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Reconhecido por murais que dialogam com questões ambientais e sociais em diferentes partes do mundo, o artista mineiro Dinho Bento encontrou em Ottawa, capital canadense, seu novo lar.
Natural de Mariana (MG), cidade histórica cercada pela arte barroca e marcada pela mineração, ele cresceu entre contrastes que moldaram sua sensibilidade estética e crítica.
“Desde cedo, essas influências moldaram minha sensibilidade artística. Ao mesmo tempo, testemunhar os impactos ambientais causados pela atividade mineradora na região despertou em mim um profundo interesse pela relação entre o ser humano e a natureza”, conta o artista.

Arte como protesto e ponte cultural
Com trabalhos realizados em 15 países e três continentes, Dinho tem na arte urbana uma forma de diálogo direto com as comunidades. “A arte pública permite um intercâmbio cultural genuíno, onde cada conversa, cada troca, pode influenciar a obra em tempo real”, afirma. Em cada cidade, o artista carrega um traço brasileiro — e deixa uma marca de reflexão sobre temas universais.
Entre suas obras mais emblemáticas está o mural “Verde-Lama”, criado em 2016, durante o Festival Concreto, em Fortaleza. A pintura foi uma crítica à tragédia ambiental provocada pelo rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, no ano anterior. No ano seguinte, levou o mesmo tema para Portugal, onde criou o mural “Quando o Rio Era Doce”, em homenagem às comunidades indígenas e ribeirinhas impactadas pelo desastre. “Foi um episódio que considero um dos mais devastadores da história recente do Brasil”, recorda.


Do Brasil ao mundo
O percurso internacional de Dinho é repleto de histórias curiosas. Em 2018, ele foi convidado a pintar um mural na Biblioteca Nacional da Geórgia, na capital Tbilisi. Mas o início do trabalho foi adiado por falta de uma autorização que dependia da assinatura do primeiro-ministro. “Eles me propuseram fazer um tour pelo país enquanto aguardávamos a assinatura. Acabou que fiquei quase um mês na Geórgia para esse projeto”, lembra, rindo.
Mais recentemente, em agosto deste ano, Dinho finalizou um mural em Sudbury (Ontário), onde o contato com o público local foi marcante. “Os moradores me traziam café, bolo e até cerveja. Um dia, uma amiga de infância, da minha cidade natal, apareceu por lá — não nos víamos havia 20 anos. Foi emocionante me reconectar de forma tão inesperada.”
Em Calgary (Alberta), o artista completou em oito dias um mural de 170 metros quadrados, sobre uma parede de tijolinhos aparentes. “Foram jornadas de 10 a 12 horas por dia. Enfrentei até um dia inteiro de chuva, mas tudo correu bem no final. O mais gratificante foi ver a reação das pessoas — os organizadores, os vizinhos e até brasileiros que moram na cidade passaram por lá para conversar e tirar fotos.”
Nova fase em Ottawa
Dinho mudou-se para Ottawa há cerca de três anos, acompanhando a esposa, que recebeu uma proposta de trabalho na cidade. A capital canadense acabou conquistando o artista pela combinação de tranquilidade e vitalidade cultural. “Aqui encontro a possibilidade de andar de bicicleta, caminhar por trilhas e estar em contato direto com a natureza, mas também de frequentar museus, festivais e eventos culturais. Essa dualidade é muito inspiradora para minha prática artística.”
Desde que chegou ao Canadá, ele participou de festivais e exposições coletivas em várias cidades e vem ampliando sua presença internacional. Embora ainda não tenha realizado um mural de grande escala em Ottawa, o artista participa de iniciativas locais e acredita que em breve surgirá a oportunidade. “Tenho vontade de contribuir com um mural significativo para a paisagem urbana da cidade que hoje chamo de lar.”

A força da arte brasileira
Dinho Bento faz parte de uma geração que projeta o Brasil no cenário mundial da arte urbana. Para ele, nomes como Osgêmeos e Eduardo Kobra abriram caminhos, mas o país segue se destacando pela diversidade e potência criativa de novos artistas. “O que mais me impressiona é a força que continua emergindo de diferentes regiões. Há uma geração inteira de artistas talentosos, com identidade própria e profunda conexão com questões sociais, culturais e ambientais.”
Essas trocas, diz ele, são o que mantém sua arte viva. “É inspirador ver como o Brasil continua sendo um celeiro de criatividade, com vozes plurais que dialogam com o mundo por meio da arte. Fico feliz em fazer parte dessa rede e contribuir com uma produção que carrega o DNA brasileiro — marcado pela expressividade, pela resistência e pela capacidade de transformar o espaço público em plataforma de diálogo e reflexão.”










































