A Maternidade de Brisa – Experiência da brasileira com o sistema público de atendimento à maternidade

Experiência da brasileira com o sistema público de atendimento à maternidade

Imagem ilustrativa (Foto © dreamstime.com)

Desde de 2019, o casal Pedro e Brisa Rebello e os dois filhos vivem no Canadá. Naturais de Brasília, a família trocou a capital brasileira pela canadense, Ottawa, onde chegaram com os pequenos Rafael e Hugo, então com três anos e oito meses, respectivamente.

Em breve, a família irá aumentar. Em outubro, Brisa descobriu que está grávida do terceiro filho e, assim como aconteceu nas duas primeiras gestações, vem atravessando um quadro de hiperêmese gravídica.

A hiperêmese é uma complicação da gravidez caracterizada por intensas náuseas e vômitos que provocam perda de peso e desidratação. Entre os sintomas estão vômitos várias vezes ao dia e sensação de desmaio.

“Eu tive isso nas três gestações. Já no início eu começo a passar muito mal. Fico até mais ou menos o quinto mês vomitando muitas vezes por dia e é bem difícil manter qualquer coisa no estômago”, descreve Brisa.

No caso dela, após o quinto mês os enjôos diminuem e ela volta a se alimentar. No entanto, a sensação de mal estar permanece. “É bem desconfortável e difícil seguir a vida normalmente. Então são praticamente nove meses sem levar uma vida normal”.

Gestações no Brasil

Na primeira gestação, no Brasil, apesar de possuir plano de saúde, os médicos que a atenderam nunca propuseram uma internação. Duas vezes por semana, ela ia até o hospital fazer hidratação com soro e medicação. “Senti que tive menos acompanhamento. Só consegui um obstetra a partir da 11ª semana”, relembra.

Ciente do problema, na gravidez seguinte começou o acompanhamento mais cedo. O seu ginecologista à época também era obstetra, o que ajudou bastante. Quando a hiperêmese se agravou, Brisa foi à uma emergência e lá sugeriram internação. Ela recusou pelo fato do primeiro filho ser ainda muito pequeno.

A solução para o caso contou com a ajuda de uma prima enfermeira que, três vezes por semana, ia até a sua casa aplicar soro. “Tomei soro por cerca de dois meses e segui com o acompanhamento de uma gestação normal, porque não cheguei a apresentar outros riscos”, disse.

Tratamento canadense

Eis que há pouco mais de seis meses, ela descobriu que estava grávida do terceiro filho e, como era esperado, poucas semanas depois começaram os fortes enjôos que a levaram ao tão conhecido serviço de emergência. Logo após o atendimento, recebeu a recomendação de internação e, para a sua surpresa, soube que teria acesso através do sistema público de saúde do governo canadense a um home care completo e totalmente gratuito. Além do atendimento médico, o governo também ofereceu serviços de outros profissionais para auxiliar em serviços domésticos e cuidados pessoais.

No dia seguinte, recebeu a ligação da empresa responsável pelo serviço para confirmar os dados e enviar o material. “Eles mandam todo o material necessário: seringas, luvas, antisséptico. E todo dia vinha um enfermeiro aqui fazer a aplicação do soro”, descreve Brisa.
Alguns meses depois, as visitas diárias dos enfermeiros não foram mais necessárias. Pedro Rebello, marido de Brisa, assumiu a função de aplicar o soro com suplemento vitamínico no acesso previamente colocado, mas sempre contando com o acompanhamento dos profissionais.

Em janeiro, a equipe que a acompanha fez um pedido de implantação de PICC line, um cateter de acesso intravenoso de longa duração para administração do soro, que é conectado diretamente ao coração.

“Os enfermeiros ficavam vindo e fazendo os acessos nas veias, mas após três meses nesse processo já estava com muitos furos”. Para implantar o PICC line, Brisa foi hospitalizada e passou por um procedimento cirúrgico também custeado pelo governo.

Atenção constante e suporte emocional

Além do conforto, o cateter fixo permite que ela tenha mais mobilidade, uma que não precisa carregar a bolsa de soro. O líquido é impulsionado para o corpo através de uma pequena e discreta bomba, também fornecida pelo governo, que ela carrega em uma bolsa .
“Eles são muito preocupados em não deixar faltar os suprimentos. São sempre muito rápidos. Se acaba alguma coisa, não demora mais do que um dia para entregar aqui em casa”, diz.

Como exemplo do cuidado e da atenção da junta médica, Brisa conta que após um dos seus exames acusar que ela estava com deficiência de ferro, passou a ser acompanhada por profissionais de hematologia e a receber infusões do mineral.

“Você ter acesso a esse serviço (home care) de graça é impressionante”
—Brisa

Outro exemplo foi a consulta psiquiátrica, que se fez necessária por conta dos efeitos emocionais que envolvem todo esse processo. “Agora também estou em um programa de saúde mental onde tenho direito a acompanhamento até um ano após o parto”.

Em alguns momentos, no entanto, não tem sido muito fácil falar com os profissionais responsáveis por autorizar serviços específicos, como a manutenção da PICC line, e isso causa uma certa angústia. Porém, uma vez estabelecido o contato, todo o tratamento é oferecido com muito cuidado. “A questão da hiperemese eles veem com mais seriedade do que no Brasil, tanto que é comum o uso do PICC line nesses casos aqui. Com relação ao home care, tenho achado excelente. Você ter acesso a esse serviço de graça é algo impressionante”, conclui.



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