Reflexões de quarentena

Ficar dentro de casa é a oportunidade de olhar um pouco para dentro de nós mesmos. Pode ser o momento de pintar a casa, remexer gavetas, olhar a própria casa com olhar crítico (...)

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Foto: Cristofer Jeschke (Unsplash)

Ficar dentro de casa é a oportunidade de olhar um pouco para dentro de nós mesmos. Pode ser o momento de pintar a casa, remexer gavetas, olhar a própria casa com olhar crítico, tanto para fazer modificações como curtir as mesmas coisas, examinar o que temos de supérfluo ou não. É claro que para muitos isso não é possível, não sejamos hipócritas. O isolamento, no Brasil, e talvez em uma grande parte do mundo é um privilégio para poucos.

Temos em nossa casa um acúmulo do tempo, como a maré que vai carregando objetos para o fundo do mar ou para locais distantes, e, portanto, olhar gavetas é redescobrir aqueles objetos que nunca pegamos, apesar de saber que eles estão lá.

Revolvi algumas gavetas nessa procura de tarefas, na tentativa de organizá-las melhor. E fui encontrando objetos perdidos, ou revisitando outros, escondidos e perdidos no tempo e no espaço confinado, na escuridão das roupas e dos lençóis. Tempo de encontrar moedas que nunca nos fizeram falta, aquele brinquedo que ficou esquecido, uma carta que algum filho, quando pequeno, nos dedicou, lemos e guardamos lá dentro: uma maré temporal que vai vagando e vagando em um sem-fim.

E chegamos nos retratos. E como os retratos nos fazem viajar no tempo! Estamos rindo, na maioria das vezes, rodeado de amigos, familiares, todos vivendo um tempo de rostos limpos, respirando o ar livre e se abraçando.

Revendo-os, quem sabe estaremos nos preparando para experiências que viveremos no tempo futuro, e quanto nós devemos valorizar os sorrisos, as expressões das pessoas e os abraços. Os sorrisos e abraços que estão envelopados dentro dos retratos que não revelam o sentido da conversa ou o motivo da reunião.

Numa das faxinas, resgatei um retrato 3×4, desses que tiramos para documentos. Lá estava um jovem, vestindo um terno claro, sem sorrir para a câmera. Ainda sombreado por um pedaço de carimbo de algum lugar.

Como um encontro de gerações, fiquei ali conversando com ele, trocando as experiências de vida. Dali a um tempo eu comecei a sentir inveja daquela vida: eu comecei a ter inveja de mim, do jovem que está naquela foto. Sem nem mesmo sorrir, os olhos tinham um brilho especial, a pele era límpida e lisa, o cabelo bem arrumado. A diferença entre nós era que ele sonhava em conseguir coisas, e eu com a realização de muitas delas.

Ele talvez sentisse ânsia em ter o que eu tenho hoje, e eu comecei a pensar que era mais feliz, porque teria muita coisa para construir, fazer e viver. Ele era o antes da festa, eu, a ressaca dela.

Descobri que fui feliz e não sabia o quanto. E também descobri que não deveria parar nunca de sonhar e ter projetos. O que nos envelhece é o vazio que deixamos dentro de nós, como se estivéssemos esvaziando e nos enrugando. O brilho nos olhos é o sentido externo disso. A ânsia por querer uma coisa a mais, lutando contra o tempo, a quem nós não devemos nos entregar sem luta.