Entrevista com Patricia Barcellos, Kanata-Ottawa

Transcrição do áudio (podcast) da entrevista

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Transcrição do áudio/podcast

Olá seja bem-vindo. Eu sou o Christian Pedersen e este é mais um episódio do Ontário não é só Toronto. Neste episódio, queremos saber: por que a Patrícia foi morar em Kanata, subúrbio de Ottawa? Patricia Barcellos, funcionária do setor de saúde do governo federal canadense, trocou Toronto, onde morou por 10 anos, por uma vida em Kanata, um antigo município que foi absorvido por Ottawa e hoje é um grande subúrbio. O subúrbio de Kanata, hoje, tem por volta de 117 mil habitantes e fica a, mais ou menos, 22 km a oeste do centro de Ottawa.

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Christian: Patricia, por que você veio morar no Canadá?

Patricia: Eu escolhi o Canadá, porque, em um determinado momento da minha vida, quando eu estava morando no Brasil, o meu marido conseguiu uma bolsa de doutorado para ir para os Estados Unidos, e nós fomos juntos. Nesse período, o que aconteceu foi que nós visitamos o Canadá. E quando nós chegamos a Toronto, e era verão, foi aquela explosão de todas as cores, tamanhos, sons. Você ouvia línguas que você não conseguia… eu, pelo menos, não conseguia nem identificar! E as pessoas, extremamente, simpáticas. Na nossa experiência toda, não teve um momento do tipo: “Nossa, que estranho!”. Então, foi uma coisa que nos impressionou muito bem. Aí, o que aconteceu foi que, na realidade, nós [pensamos]: “Puxa, de repente a gente podia imigrar para o Canadá!”. E nós demos entrada na papelada em Minneápolis [nos Estados Unidos]. Mas depois, com a bolsa, você tem uma obrigação de voltar para o Brasil (acho que tem que ficar, pelo menos, por dois anos). O Consulado do Canadá em Minneápolis, nos informou que, como nós estávamos nos mudando para outro país, então, nós teríamos que começar o processo neste outro país [Brasil]. E foi o que eu fiz.

Christian: Você escolheu Toronto, logo de cara, ou pensou em outro lugar primeiro?

Patricia: A minha ideia era Montreal. Porque eu tinha vindo já ao Canadá a trabalho e conheci Toronto, conheci Vancouver (que eu gostei, imensamente!). Mas não tinha conhecido Montreal e tinha aquela ideia de Montreal! E fui ver como era a situação em Montreal. Porque ainda na minha cabeça, Montreal era o lugar.

Christian: O que você gostou de Toronto e o que você não gostou de Toronto?

Patricia: Eu gosto dessa diversidade de Toronto. É assim, uma coisa que dá uma vida na cidade e que, para a minha experiência (talvez quem more em Nova York ou, talvez, em Miami, sei lá, talvez tenha uma experiência similar), comparando com a minha experiência de vida nos Estados Unidos e mesmo, por exemplo, em Montreal, quando eu passei lá uma semana… acho Toronto tem essa diversidade que eu acho ótima! E que reflete em milhões de coisas, não só nessas pessoas que você vê. Mas reflete nos bairros, reflete nos restaurantes, nos mercados.

Christian: O que você valoriza em Kanata,que não encontrou em Toronto?

Patricia: O começo é sempre muito mais difícil, né? Então, eu acho que esse aspecto, dessa luta dos desafios de você conseguir as coisas e saber as coisas… então, para mim, essa parte foi muito difícil, em Toronto. Eu achei que ficou um pouco limitado. Apesar de que você pode fazer coisas e tal, eu acho que eu ainda estava aprendendo muito (como ainda estou) o que é o Canadá e a cultura canadense. Então, esse começo é muito difícil. E aí, talvez, nem seja uma coisa específica de Toronto. Porque, talvez, se, e, a minha primeira chegada ao Canadá, tivesse sido em outro lugar, eu teria tido essa mesma experiência. Mas eu acho, talvez por Toronto ser a maior cidade, também têm essas coisas, as pessoas são mais frias, todo mundo está no corre-corre. Eu me lembro, por exemplo, que quando eu me mudei para a National Capital Region (porque eu fui morar em Quebec) eu me lembro que eu aluguei o meu apartamento. Aí, como boa brasileira, a primeira coisa, você vai ao supermercado para comprar material de limpeza, porque você tem que lavar tudo! Então, eu estava no supermercado com vassoura, sabão, tudo o que você pode imaginar! Aí quando chegou a minha vez na fila, a moça da caixa olhou para mim e falou: “Bom, ou você é faxineira, ou você acabou de se mudar”. E a moça, a pessoa que estava na minha frente, todo mundo riu! E eu achei ótimo! Em Toronto você vai no supermercado, a moça da caixa tem aquele sorriso: “Hi, how are you?”. [Mas] ela nem te olha! Vai passando as coisas: “Hi have a nice day!”. Aí, de repente, a minha primeira experiência lá do lado de Quebec, a pessoa não só me viu, como olhou, pensou alguma coisa e fez o comentário…, e todo mundo riu! E eu falei: “Gente, que diferença!”. Outra coisa que eu também achei engraçado (essas coisas são bobas, mas não sei, me impactaram porque talvez eu não estivesse esperando. Toronto também tem o tráfego que… agora quando eu vou para Toronto, eu falo: ”Ai, nossa!”. Mas, eu me lembro que na primeira vez que eu vim a Ottawa para procurar apartamento, antes de me mudar…, eu vindo pela 416, entrando na 417, as pessoas facilitaram para eu entrar na Highway. Eu nunca tive essa experiência em Toronto!Estou um pouco mais relaxada, vamos dizer assim, no Canadá, e entendendo um pouco mais a cultura canadense. É uma coisa que, quando você vem mais jovem, eu acho que é uma coisa muito mais fácil, mas, para mim que já vim uma pessoa bem adulta, é difícil…, é difícil! Acho que é um aprendizado que eu vou morrer aprendendo.

Christian: O que fez você querer mudar de cidade?

Patricia: Foi por um emprego. Eu tive uma oferta de emprego em Ottawa, que era muito mais interessante para mim, do ponto de vista profissional. Quer dizer, não só financeiro, mas o trabalho em si. Eu vim trabalhar em uma agência do governo que desenvolve normas técnicas. Uma coisa que eu tinha trabalhado um pouco no Brasil, na época em que a ISO 14000 (que é a do meio ambiente) estava senso discutida e eu participei do comitê brasileiro. Então, foi uma coisa que eu achei bem interessante, o desenvolvimento de normas técnicas. Tive essa oportunidade, submeti o meu currículo e consegui a posição e então eu vim.

Christian: Como é que foi o processo de mudança, foi tranquilo?

Patricia: Médio. Porque eu conhecia uma moça aqui em Ottawa, uma canadense. E ela ia estar fora do país (eu me mudei em fevereiro) e falou assim: “Ah, Patrícia! Por que você não fica aqui na minha casa?”. Eu achei ótimo: “Claro!”. Porque eu tomaria conta da casa dela (ela também tinha um gato), ao invés de ir para um hotel (e eles me pagariam o hotel). Bom, foi um desastre! Por que foi um daqueles invernos que nevou até não poder mais, entendeu? E eu tinha que limpar a neve e eu não tinha mais onde colocar a neve. Então, você fica tentando colocar… fazendo um morro cada vez mais alto. Foi um inferno, foi um horror! Eu falei: “Mas que estupidez a minha!”.

Christian: Quais os aspectos de Ottawa que você gosta e que você não gosta?

Patricia: Isso é que é engraçado! Porque eu me lembro (quando eu estava em Toronto e era recém-chegada) que as pessoas falavam: “olha, Toronto, cidade grande!”. E eu ficava pensando…hã-hã… porque, comparada com o Rio, Toronto é uma cidade pequena, né? E vim parar em Ottawa, quando Ottawa não tinha um milhão de habitantes! Quando eu vim, estava em uns 800 mil, ou seja o que for. Mas eu gostei! Foi engraçado também, que aqui algumas pessoas, quando me perguntavam: “Ah! Onde é que você morava antes?”. E eu: “Em Toronto“. E elas: ”Nossa! Mas você deve estar detestando Ottawa, porque Ottawa não tem nada!”. Quer dizer, eu acho isso uma impressão, talvez, um pouco mais do pessoal mais jovem, porque Toronto, acho, tem muito mais vida noturna. Isso de fato tem! Mas, as pessoas também… eu conversando em Ottawa… parece que Ottawa era muito pior. Hoje em dia, você tem essa diversidade de restaurantes, de bairros e tal. Obviamente, não dá para comparar com Toronto. Mas você tem e tem bastante! E eu acho que, ou por causa da minha idade, ou seja lá por que, eu acabei gostando desse ritmo um pouco mais lento. Aqui tudo é perto, entendeu? Você fala assim: Traffic Jam. Mas Traffic Jam, porque você não pode ir a 80km/h! Vai a 20km/h ou 30km/h, entendeu? Mas, é um pouco diferente. O que eu acho, também, gostoso daqui de Ottawa, é essa proximidade com a natureza: você tem o Green Belt em Ottawa, você tem o parque de Gatineau, também. Quer dizer, tudo superpertinho, muito mais do que em Toronto! Em Toronto você tem o lago e se você mora perto do lago, ótimo! Mas se não… e em Toronto, que é muito bom e muito ruim, que é o seguinte: “Se você mora perto do metrô, você está bem. Mas se você mora longe do metrô, o sistema de transporte publico é horroroso”. Aqui é um pouco melhor, por causa do volume, eu acho, de funcionários públicos. Pelo menos, de manhã e à tarde você tem uma frequência de ônibus. Tem uma pista especial só para os ônibus em partes da cidade. É interessante, porque (até um diretor-geral), todo mundo usa o transporte público. E essa coisa de que tudo é perto, tudo está a 20 minutos, 30 minutos. Eu vim parar em Kanata porque em determinado momento, eu falei: “Puxa vida, eu vou pensar em comprar uma casa!”. Eu estava morando em um bairro supersimpático em Ottawa, que se chama West Borrough, mas, também, extremamente, caro. O aluguel era bastante caro. Eu falei: “Não tem sentido eu ficar pagando esse aluguel”. Mas, também, para conseguir comprar uma casa em Ottawa…, não é tão caro quanto Toronto, mas é um pouco mais caro do que eu poderia pagar. Eu tinha, na época, uma colega de trabalho e nós éramos bem próximas. Ela morava em Kanata. E ela falava: “Vem pra Kanata!”. Enfim, ela é canadense e me deu várias dicas e eu vim ver Kanata. Essa coisa de morar no subúrbio sempre foi uma coisa que eu nunca pensei. Porque, depender do carro para ir comprar um quilo de farinha ou um litro de leite, isso eu acho um horror! Mas eu consegui descobrir um lugar em que eu tenho tudo: eu posso andar para a biblioteca, tem banco, tem coffee shop… têm todas essas coisas que são mais importantes… têm três tipos de supermercados. Ah! E é pertinho do ponto de ônibus que, na época, eu usava. Então, você não fica totalmente dependente do seu carro. Então, essa para mim, era a coisa mais importante! Bom, em fevereiro, você não tem muitas ofertas. Mas aí, esse lugar que eu achei esse lugar em Kanata, que tinha todos esses benefícios, inclusive um ponto de ônibus para ir para a cidade, pertinho também.

Christian: O Light Rail também chega a Kanata ou ainda não chega?

Patricia: Ainda não. Tem o plano de chegar.

Christian: Mas, quando você foi se mudar de Ottawa para Gatineau como é que foi essa transição? Porque, como Quebec fica na divisa, muita gente mora em Gatineau e trabalha em Ottawa. Ou muita gente também vai para Gatineau para comprar álcool ‒ eu soube dessa história, que é mais barato… o pessoal sai à noite para Gatineau para comprar álcool e volta para Ontário… como é que foi essa mudança? Porque tem muito, não só muitos incentivos, mas também tem o problema da língua, que não deixa de ser um problema.

Patricia: É um problema. O que aconteceu foi que, no comecinho de fevereiro, quando eu vim procurar um lugar para ficar, o único lugar que eu encontrei, que era perto o suficiente do meu trabalho e que eu poderia andar, se eu precisasse, foi do lado de Gatineau. Então, quando eu fiz a minha mudança de Toronto para National Capital Region, eu fui direto para Gatineau. Na realidade, eu queria muito, estava interessada em aprender francês. Mas, infelizmente, o trabalho, mesmo no lado de Gatineau (onde eu trabalhava) todo mundo só falava inglês. Com exceção de uma pessoa (que tinha toda a paciência) e eu falei para ela: “Monique, eu quero praticar o meu francês”. Ela era bilíngue e foi ótimo porque ela só falava comigo em francês. E me ajudava a responder quando eu não sabia. Mas aí eu também aprendi. Eu não sabia, mas fiquei sabendo dessas coisas. Muita gente que mora em Ottawa vai para Quebec, não só para comprar bebidas (que, em geral, é mais barato), mas os bares também tendem a ficar abertos até mais tarde.

Christian: Kanata tem uma parte tecnológica, com as indústrias. A cidade atrai pessoas, também por isso, ou a cidade é mais dormitório?

Patricia: Eu acho que Kanata começou como uma cidade-dormitório. Porque ela é, exatamente, assim: à margem do Green Belt. Então, ela não tem aquela parte… tipo, quando você vai em cidades menores, em geral na América do Norte, você tem aquele centrinho, que às vezes é simpático e tal. Kanata não tem. Então, eu acho que o começo de Kanata foi de uma cidade-dormitório. Porque começou toda a parte de TI a ficar na parte que eles chamam de Kanata Norte. E você tem o parque industrial dessa área de tecnologia da informação bem grande em Kanata. Então, as pessoas começaram a viver mesmo em Kanata, o que é uma coisa mais simpática, obviamente, porque as pessoas vivem e as coisas começam a acontecer também.

Christian: Valeu a pena mudar para Kanata?

Patricia: Para mim, valeu! Valeu porque eu acho que eu não teria a oportunidade de ter a casa que eu tenho em Toronto. A não ser que eu morasse… talvez… eu nem sei onde, entendeu? E ter que enfrentar a [rodovia] 41 todos os dias, de ônibus ou de carro, e perder… sei lá, quantas horas as pessoas perdem no tráfego! Eu dirijo indo para o meu trabalho, meia hora de carro. No inverno, às vezes voltando com mais tráfego, levo 40 minutos. Isso eu jamais teria em Toronto. Dificuldades de Ottawa: o inverno. O inverno é mais longo, mais frio, mais neve. Eu tenho tentado tirar o máximo que eu posso, me envolvendo com as atividades de inverno.

Christian: Você indicaria Kanata a um brasileiro?

Patricia: Eu acho que aí vai depender do perfil. Se for uma pessoa superjovem, que adora badalar, talvez até o lado de Quebec seria mais interessante. Se for uma pessoa que gosta muito dessa parte de esporte de inverno, bicicleta, caminhadas, eu acho que Ottawa de uma maneira geral e Kanata, também (porque é tudo tão pertinho), oferecem. E acho que também [é bom] para quem tem família. E tem muito… parece que tem muito brasileiro aqui. O pessoal que trabalha nessa área mora em Kanata. Da mesma maneira que têm pessoas em Ottawa que decidiram se mudar para Gatineau, justamente para poderem ter acesso a uma casa melhor e um custo de vida mais barato (coisa que, em Gatineau, eles conseguem), é a mesma coisa eu diria para se, de repente, você está pensando em ir para Toronto, mas dependendo da sua situação, Ottawa e Kanata, particularmente, eu acho que seriam uma boa opção. Mais do que a parte leste, porque lá, Orleans parece que tem sempre problema de trânsito para vir de ônibus de Orleans para o centro da cidade.

Christian: Então existem muitos brasileiros em Kanata?

Patricia: Tem. Tem muito brasileiro.

Christian: Existem produtos e serviços brasileiros ou é só mais em Ottawa?

Patricia: Não que eu saiba. Infelizmente, nos tínhamos um grupo aqui, e o grupo meio que acabou…, infelizmente. Então, eu não estou muito a par.

Christian: E quais as recomendações que você daria a um brasileiro? Que estaria chegando aqui e quer ir para Ottawa ou pra Kanata?

Patricia: Na realidade, eu acho que essa coisa flutua um pouco. Mas eu acho que, hoje, por exemplo, Kanata oferece também um suporte para imigrantes. Quando eu cheguei a Toronto, por exemplo, eu não tive. Acabei descobrindo essa organização [para migrantes] que eu sei que é uma das… porque me convidaram para ser o que eles chamam de “mentor” para imigrantes. Eu achei a ideia ótima! E têm outras várias organizações e eu acho que não só para Ottawa. Para pessoas que estão pensando em vir para o Canadá, eu acho que, hoje em dia, tem o acesso via internet e é muito mais fácil, inclusive, pegar informações pela internet. Se você conhece alguém ou através da Wave, por exemplo, fazer contatos. Porque eu acho que a única coisa que eu me preocupo um pouco e que eu alertaria é essa questão do inverno. Porque eu acho que é uma coisa difícil, né? Porque algumas pessoas não se adaptam.

Christian: Quando muita gente fala: eu gosto do frio, eu vou me adaptar bem. O frio que a gente tem no Brasil é totalmente diferente do frio que você lida aqui. Por mais que você goste, não é bem assim não…

Patricia: Essa coisa do frio… é uma coisa que as pessoas têm que estar muito consciente, porque é uma coisa que vai demandar. Mesmo que sejam pessoas mais interessadas em fazer esporte de inverno e tal… as pessoas veem talvez aquelas imagens de esqui nos Alpes… mas a situação é bem diferente. Porque a temperatura aqui é muito mais baixa e o inverno é muito mais longo. Têm vezes que começa em outubro. Eu me lembro, há alguns nos atrás, a primeira neve foi no dia de Halloween, dia 31 de outubro, e acho que foi até meados de abril. Tudo era branco, você não via nada. Foi neve direto, direto! E tem que estar preparado. Tem toda a parte psicológica do que você vai encontrar. O cansaço de bota a bota, bota casaco, bota luva, bota touca… Tira casaco, tira touca, tira luva, tira bota… e as coisas são pesadas. Quer dizer, uma vez tá ok, mas seis meses, é cansativo.

Christian: Até que ponto o inglês, realmente, é importante para conseguir se desenvolver aqui?

Patricia: Você tem que ter o inglês. Se você não tem, como eu quando cheguei aos Estados Unidos… eu não tinha, mas eu fiz um esforço monumental. Eu tive algumas aulas, mas tudo é muito caro e nós estávamos vivendo com budget de estudante e eu ia todo o dia para a biblioteca da universidade para estudar. Fiz o Toefl e acabei fazendo mestrado lá. E aqui é a mesma coisa. Se você não tem, você tem que estar disposto a aprender. Se você tem dinheiro para pagar um curso de inglês, ótimo, senão, realmente, você vai ficar muito limitado: trabalhar na construção, trabalhar em limpeza… o custo de vida aqui em Ottawa, também, é bem mais barato que em Toronto. Isso é outra coisa que eu acho positiva.

Christian: O custo de vida em Kanata é o mesmo do que em Ottawa ou, por ser um subúrbio, é mais barato?

Patricia: Eu acho que Kanata é um pouco mais barato. Quando eu vejo, por exemplo, gasolina, essas coisas, em Kanata, em geral, é mais barato. Mas o resto, eu acho que é mais ou menos a mesma coisa. Obviamente, se você quer comprar um imóvel dentro da cidade de Ottawa vai ser um pouco mais caro do que no subúrbio. Supermercado e essas coisas, é mais ou menos tudo igual, porque são todas cadeias.

Christian: Já tendo morado em lugares diferentes, se fosse começar tudo de novo, você escolheria Ottawa primeiro ou outro lugar?

Patricia: Eu gosto de Ottawa! Eu acho que eu ficaria em Ottawa. E gosto daqui, desse lugar, aqui mesmo, de Kanata. Tem outro lugar aqui, um outro subúrbio, que é bem pertinho (você, praticamente, nem percebe que está em um outro subúrbio) e que é mais simpático do que Kanata. Se chama Stittsville e tem essa parte da cidade mesmo, então você tem um centrinho de Stittsville.

Christian: Em relação à segurança, como é para uma mulher morar sozinha em Kanata ou no Canadá, no geral?

Patricia: A coisa crítica que me fez vir, para o Canadá, foi a violência. Porque, quando nós voltamos dos Estados Unidos, houve uma série de eventos nos dois anos seguintes ao que nós chegamos. E quando a coisa pega no inverno, eu me lembro: “Não, mas… eu tenho uma liberdade aqui, que eu jamais teria no Brasil!”. Eu me lembro que na primeira vez que eu voltei do meu trabalho em Toronto, a pé, para a minha casa, eram nove horas da noite no inverno e então, não tinha ninguém na rua! E o meu coração: bum, bum, bum, bum. Mas eu senti um prazer, que não dá pra descrever! Outra coisa, também engraçada, foi que (essa coisa da violência fica muito tempo com você)… eu me lembro que eu queria comprar uma casa, porque eu queria um pedacinho de terra para poder plantar um jardim, mas eu estava apavorada. Falei assim: “Vou ter que comprar em um condomínio” (por causa de eu me sentir mais protegida). E eu me lembro que o meu chefe, na época, conversando comigo, ele falava assim: “Não, Patricia, não tem problema. Eu moro! Na minha rua por exemplo, tem essa senhora que tem não sei quanto anos e todo mundo sabe que ela mora sozinha e não tem o menor problema!”. Eu optei por morar em um condomínio. As pessoas mais ou menos se conhecem, então, se acontece uma coisa diferente, é muito mais notável. Eu acho que fica uma coisa mais difícil para… eu acho que aqui não tem tanto essa violência gratuita, que tem no Rio, entendeu. Eu acho que eu jamais poderia fazer isso. É, isso é uma coisa pra mim que não tem preço!

Christian: Se a Patricia de hoje se encontrasse com a Patricia que estava chegando ao Canadá, que conselho você daria para ela?

Patricia: Eu deveria ter ido participar ou entrar para uma igreja, por exemplo. Muita coisa do social acontece nas igrejas. É uma maneira de você ampliar. Porque se você vem pra cá, por exemplo, com filho pequeno, você vai ter outra oportunidade, você vai encontrar com outros pais. Os pais aqui participam bastante da vida das escolas. Então, eles se encontram, regularmente. Eu conheço também vários canadenses que fizeram grandes amizades e que se conheceram indo buscar filhos. Ou indo às reuniões que os pais fazem para participar dos eventos das escolas. Então, é como as relações aqui acontecem, né? Voluntaria! Vai fazer um trabalho voluntário de uma coisa que você gosta. Você vai conhecer um monte de gente e você já tem uma coisa em comum, que facilita. Porque, desenvolver relacionamento depois de adulto é um pouco mais complicado, principalmente em uma cultura diferente.

Christian: Em nome da equipe da Wave, agradeço à Patricia Barcellos pela participação no nosso podcast. E vale o esclarecimento de que são opiniões, experiências relatadas pelos nossos convidados, o que não significa que será a mesma coisa para outra pessoa. O importante, destes episódios, é que as pessoas conheçam um pouco de como é morar e viver nesses lugares. Se você chegou até aqui, agradeço a audiência e até um próximo episódio.

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