classificações de renda foram um pouco diferentes dos tempos atuais. Remediado era uma classificação para o sujeito ou família que estava no meio da tabela, mais ou menos entre a atual classe média e a classe pobre. Figurava como um tipo de situação onde poderia haver remédio para consertar e o classificado passaria a ser classe média. Era um pobre com jeito de que poderia se salvar. Ainda dava tempo. O remédio não se fazia a menor ideia. Poderiam ser muitos, como, por exemplo, ganhar na loteria.

O tempo passou e o remediado ficou esquecido no tempo, claro que para os remediados da época, como o meu caso, ficou gravado na memória.

Hoje, como poderíamos enquadrar o remediado? Temos a classe alta alta, alta média, alta baixa, a classe média e a pobre, e aquela que vive abaixo da linha da pobreza: A, B, C e D. Quer dizer, não falta classificação e, portanto, o remediado estaria ali na série B, C ou D, ou poderia estar em qualquer uma delas. Tem jeito de subir, o remédio… aí são outros quinhentos ou bilhetes de loterias.

Não há remédio para tudo, nem tudo tem jeito. E um dos jeitos de subir na vida é na sorte ou subindo em cima dos outros. Tipo um alpinismo sem nenhum pudor. Vale tudo.

Mas nós temos os remediados do futuro. Aqueles que sonham atingir o patamar mais elevado. Não através das posses, do dinheiro, mas na forma de pensar igual, achando que o melhor remédio é se iludir, como uma droga social que faz o sujeito imaginar que chegou lá… em pensamentos.

Achar que pensar como um mais rico seja uma maneira de ser é o pior remédio que se poderia tomar. Meus caros, não há remédio para isso. Remediado é um paciente terminal, que vê na ascensão imaginária a única maneira de se sentir mais rico.

Impedido de alcançar o patamar mais elevado pelas vias materiais, o remediado tenta formar uma moralidade que o aproxima do melhor, do mais bem localizado. É alguém que vende o almoço para comprar a janta. Pensa como se fosse, age como se fosse, se entope da bebida venenosa da ilusão para ser o remediado. Aquele que tem possibilidade de ascender socialmente, mas dentro do seu imaginário.

Remediados são muitos, principalmente quando vive uma vida iludida nas redes sociais, tentando demonstrar aos companheiros remediados que vive uma vida mais feliz e mais completa. Uma vida sem remédios, sem conserto. A ilusão é a melhor forma de enganar a si mesmo.

Ser remediado ontem era um fato baseado no consolo de que se conseguir mais dinheiro pode passar para outro patamar. Ser remediado hoje é um fato baseado na ilusão de que chegou lá, sem nenhum remédio que dê jeito a não ser o choque de realidade.


🕪 Ouça — Infortúnios

Ao lidar com os infortúnios crescemos muito na vida. É claro que os infortúnios são muitos, de diversas maneiras, e chegam até nós de forma inesperada ou não. Alguns são insuperáveis, muito além da nossa capacidade de reação, enquanto outros são superdimensionados por nós mesmos, ignorando que existem aqueles que são, realmente, muito grandes e insuportáveis.

O infortúnio é como uma escuridão que nos abate. Chega como uma nuvem escura e cheia de perigos. Ele nos pega desprevenidos, como uma armadilha do tempo ou das circunstâncias.

Pode ser que chegue como uma praga, uma notícia ruim ou por uma desilusão amorosa ou profissional. Infortúnios são mensagens que constroem nossos limites, estabelecem até onde podemos ir. São placas de aviso para não ultrapassar. Infortúnios são barreiras que deixam nosso olhar distante e ficamos imaginando que a vitória poderia estar logo ali. São decisões desencontradas, intempestivas que nós mesmos criamos ou não.

Nesse caso, então, devemos considerar uma maldição. Colocar nele a culpa das nossas derrotas e assim continuar a viver como se nada tivesse acontecido.

A verdade não é bem assim. Embora fora de nossos controles, os infortúnios, como eu disse, são lições, aprendizados. Estabelecemos aqui os infortúnios como causas das nossas lides sociais. Não há como separar o infortúnio, como obstáculo na vida social, daqueles causados por causas naturais, como enfermidades que não podemos controlar.

Os infortúnios sociais podem ser frutos de uma ganância excessiva sobre as coisas, aquelas coisas que estão além dos nossos limites. Infortúnio é a falta de luz sobre os acontecimentos, algumas vezes um raciocínio mal-empregado. Para solucioná-lo devemos acender uma luz nessa escuridão.

Se nos desiludimos amorosamente, podemos nos colocar em situação de baixa estima. Por força de uma desilusão desse tipo, a luz do esclarecimento é seguir adiante, e imaginar que a vida deve continuar, que o outro ou a outra não podem ser mais importante do que a nossa própria vida.

No espaço profissional, as disputas fazem parte do cotidiano. Nesse caso, o infortúnio não é, exatamente, uma causa que não possa ser superada, porque esse infortúnio é uma má sorte, uma adversidade. Em suma um fato infeliz, como uma pedra que aparece no meio do caminho e tropeçamos. Mas o caminho continua lá, nos esperando.

Continuar a ver o caminho é a luz que ilumina essa escuridão. Erguer a cabeça, quando esse fato infeliz não nos imobiliza é, antes de tudo, uma benção que recebemos. Felizes daqueles que continuam a enxergar a caminhada como um fato comum na vida. Mesmo que estejamos ao rés do chão, podemos erguer os olhos e continuar a vislumbrar o possível fim do caminho. Essa é a luz definitiva dos nossos percalços. Temos que acendê-la e não reclamar porque não a enxergamos.


Crônicas publicadas na Wave: Nilson Lattari


Nilson Lattari é um escritor e cronista brasileiro que se destaca pela sensibilidade em observar o cotidiano e transformá-lo em literatura. Autor de contos, crônicas e romances, Lattari constrói sua obra a partir de um olhar atento sobre as pequenas e grandes experiências humanas, costurando memórias, afetos, críticas sociais e reflexões sobre o mundo contemporâneo.

Graduado em Engenharia e pós-graduado em Literatura, encontrou nas letras uma forma de expressão que ultrapassa o rigor técnico da profissão e se abre à subjetividade da vida. Seu estilo, marcado pela clareza e pelo lirismo, aproxima o leitor dos personagens e situações que descreve — sejam eles figuras anônimas do dia a dia ou lembranças de sua própria trajetória..

Como cronista, Lattari tem presença constante em publicações digitais e impressas, sempre trazendo textos que dialogam com a realidade brasileira e universal. Nas crônicas, encontra-se sua habilidade de transformar a simplicidade de um instante em reflexão profunda, equilibrando humor, crítica e emoção.


Visite o Blog do Autor: Nilson Lattari


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