O ser e o parecer — Crônica de Nilson Lattari 🔊


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As aparências enganam. E como isso é profícuo hoje em dia. O parecer toma ares de poder e consegue convencer pessoas de uma realidade que não existe. Muitos podem ser colocados nessa bolha de iniquidades. Desde o ateu ao crente, desde o atencioso ao grosseiro, desde o egoísta ao perdulário. Tudo se confunde numa atmosfera de essências que não tem cheiros, sabores ou tatos. É, simplesmente, a ideia de ter que acreditar para que acreditem em nós.

Parecemos o que não somos, e isso é que é fascinante.

Por exemplo, quando alguém é cortês mas não esconde sua violência no brilho dos olhos e em seus gestos. Quando alguém vocifera que Deus está no comando mas tem uma arma em casa. Nesse caso, Deus está trabalhando nos confins do universo e não poderá chegar a tempo. Esse alguém está ajudando, talvez, o Todo Poderoso. E por que não ajudá-lo?

Quando pessoas de bem e donos de uma moral propagandeada como perfeita não hesitam em conseguir algum documento amigo para resolver uma questão. Quem sabe, aqueles que furaram uma fila sobre qualquer coisa, apesar de serem contrário ao que se pratica ali.

Ser, hoje em dia, não parece ser uma coisa muito saudável. Se somos aqueles que procuram conhecer a fundo a verdade das coisas, com certeza, não seremos uma pessoa bem-vinda, porque afinal, sendo assim, parece ser uma coisa diferente da roda. Logo, por que participar?

Em alguns momentos, outros têm medo de ser o que desejam, porque serão vítimas da própria sinceridade. Outros parecem não ter medo de ser o que são. No final das contas, estar ao lado dos mais agressivos e fortes pressupõe uma proteção para repetir sandices ao infinito.

Têm aqueles que são de um jeito completamente diferente. Não se enquadram no que são e resolvem comprar brigas, chegando ao ponto de poderem ser espancados nas ruas. E, no entanto, outros parecem ser uma coisa que, no seu íntimo, não é nada daquilo mas têm que parecer porque precisam conservar uma aparência. Podem estar ao lado dos que agridem, assim, para parecer ser o que outros querem que seja.

Ser ou parecer, hoje em dia, necessita de uma dose extra de coragem. Deve ser duro tentar ser o que é e enfrentar os outros. Muitos desses outros necessitam de uma dose de coragem para disfarçar o que se é.

Ser e parecer são irmãos siameses. São corpos que, separados, não são nada. Para os que vivem de aparência é necessário, sempre, colocar os que não vivem em estado de alerta. É a única chance de manter-se na sua falsidade e mostrar, dentro de paredes, o que realmente se é.

Até este texto parece ser alguma coisa, e no fundo não é.


Crônicas publicadas na Wave: Nilson Lattari


Nilson Lattari é um escritor e cronista brasileiro que se destaca pela sensibilidade em observar o cotidiano e transformá-lo em literatura. Autor de contos, crônicas e romances, Lattari constrói sua obra a partir de um olhar atento sobre as pequenas e grandes experiências humanas, costurando memórias, afetos, críticas sociais e reflexões sobre o mundo contemporâneo.

Graduado em Engenharia e pós-graduado em Literatura, encontrou nas letras uma forma de expressão que ultrapassa o rigor técnico da profissão e se abre à subjetividade da vida. Seu estilo, marcado pela clareza e pelo lirismo, aproxima o leitor dos personagens e situações que descreve — sejam eles figuras anônimas do dia a dia ou lembranças de sua própria trajetória..

Como cronista, Lattari tem presença constante em publicações digitais e impressas, sempre trazendo textos que dialogam com a realidade brasileira e universal. Nas crônicas, encontra-se sua habilidade de transformar a simplicidade de um instante em reflexão profunda, equilibrando humor, crítica e emoção.


Visite o Blog do Autor: Nilson Lattari


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