Entrevista com Rita Izumi: Sudbury, Ontário

Transcrição do postcast da Wave "Ontário não é só Toronto". Neste episódio, conversamos com Rita Izumi. Essa profissional da área de finanças nos fala de suas importantes experiências. Além de Toronto, onde nasceu o segundo filho, as cidades de Mississauga, Timmins e Sudbury também fazem parte de uma vida movida pela determinação e pelos desafios.

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Entrevista com Rita Izumi:
Sudbury, Ontário

Christian: Olá, eu sou Christian Pedersen. Seja bem-vindo a mais um episódio do Ontário não é só Toronto. Neste episódio, perguntamos: Por que a Rita foi morar em Sudbury? Sudbury ou Greater Sudbury é a cidade mais populosa do norte da província de Ontário. Por área, é o maior município de Ontário e o quinto maior do Canadá. Sudbury fica a mais ou menos, 387 km ao norte de Toronto e sua população é de mais ou menos, 161 mil habitantes. A cidade já foi um grande centro de madeira serrada e, também, líder mundial em mineração de níquel. As duas maiores companhias de mineração que formaram a história de Sudbury são a Inco, que agora é Vale e a Falconbridge, que foi, no passado, a Glencore. É desde Sudbury que conversamos com Rita Izumi. Ela mora há mais de 26 anos no Canadá e já passou por Toronto, Mississauga, Timins e, no fim, Sudbury.

Christian: Olá Rita, obrigado por participar do nosso podcast.

Rita: É um prazer participar.

Christian: Primeiro, conte para a gente por que a Rita foi morar no Canadá?

Rita: Por quê? Boa pergunta! Eu vim para o Canadá, primeiramente, em 1990 e passei um ano aqui. Depois dessa experiência, nós gostamos muito, eu e meu marido, e resolvemos voltar depois, pra cá. Gostei, tive uma impressão muito boa, conheci muita gente boa. Eu sou de São Paulo e comparando São Paulo com Toronto, eu achei Toronto pequena e fiquei encantada com os parques, não é? Gostei muito daqui, tive uma boa impressão. Para quem se recorda, 1990-91 foi um período, também, muito difícil no Brasil e então, resolvemos dar um tempo. Viemos para cá e estamos aqui há 26 anos.

Christian: Pois é, um tempo impressionante! Porque eu estou aqui há quase 19 anos e já sou meio velha guarda quase, comparando. E você então, está mais ainda. Pioneira!

Rita: Mais ainda! Em 1990, quase não se ouvia falar de brasileiros aqui no Canadá. Em 1994, quando eu me mudei para cá como residente, também quase não se ouvia falar de brasileiros aqui. Mas agora…

Christian: Toronto cresceu muito, desde então.

Rita: Cresceu muito. Realmente, na época que eu vim pra cá, lá no Brasil o pessoal perguntava: “você está se mudando para onde?” Eu falei: “para o Canadá”. “E onde é isto?”. “Estão vendo os Estados Unidos? Fica em cima”. O Canadá era muito pouco conhecido, há anos atrás. Mas, com essa tecnologia toda, a internet abriu as portas. O Canadá se pôs à frente no que diz respeito a refugiados. Ele se pôs como país aberto à imigração e chamou a atenção de muita gente. O fato também de empresas brasileiras fazerem negócios aqui no Canadá, também aumentou essa promoção, essa propaganda do Canadá lá no Brasil.

Christian: Como foi, naquela época, chegar a outro país que, praticamente, não tinha brasileiros?

Rita: Quando você muda de um país para outro, você tem que estar com a cabeça aberta, que você vai encontrar outras pessoas de outras culturas. Era isso que nós tínhamos na época. Era interessante falar no TTC, assim, e saber que ninguém do lado entendia. Mas agora, lá em Toronto, no TTC, você tem que tomar cuidado com o que fala, porque, com certeza, vai ter brasileiros por perto, escutando.

Christian: O TTC que a Rita falou a respeito é o Toronto Transit Comission, cuja abreviação oficial é TTC, que é o órgão público encarregado de administrar o sistema de transporte público da cidade de Toronto.

Christian: E vocês estão em Sudbury há quanto tempo?

Rita: Eu me mudei pra cá em 2003, então já faz um tempinho. Antes, eu morei em Toronto, eu morei em Mississauga, em Timmins, que é mais para o norte ainda, e agora, em Sudbury.

Christian: Já que a Rita foi morar em Sudbury, como é morar por aí?

Rita: Eu gosto muito daqui. É uma cidade muito amigável. Quando eu me mudei, minha vizinha do outro lado atravessou a rua para se apresentar para mim. Eu fiquei encantada! É uma cidade em que o frio é maior. Neva bem mais! A história de Sudbury diz que é uma cidade muito feia, porque é uma cidade de mineração e todas as árvores daqui foram usadas ou para a mineração ou para reconstruir Chicago, quando Chicago pegou fogo, há muitos anos atrás. Mas, desde então, teve um programa em 1970, que… teve um esforço muito grande para recuperar o meio ambiente e hoje é exemplo para o mundo de que dá para se recuperar o que foi destruído. Sudbury é um hub aqui no norte. Têm cidades menores e Sudbury seria a cidade maior que tem. Tem universidade, colleges, hospital bom… e muita natureza. Para quem gosta da natureza é muito bom. E a gente vive aqui muito bem, já há uns 18 anos mais ou menos.

Christian: Quando você chegou a Toronto, você achava a cidade pequena em comparação a São Paulo. Como é agora Sudbury, em relação a Toronto?

Rita: Canadá é um país muito maior do que o Brasil, em termos de área, mas, pequeno em termos de população. Então, saindo de cidades até relativamente pequenas do interior do Brasil, vindo para cá, você vai achar que é menor. Mas, a infraestrutura é muito boa. E te garanto que é muito mais fácil se acostumar em uma cidade pequena, do que em uma cidade grande. Às vezes, tem um pessoal que vem pra cá, que fala: “ai…cidade do interior? Nossa que horror! “ Mas, acostumam super rápido porque a qualidade de vida, realmente, é muito boa. Eu estou a dez minutinhos do meu trabalho para casa. Eu não fico presa no tráfego. Mesmo aqueles meus amigos que dirigem um pouco mais, porque resolveram morar um pouco mais afastados daqui do centro da cidade…a estrada é vazia, só pra você. Não tem congestionamento, nada disso. Quando a gente quer ir para Toronto, para um teatro, para um show, alguma coisa, também não é assim…são 4 a 5 horas, vai lá, passa o fim de semana, visita amigos, aproveita o que há de melhor na cidade grande e volta pra casa. O frio aqui…acostuma. E é aliás, até gostoso. É um frio seco, tem bastante neve. Mas nós adoramos porque dá para brincar. Toronto é cinza, não tem neve, né? Não dá pra fazer muita coisa. Aqui não, aqui a gente pode esquiar todo dia, patinar todo dia, aproveita o inverno. O verão é menos úmido, então é muito mais agradável. Quanto mais você vai para fora e faz esqui, snowhoeing e patins e snowmobile…tem brinquedo para todo dia! Quanto mais você faz isso, mais você gosta. E meus filhos, que foram criados aqui mais para o norte…pergunta: “qual a estação do ano você mais gosta?” Eles vão te responder que é o inverno.

Christian: E falando em filhos, vocês chegaram quando a sua filha tinha apenas um ano de idade. Como foi chegar a outro país com uma filha pequena? Foi mais desafiante ainda?

Rita: Primeiro, que eu já sabia, eu já tinha conhecido o Canadá. Eu já tinha passado aqui um ano. Mas, o fato de eu trazer minha filha pra cá, no fim foi até melhor. Porque a gente tem que sair da nossa bolha, né? A gente tem que, logo, descobrir como é que o médico funciona, como a escola funciona, conhece outros pais. Nossa, eu achei que ficou até melhor! E criança força a gente a expandir a nossa zona de conforto, né? Criança força.

Christian: Vocês falavam inglês, quando chegaram aqui?

Rita: Falávamos. Mas, como todo mundo que chega aqui, o inglês que a gente aprende às vezes não é suficiente pelo fato que, se você teve um professor que falava o inglês britânico, por exemplo. Ou que falava o inglês lá dos Estados Unidos, do Texas, então a pronuncia às vezes… então: “pera um pouquinho só, fala um pouquinho mais devagar”… até a gente entender. Então, leva um pouquinho de tempo para aprender, para o ouvido acostumar. Como em qualquer outro lugar, eles usam muitas gírias, cortam muito as palavras, mas aí, a gente vai aprendendo.

Christian: Mas, no fim, como ela praticamente cresceu aqui. Então, ela fala português?

Rita: Nós falamos português em casa. Meus filhos falam português: falam, leem e escrevem. E não foi difícil. Aliás, meu filho uma vez perguntou como é que eu ensinei para eles. Eles falam francês também. Eu falei: “só falando!”. Nós nunca deixamos de falar português e mesmo porque, não há motivo para isso. Porque nós sempre falamos com os nossos pais e toda a oportunidade que a gente tem, a gente vai para o Brasil. E é importante ir e interagir com os familiares. Então, eles se dão bem aqui, como também se dão bem lá no Brasil. Não tem diferença nenhuma. E eu encorajo todo mundo a falar com seus filhos em português. Dar essa oportunidade para as crianças de aprenderem outro idioma. Facilita no francês. Aliás, tem um aspecto interessante. Quando eu estava em Mississauga, no parque de diversão, meus filhos estavam brincando com as filhas da minha amiga também brasileira, e com outros indianos e…Mississauga é também muito multicultural, né? E lá no parque, acho que não devia ter mesmo nenhum “canadense de verdade”. E eles brincando ali, eles brigaram. E cada grupo foi para um canto do parque brincar e começaram a falar no próprio idioma, para manter os outros fora, né? E minha filha, com as amigas dela também falando português, também fizeram a mesma coisa: foram lá pro outro canto e começaram a falar português. Foi interessante. Quer dizer, eles sentem orgulho de poder falar outros idiomas.

Christian: Isso é muito bom. E quando você veio para morar, você escolheu Toronto por uma razão especifica ou só porque era o que você conhecia?

Rita: Foi o que nós conhecíamos e foi o que trouxe a gente aqui pela primeira vez: o meu trabalho e a escola e os amigos que nós conhecemos da primeira viagem que nós fizemos. Mas, nós já viemos abertos para a possibilidade de morar em outras áreas, porque o meu marido é geólogo. E geologia costuma ser em outros lugares, né? Então, nós já estávamos abertos a essa possibilidade.

Christian: Passaram quanto tempo em Toronto?

Rita: Uns cinco anos, mais ou menos.

Christian: E aí, depois, foram para Mississauga ou foi meio mesmo período, assim?

Rita: Mississauga foi só uma questão… porque nós compramos uma casa em Mississauga. Ainda trabalhávamos em Toronto, mas morávamos em Mississauga.

Christian: Aí, de lá vocês foram para Timmins?

Rita: Timmins, yeah.

Christian: E como foi a experiência de vocês por lá? Acredito que vocês foram por causa da geologia, certo?

Rita: Foi por causa da geologia. Na época, eu só sabia de Timmins pelo fato que Shania Twain era de lá de Timmins! Timmins é longe, muito mais longe do que Sudbury. Mais frio. Foi muito bom profissionalmente pra meu marido, pra mim… foi muito bom! E o tempo que nós passamos em Timmins foi muito bom. Conhecemos muita gente muito interessante, bacana. Mas o fato é que a pessoa vir para o Canadá é o mais difícil. Uma vez aqui, mudar pra cá, mudar pra lá, deve ser mais fácil. Mas, a gente tem que seguir as oportunidades, né? As oportunidades de trabalho.

Christian: Para conseguir emprego foi fácil, aqui em Toronto? Como é que foi lá em Timmins e depois, em Sudbury?

Rita: Olha, eu não tive problema para vir para o Canadá e não tive problema para arrumar emprego. A minha área é…no Brasil eu trabalhei em banco e aqui no Canadá eu entrei na área de finanças. E, graças a Deus, a gente sempre teve trabalho. O meu marido sim…ele trabalhou em Toronto, mas depois, era muito melhor pra ele o trabalho na mineração, mudar de cidade. Se ele ficasse em Toronto, ele não ia ter trabalho, ia ter frustração por causa do trabalho. Então, a gente tem que seguir onde o trabalho se apresenta. A minha área, como é finanças… finanças é muito mais fácil: em todo lugar tem, em todo lugar precisa. Então, eu resolvi segui-lo e foi uma coisa boa. E eu tenho amigos que vieram do Brasil direto para Sudbury e os trabalhos os forçaram para irem para o sul de Ontário. Eu tenho amigas que moram na região de Niagara Falls, região de Burlington por causa do trabalho. Mas, as áreas deles eram petroquímicas, químicas. Na minha época, o mais difícil era, realmente, saber como as coisas funcionavam. Porque, na minha época, não se tinha o acesso que temos hoje à informação e com criança pequena, que nós tínhamos, então era assim: ou fica em casa ou sai para procurar as coisas. Neste aspecto a gente tinha um pouco mais de dificuldade. Hoje não, hoje você está em casa cuidando do seu filho, mas está procurando emprego na internet, procurando informação. Dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Mas, na época, não! Pra você ir para o Unemployment Insurence, que é o seguro-desemprego, você tinha que ir lá, pessoalmente. Realmente, bater de porta em porta. Mas hoje não, hoje está tudo na internet e tem um monte de gente disposta a ajudar, a dar a informação. Então, você tem que saber onde é a sua área e procurar no Canadá, onde estão as indústrias da área em que você trabalha. E vai embora! Essa nova geração de brasileiros, os que estão vindo, nossas eles dão um show de bola aqui! Porque eles já vêm com tudo nas mãos já, com tudo planejado, com tudo engatilhado. Não no meu tempo, no meu tempo não. A gente realmente… até a gente melhorar o inglês e entender como as coisas funcionavam…muitos dos meus amigos tiveram que trabalhar no Burguer King, no McDonald´s. Mas agora, não. O pessoal já está chegando já com posições, com trabalho e isso é muito bom!

Christian: Para você quais são as diferenças entre Timmins e Sudbury?

Rita: O que vai determinar, realmente, é a sua oportunidade de emprego, né? Se você tem emprego em Timmins, pega o emprego, vai lá! Não tem que ficar lá a vida inteira! Mas, é uma cidade do norte, é Timmins, é menor que Sudbury, mais para o norte, mais frio, mais difícil de ir para Toronto, porque é um pouco mais longe. Eu, de Sudbury, vou pra Toronto em 4 horas. Timmins você já tem que planejar 8 horas, né? Mas, são cidades boas também e tem acesso a tudo. A infraestrutura do Canadá é muito boa. Se você está em Timmins tem hospital, tem escolas. Se você precisa de um tratamento maior ou alguma coisa, tem o helicóptero que te leva para onde precisa. O bom do interior é que existe uma necessidade grande de mão de obra, então você é muito bem recebido. Nestes anos que eu estou aqui em Sudbury, eu tenho visto um aumento de imigrantes, de indianos. E Sudbury foi para a Índia promover a cidade. Então, quer dizer, é bem recebido. Eu tenho aqui onde eu trabalho… eu era a única estrangeira, por muitos anos. Agora, já tem um rapaz da Colômbia, alguns indianos, uma pessoa do Nepal e todos eles não são nem imigrantes ainda. São estudantes, não é? E estão trabalhando… trabalhando bastante, estão contentes.

Christian: E como é o custo de vida aí em Sudbury? Ou até comparando com Timmins e Toronto, é muito mais barato? Como é que é?

Rita: Toronto tá uma loucura, né? Tá uma loucura! A moradia, o aluguel… e até, da última vez que eu estive em Toronto, para pegar um sanduíche lá no café da manhã, achei o preço que eles cobraram…assim…falei: “nossa! Um pouco caro demais pelo eu queria”. Mas, realmente, Toronto aumentou demais e está muito caro a vida lá. Então, se você quer morar com qualidade de vida, não importam a moradia ou educação…no interior você tem a chance de ter uma qualidade de vida muito melhor.

Christian: E ainda falando em qualidade de vida, como é a vida social de vocês? Tem muita coisa pra fazer por aí?

Rita: Tem coisa pra fazer! Tem teatro, tem cinema, tem…o pessoal gosta muito dos parques, atividades na natureza…muito mais do que em Toronto. Você tem praias e na minha cidade aqui, tem lagos em todos os lados. Você pode até ter uma casa na beira do lago e ter um pedaço do lago particular pra você! Tem lagos, as águas são limpas, acesso a camping, pescar, caçar, andar de moto, mountain bike. Para criança, para pessoa jovem, crescer aqui é muito bom! E mesmo, meus filhos e amigos que foram para universidade fora da cidade, no verão ainda queriam voltar correndo. Porque aqui tem muito mais coisas para fazer. E u tenho amigas aqui que: “Ah, eu estava morando em Kingston, em Burlington e agora estou em Sudbury…”. Eles falam isso uma vez ou duas e na próxima: “ah, eu adoro aqui!”. Depois de ficar falam: “Ai eu tenho que ir para Toronto, que horror!”.

Christian: Então, hoje Toronto ficou muito grande pra você?

Rita: Ah, agora fica. É muito fácil se acostumar com o que é bom, é muito fácil!

Christian: Existe alguma coisa de Sudbury que você não gosta?

Rita: Eu não gosto que não tem coxinha de galinha! Aliás, no fim de semana agora, nós vamos ter… a primeira vez que vai vir um caminhão de uma loja lá de Toronto pra cá, trazendo tudo o que a gente gosta. Não tenho o que reclamar, não!

Christian: Foi fácil encontrar lugar para morar?

Rita: Hoje mesmo, escutei no rádio que, realmente, se a gente quer atrair mais imigrante pra cá, nós temos que melhorar a moradia. Investir, porque, realmente, o pessoal está vindo para cá e…moradia…onde que vão morar, né? Ah, mas eles estão sempre construindo. O que não falta é terreno para construir.

Christian: Por causa da Vale do Rio Doce, que está aí também e porque tem muita mineração, tem muito brasileiro aí?

Rita: Aumentou bastante por causa da Vale. Têm muitos que vêm só para passar um ano ou dois e vão embora. A maioria quer ficar. O fato da Vale ter vindo aqui para a cidade, realmente, atraiu bastante brasileiros.

Christian: Quais as suas recomendações para quem quiser morar ou procurar viver em Sudbury?

Rita: Não tem muito que recomendar. É o mesmo, para qualquer imigrante: fica com a cabeça aberta, o coração aberto e procura mesmo, na internet, onde está a indústria que você pode colaborar. É o trabalho que vai definir. Se você está com um trabalho que você gosta, seu marido também, o resto vem. Um dia é sempre melhor que o outro. Mas fica aberto, como Canadá também não é só Ontário. Eu tive a experiência aqui no meu trabalho, de companhias em Alberta roubando os meus funcionários aqui. Quer dizer, fica aberto, vai mesmo para outros lugares. Às vezes é uma questão de poucos anos, depois vai mudando. Mas, cada vez que muda, é uma mudança pra melhor, é uma mudança positiva. É uma coisa boa, mas, também, às vezes, é uma coisa que prejudica: eu me deparei com alguns brasileiros que estão aqui, mas não se desligaram do Brasil, porque continuam assistindo ao Jornal Nacional, continuam assistindo as novelas, continuam…sabe? Eles acompanham o futebol no Brasil, acompanham a política no Brasil e aí não sobra tempo de ver o que está acontecendo aqui no Canadá. Então, esse é um perigo que a pessoa corre, também. Pois tem que, realmente, se dedicar um tempo para aprender as coisas daqui.

Christian: Existe alguma profissão mais específica que o brasileiro acaba pegando aí ou é geral, não tem uma coisa específica?

Rita: Olha, os brasileiros que eu conheci me deixam muito orgulhosa, porque todos eles são muito trabalhadores. Eles têm uma ética muito boa. A gente pega duro, mesmo, no trabalho! Não tem problema. Mas, aqui é uma área mais…como é uma região mineradora… engenheiro civil, engenheiro de mineração, geólogos, geofísicos…essa área de mineração pega bastante. Cidade do interior tem esse problema, que às vezes não tem muitas oportunidades. Aí eles têm que procurar fora. Aí quando abre uma oportunidade não tem ninguém na cidade e vai procurar fora, né.

Christian: E houve uma chamada para imigrantes? Você comentou sobre a Índia. Será que eles fazem propaganda em outros lugares sobre Sudbury, tentando atrair outros imigrantes?

Rita: Eles fizeram. Por exemplo, aqui na cidade, tem um hospital muito bom, tem um hospital para tratamento de câncer. E você vai encontrar lá, um grande número de médicos estrangeiros. Porque, quando fizeram o hospital, eles falaram: “não vou roubar lá de Toronto porque não dá certo”. Então eles contrataram fora. Então, tem muitos médicos indianos, tem médicos brasileiros, tem de tudo. O college aqui também tem feito um recrutamento fora do Canadá, para atrair estudantes com a intenção de ficarem aqui na cidade.

Christian: Como é o aspecto da violência para vocês?

Rita: Timmins foi muito tranquilo e eu achava Toronto, comparada com São Paulo, tranquila. Timmis foi super tranquilo e aqui também é super tranquilo. A violência que está existindo e tem aumentado desde que eu vim para o Canadá, na primeira vez. Quando eu vim para o Canadá há anos atrás, a gente não via ninguém na rua e hoje está cheio. Mas esse é um problema mundial que é o problema das drogas, né? Muitas drogas, infelizmente, isso está em todas as cidades.

Christian: O que a Rita de hoje diria como conselho para Rita de 1994, que estava chegando ao Canadá?

Rita: Põe a cara lá na rua…agora nem precisa da rua! Põe o nariz no computador, na internet, procura oportunidades, porque existem bastante! Vai procurar as oportunidades, não fica presa nesse lugar ou naquele lugar, não. Vai mesmo. Nada é permanente… nada é permanente! Então, um conselho é, realmente, não esperar nada da noite para o dia. Desgraça vem da noite para o dia, né? Mas, uma coisa boa é de pouquinho que vai acontecer. Então, minha experiência sempre foi: “um dia é sempre melhor que o outro!” O que eu consegui não veio de repente, da noite para o dia, mas sempre um dia depois do outro.

Christian: os nossos agradecimentos à Rita e agora sabemos por que ela foi morar em Sudbury. E vale o esclarecimento de que são opiniões, experiências relatadas pelos nossos convidados. O que não significa que será a mesma coisa para outra pessoa. O importante desses episódios é que as pessoas conheçam um pouco de como é morar e viver nesses lugares. Para você que chegou até aqui, agradeço a audiência e até um próximo episódio.