
Dos primeiros desenhos na infância ao comando do próprio ateliê, Maria Junqueira construiu uma trajetória marcada pela criatividade e pelo olhar atento para diferentes referências culturais. Aos 25 anos, a estilista carioca está à frente da Pour Toi, marca especializada em peças sob medida. Ao longo dos anos, diversas experiências contribuíram para ampliar a sua visão sobre moda, incluindo uma passagem por Toronto, onde teve contato com novas influências de estilo e comportamento.
Formada em Design, com habilitação em Moda pela PUC-Rio, Maria decidiu criar uma marca própria após a conclusão do curso. A ideia surgiu da vontade de compartilhar a sua visão estética e de se aproximar de pessoas que valorizavam a moda como expressão de identidade, individualidade e emoção.
Foi dessa inquietação que nasceu o ateliê Pour Toi, dedicado à criação de peças sob medida e ao desenvolvimento de projetos exclusivos para mulheres que buscam mais do que uma roupa. A proposta é oferecer uma experiência personalizada, na qual cada criação traduz a essência, a personalidade e a história de quem a veste. “O sob medida vai muito além da confecção de uma peça. Existe um processo de escuta, interpretação e construção que faz com que cada vestido tenha significado”, explica a estilista.
Desde criança, Maria desenvolveu o hábito de desenhar. Inspirada inicialmente pelo universo das princesas da Disney, ela passava horas imaginando figurinos e criando novas versões para as personagens que faziam parte do seu imaginário. Mais tarde, a própria cidade onde cresceu passou a influenciar a sua produção criativa.
O Rio de Janeiro aparece em suas referências por meio das cores, da leveza e da forte relação com a moda praia. Durante a universidade, um dos projetos que mais a marcaram foi a criação de uma coleção de biquínis que combinava elementos da cultura carioca com acabamentos holográficos inspirados nos beach clubs internacionais.
Além das influências brasileiras, experiências internacionais também contribuíram para ampliar seu olhar criativo. Durante uma breve passagem pelo Canadá, Maria observou de perto o estilo urbano presente nas ruas da cidade. A predominância do streetwear e a forte presença da arte urbana em locais como o Graffiti Alley chamaram a sua atenção. “Foi interessante perceber como a cidade influencia a forma de vestir. Mesmo sem perceber, acabei escolhendo roupas que dialogavam com aquela estética durante a viagem”, relembra.
Embora reconheça as diferenças culturais entre Brasil e Canadá, a estilista acredita que a moda funciona como uma linguagem universal capaz de conectar pessoas, estilos e histórias.
Hoje, à frente da Pour Toi, Maria divide o seu tempo entre a criação, o atendimento personalizado e a gestão do negócio. Segundo ela, o maior desafio da jornada empreendedora foi justamente estruturar a empresa e aprender a equilibrar o lado criativo com as responsabilidades administrativas.
Apesar das dificuldades, ela considera que o trabalho artesanal e a atenção aos detalhes são os principais diferenciais do ateliê. Cada projeto passa por diversas etapas de desenvolvimento, incluindo pesquisa de referências, elaboração de croquis, escolha de materiais, provas de modelagem e ajustes personalizados. “Cada cliente chega com uma história diferente. Meu papel é transformar essa história em algo que possa ser vestido”, afirma.
Para a estilista, a moda continua sendo uma forma de expressão pessoal. Em um mercado cada vez mais acelerado e voltado para a produção em larga escala, ela defende um trabalho baseado na exclusividade, na atenção aos detalhes e na valorização dos desejos de cada cliente.

Entrevista com Maria Junqueira
WAVE – Como nasceu o ateliê Pour Toi e em que momento você percebeu que gostaria de transformar a sua paixão pela moda em negócio?
MARIA JUNQUEIRA – A Pour Toi nasceu de uma forma muito inesperada. Passei todos os anos da universidade sem o desejo de ter meu próprio negócio. Mas, logo depois de formada, comecei a enxergar tudo por uma outra perspectiva. Surgiu em mim a vontade de expor o meu trabalho e me aproximar de outras pessoas do meio que também seguiam a mesma linha e compartilhavam valores parecidos com os meus.
WAVE – Desenhar e criar sempre fizeram parte da sua vida? Quais referências da sua infância e da sua vivência no Rio de Janeiro ainda aparecem nas suas coleções?
MARIA JUNQUEIRA – Sim, o desenho e a arte de criar fazem 100% parte de quem eu sou, na verdade. Desde criança, eu estava sempre rabiscando alguma coisa, inclusive nos meus cadernos da escola. Mas nem tudo o que eu desenhava era necessariamente relacionado à moda, eu desenhava de tudo um pouco.
Falando sobre referências, durante a minha infância, acho que como a maioria das meninas, minhas maiores inspirações eram as princesas da Disney. Eu adorava imaginar novos figurinos para cada uma delas e já conseguia visualizá-los confeccionados. Nada melhor do que a imaginação de uma criança, não é? Além dessa referência das personagens da Disney, eu, como uma carioca da gema, jamais poderia dizer que o Rio de Janeiro nunca me serviu de inspiração para algum projeto. Estaria mentindo completamente. Lembro de um projeto longo que desenvolvi durante a faculdade, no qual criei, do zero, uma coleção de biquínis com acabamentos em material holográfico. A proposta era fazer uma fusão entre a moda praia carioca e um toque de glamour inspirado nos beach clubs. Foi, sem dúvida, um dos meus trabalhos favoritos dentro da universidade.
WAVE – Você teve a oportunidade de conhecer a moda canadense. Quais foram as suas impressões sobre o estilo e o mercado da moda no Canadá? Existe algo que tenha te inspirado ou chamado mais a sua atenção por aqui?
MARIA JUNQUEIRA – Ainda que a minha visita ao Canadá tenha sido infelizmente muito breve, tive a oportunidade de conhecer Toronto e passar alguns dias imersa na cultura local. Sempre fui muito observadora, ainda mais quando se trata de roupas e estilo. Percebi uma forte presença streetwear entre a maioria das pessoas que observei. Um fato curioso é que, revendo as fotos dessa viagem, notei que meu estilo pessoal predominante não é exatamente o streetwear, e na verdade nunca foi. Mas, pelo fato de ter passado alguns dias em Toronto e frequentado o Graffiti Alley algumas vezes, percebi que, de forma inconsciente, acabei escolhendo roupas e elementos visuais que dialogavam com esse estilo que observei por lá.
WAVE – Mesmo sem o sonho inicial de ter uma marca própria, hoje você comanda o seu próprio ateliê. Qual foi o maior desafio nesse processo de empreender no universo da moda?
MARIA JUNQUEIRA – Com certeza, para mim, o maior desafio como empreendedora foi a estruturação do negócio. O início foi um pouco mais turbulento, porque eu realmente não sabia por onde começar em relação à criação de uma empresa do zero. Pedi inúmeros conselhos para amigas e colegas que já estavam há mais tempo no mercado, buscando entender como poderia dar os meus primeiros passos de forma mais estruturada. Empreender é um trabalho contínuo, você nunca para. Costumo dizer que é quase como um filho. O comprometimento, a responsabilidade e o amor pelo seu negócio precisam ser constantes. É um processo de construção diária, que exige dedicação, resiliência e muita paixão pelo que se faz.
WAVE – A moda muitas vezes também é uma forma de expressão pessoal. O que você acredita que uma mulher busca quando escolhe uma peça criada pelo seu ateliê?
MARIA JUNQUEIRA – A proposta do ateliê Pour Toi nunca foi apenas confeccionar vestidos sob medida. O sob medida é um processo profundo, cuidadoso e altamente personalizado. Acredito que quem nos procura para a confecção de um vestido, muitas vezes, busca resgatar ou valorizar ainda mais suas próprias características, sua individualidade e a forma como deseja se apresentar ao mundo. Nosso trabalho é traduzir essa essência em uma peça criada exclusivamente para cada mulher. Cada cliente carrega uma história única, e tenho o privilégio de trabalhar ouvindo essas histórias e transformando desejos, referências e sentimentos em algo concreto. Criar, do zero, uma peça que represente exatamente aquilo que cada mulher deseja comunicar é, sem dúvida, uma das partes mais especiais do meu trabalho. Costumo dizer que o ateliê funciona como uma espécie de ponte, onde a peça final comunica tudo aquilo que cada cliente deseja expressar, sem precisar dizer uma única palavra.
WAVE – Como é o seu processo criativo, desde a inspiração até a peça finalizada?
MARIA JUNQUEIRA – Definitivamente, essa é uma das partes mais prazerosas do meu trabalho. Mas vale ressaltar que cada profissional possui sua própria forma de criar e conduzir seu processo criativo. Antes de iniciar um croqui, gosto de buscar referências. Formatos, texturas, caimentos, cores, estilos… vale tudo. Também peço para que as clientes tragam referências pessoais, justamente para alinharmos ideias, expectativas e compreendermos melhor aquilo que desejam comunicar através da peça. Após essa primeira etapa de pesquisa, começo a esboçar as ideias iniciais e dar forma à primeira versão do projeto.
Com a aprovação do croqui pela cliente, iniciamos a conversa sobre materiais, tecidos e aviamentos. Com o desenho definido e os materiais escolhidos, seguimos para a construção da base do vestido em algodão cru. É nessa etapa que realizamos os testes iniciais e também a primeira prova da peça. Optamos pelo algodão cru para evitar qualquer risco de corte no tecido oficial antes das decisões importantes de modelagem e estrutura estarem definidas. Após a primeira prova, partimos para o tecido escolhido e montamos a estrutura do vestido, ainda sem muitos detalhes ou acabamentos, criando a base para a segunda prova. Já na terceira prova, a cliente retorna ao ateliê com a peça em um estágio mais avançado de confecção. Nesse momento, o vestido já está mais estruturado, os acabamentos começam a tomar forma, os detalhes ganham vida e já é possível visualizar com mais clareza o resultado final. Na quarta prova, a peça normalmente já está praticamente finalizada, restando apenas ajustes pontuais. Caso a cliente deseje, realizamos ainda uma quinta e última visita ao ateliê para os retoques finais e a entrega de uma criação verdadeiramente exclusiva.
WAVE – O mercado da moda é extremamente competitivo. O que você acredita que diferencia a Pour Toi de outras marcas?
MARIA JUNQUEIRA – A alta competitividade no universo da moda muitas vezes pode desencorajar e até desanimar. Mas, ao longo dos anos e com o amadurecimento, aprendi a enxergar tudo por outra perspectiva. Acredito que sempre existe espaço para novas pessoas e diferentes visões. A moda é um universo vasto, plural e em constante transformação. Existe muita troca, inspiração e possibilidades dentro desse mercado. Dito isso, o ateliê Pour Toi tem como missão valorizar o trabalho artesanal, o cuidado em cada detalhe e, acima de tudo, respeitar a individualidade de cada cliente que passa por nós, sem apagar sua trajetória ou essência. Nosso objetivo nunca foi produzir em grande escala, mas oferecer um processo verdadeiramente cuidadoso e personalizado, traduzindo a essência de cada mulher e dando a atenção que ela merece para que possa se expressar de forma autêntica, sem medo da opinião de terceiros.
WAVE – Quais são os seus próximos sonhos para o ateliê? Levar as suas criações para outros países, como o Canadá, faz parte dos seus planos?MARIA JUNQUEIRA – Como havia mencionado anteriormente, vejo o meu negócio como um filho. E, justamente por isso, tenho grandes planos para ele. Penso em abrir um espaço físico no Rio de Janeiro, onde eu possa expor criações passadas que carregam não apenas valor estético, mas também um enorme valor sentimental. Quando visualizo o futuro do ateliê, imagino uma casa no Jardim Botânico ou na Gávea, um espaço acolhedor onde eu possa receber mulheres com histórias completamente diferentes, mas que buscam algo em comum: o desejo de expressar sua individualidade e revelar o melhor de si através de um vestido. Meu objetivo final nunca foi reconhecimento. Sempre enxerguei a fama como uma consequência, e não como destino. Claro, é extremamente gratificante ser reconhecida pelo próprio trabalho, mas não construo o meu caminho esperando por isso. Minha maior recompensa sempre foi, e continua sendo, a possibilidade de criar peças únicas para mulheres únicas, traduzindo suas histórias, essências e individualidades em algo que elas possam vestir. |||
Entrevista com Maria Junqueira | com luiza bomeny
Instagram do ateliê Pour Tois, de Maria Junqueira









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