Lúcia Rios Maia da Silva — Psicóloga brasileira pesquisa uso de plantas medicinais para a saúde mental

Lúcia Rios Maia da Silva — Psicóloga brasileira pesquisa uso de plantas medicinais para a saúde mental (Foto: arquivo pessoal)

A psicóloga brasileira Lúcia Rios Maia da Silva encontrou no Canadá um objeto de pesquisa que mudou sua prática clínica. Doutoranda em Psicologia Experimental na Universidade de Ottawa, Lúcia desenvolve uma investigação sobre como o uso de psicodélicos pode contribuir para uma inserção social positiva na vida de imigrantes. Seu trabalho é principalmente sobre o uso de plantas medicinais, como o rapé, e psicodélicos, como a psilocibina.

Lúcia, porém, prefere usar o termo “plantas mestres” em vez de psicodélicos. 

“Psicodélico quer dizer ‘mente revelada’, um termo muito usado dentro do campo de pesquisa da psicologia e que traz essa ideia de que existem conteúdos reprimidos no nosso inconsciente que demandam tempo de escuta e elaboração da sua própria fala e subjetividade dentro de um espaço de acolhimento. Psicodélico, porém, não é o meu termo preferido porque eu me aproximei dessas plantas por uma perspectiva indígena e, em outros campos do saber, elas são chamadas de plantas mestres, de plantas de poder e plantas sagradas.”
Lúcia explica que a forma como a psicologia se institui no campo científico é mais focada no humano. “Isso foge à ideia de pesquisa que eu proponho”, diz ela. Sua pesquisa está mais interessada no encontro e diálogo com outras entidades por meio das plantas. “Para mim, este encontro é uma forma de diálogo e de conseguir se vulnerabilizar para perceber coisas nesse ambiente, nessa troca. É quase uma cartografia de vidas”, descreve.

“Como as pessoas se reconstroem social, profissional e afetivamente enquanto se abrem para esses encontros com a natureza?” Lúcia questiona.

Segundo a pesquisadora, a psiquiatria e a medicina tradicionais se apropriam de plantas indígenas para tratar sintomas, mas a cura vem de um lugar diferente.

“A cura vem da forma como a gente se relaciona com tudo ao redor, não é uma lógica de domínio da planta, de apropriação de uso, mas uma lógica de troca, sem ser hierárquica.”

Mais recentemente, Lúcia lançou sua prática clínica voltada para imigrantes ao redor do mundo. Através do site Lines of Becoming, ela oferece atendimentos para quem vive o desafio de reconstruir identidade, pertencer a novos territórios e, eventualmente, explorar a relação com plantas sagradas.

“Quando você deixa suas raízes e cruza fronteiras, algo em você já se abre ao encontro. Eu acredito que somos seres políticos, que somos atravessados por várias dinâmicas, várias forças de onde a gente vem. Mas acredito também que somos seres em movimento, seres muito potentes e quanto mais a gente se abre ao encontro, quanto mais alegre o nosso corpo, mais potente é o nosso corpo, mais potente é a nossa vida, a nossa subjetividade.”

A pesquisa de Lúcia é sobre o uso de “plantas mestras”; ela prefere usar o termo indígena que salienta sua percepção dessas plantas como instrumento de cura.

A chegada ao Canadá

Quando desembarcou em Winnipeg, em fevereiro de 2019, Lúcia não buscava apenas segurança. Carregava o peso de um país dividido, onde sua atuação profissional — e sua vida como mulher lésbica e militante de esquerda — haviam se tornado, segundo ela, “social e afetivamente insustentáveis”, depois da eleição de Jair Bolsonaro. “A gente decidiu sair pela nossa segurança”, resume.
Winnipeg, cidade marcada por uma história de comércio de peles, isolamento geográfico e forte presença indígena foi a escolha da psicóloga.

“É uma terra muito forte. Uma terra de muito sangue derramado nas lutas dos povos originários”, diz.

Ali, dois anos após a chegada, Lúcia enfrentaria o divórcio e o duro isolamento imposto pela pandemia. O medo de perder a família no Brasil, devastado pelo vírus, atravessou sua saúde mental. Mas foi nesse período que ela começou a se aproximar das cosmologias indígenas de Manitoba, especialmente da relação profundamente espiritual com o território.

“Para a ontologia indígena, a natureza é parte da identidade. As plantas são seres com os quais você dialoga, e não objetos de apropriação”, explica.

Essa aproximação abriria o caminho para o encontro que mudaria sua trajetória acadêmica e clínica.

Antes de emigrar, Lúcia já havia atendido pacientes que faziam uso ritualístico da ayahuasca no Brasil, em contextos variados — de práticas sincréticas a rituais xamânicos. Mas nunca havia tido sua própria experiência.

No Canadá, diante da conexão com as comunidades indígenas locais, ela finalmente se permitiu experimentar “as plantas mestres”: não em laboratórios nem em ambientes clínicos controlados, mas na natureza, com amigos e com respeito às ontologias indígenas.

“Foi uma experiência de diálogo, de vulnerabilidade. Eu prefiro esse encontro naturalista a um set clínico. Mas respeito quem precisa de um ambiente mais controlado. Cada um sabe da própria dor”, afirma.

O corpo imigrante e as plantas mestres

O interesse acadêmico por psicodélicos tem crescido em todo o mundo. No Canadá, pesquisas com ketamina para depressão resistente, psilocibina para ansiedade severa, iboga para dependência química e MDMA para estresse pós-traumático, especialmente em veteranos militares, avançam em instituições de ponta. Mas Lúcia vê limites importantes nessa abordagem biomédica.

“A psiquiatria extrai moléculas e transforma a planta em remédio para tapear sintomas. É uma apropriação de saber ancestral”, critica. “O sofrimento, se tratado só no sintoma, vai encontrar outra forma de aparecer.”

Na Universidade de Ottawa, Lúcia também integra um grupo de estudos e práticas com rapé, medicina indígena baseada no tabaco e usada em rituais de diversas etnias brasileiras e latino-americanas.

O grupo nasceu dentro de um curso de etnobotânica e rapidamente se expandiu como espaço de construção comunitária e interconexão espiritual.

Seu objetivo ali é simples e profundo: criar um ambiente seguro, diverso e não apropriatório para compartilhar saberes e experiências.
Para Lúcia, o debate sobre psicodélicos ultrapassa o laboratório, o consultório e as fronteiras nacionais. Ela defende que a política global de drogas se torne mais flexível e humana — permitindo usos conscientes, comunitários e preparados dessas medicinas.

“É muito audacioso o ser humano achar que pode criminalizar uma planta”, afirma. “Esquecemos que é uma relação. Quando controlamos demais a natureza, adoecemos juntos.” —Lúcia Rios

Entre territórios, tradições ancestrais e ciência, Lúcia segue construindo — e permitindo — encontros. Porque, para ela, a potência da vida está justamente nisso:  na abertura para o que ainda podemos nos tornar.


Este texto de Bárbara Muniz foi adaptado do original publicado pela Wave no frequencynews.ca


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