
Radicada no Canadá desde 1996, Claudia Balladelli tornou-se um dos nomes mais atuantes na produção cultural brasileira em Ottawa. Chegou ao país motivada pelo desejo de morar fora, aprender inglês e conhecer novas culturas — e, sem planejar, encontrou na cena musical local o espaço que transformaria sua trajetória.
Desde 2021, Claudia lidera o Empowering Women in the Music Industry (EWIMI), uma iniciativa anual criada para oferecer um espaço seguro e profissional para mulheres e pessoas de gêneros diversos. Segundo ela, a motivação veio das “barreiras estruturais” enfrentadas por essas profissionais.
“Ao longo dos anos, percebemos barreiras estruturais, como falta de representação, oportunidades desiguais, assédio, insegurança em ambientes de trabalho e ausência de redes de apoio. Criar um espaço exclusivamente feminino e de gêneros diversos foi a forma que nós da Axé WorldFest encontramos de garantir um ambiente onde as participantes pudessem dialogar livremente, compartilhar vivências, criar conexões significativas e construir soluções juntas.”
O evento, que combina festival, conferência e formação, tem curadoria coletiva feita pela equipe da Axé WorldFest e parceiras como Women in Music Canada, National Arts Centre, Lula Music & Arts e programadoras nacionais e internacionais.
A Axé WorldFest surgiu em 2018 e foi formalizada em 2019, diante do “buraco” que Claudia e a equipe enxergavam na indústria musical local. A ideia inicial era atender artistas internacionais em turnês que passavam por Montreal e Toronto, mas não encontravam espaço em Ottawa — seja por limitações de palco, seja por cachês incompatíveis.

Saravá!
Mente inquieta, Claudia co-fundou a Saravah, por demanda da própria comunidade brasileira. Com a chegada da irmã Malu Anastácio ao Canadá, em 2020, e seu engajamento com imigrantes recém-chegados, Claudia se uniu a ela e a Silvia Saraiva para criar uma iniciativa voltada a artistas brasileiros com identidades interseccionais — pessoas negras e racializadas, recém-imigrantes, jovens artistas e pessoas 2SLGBTQI+.
A missão é clara: apoiar quem enfrenta barreiras para subir aos palcos profissionais da capital canadense e criar ambientes seguros e representativos tanto para artistas, quanto para o público. Nos eventos, brasileiros recém-chegados ao Canadá ganham ingressos gratuitos.
“A iniciativa de oferecer ingressos gratuitos nasceu da missão central da Saravah: criar espaços culturais onde brasileiras e brasileiros possam se sentir vistos, acolhidos e conectados. Como todas nós somos imigrantes, sabemos que chegar a um novo país pode ser desafiador: isolamento, choque cultural, dificuldades financeiras e a falta de uma rede social são experiências comuns para muitos imigrantes. Por isso, entendemos que a cultura pode ser uma ponte poderosa para a sensação de pertencimento”, analisa Claudia.
Os relatos recebidos após os eventos confirmam o impacto da Saravah: pessoas que fizeram suas primeiras amizades no Canadá, que encontraram oportunidades de trabalho e que reviveram tradições brasileiras de maneira emocional.
“Criar esses ambientes de acolhimento e de orgulho pelas artes, música e nosso patrimônio cultural é fundamental. Isso porque fortalece a autoestima e identidade cultural dos newcomers, combate a solidão e o isolamento comuns no processo de imigração. Também, gera redes de apoio real entre brasileiros, fomenta uma comunidade mais unida, diversa e ativa em Ottawa e promove integração social através da arte, música e cultura. Acreditamos que cultura é cuidado e quando acolhemos newcomers nos eventos da Saravah, estamos dizendo que eles fazem parte daqui — que há um espaço para eles, suas histórias e suas raízes”, afirma Claudia.
No festival brasileiro de junho deste ano, os vendedores de comida esgotaram logo seus produtos, diante de um público muito maior que o previsto — um indicativo de como o evento se tornou ponto de encontro da comunidade.
Trajetória
Depois de estudar inglês no Algonquin College no final dos anos 90, Claudia apostou na área de viagem e turismo, mas logo percebeu que não era o caminho. Trabalhou em agência de viagens, em loja no centro e como guia turística para brasileiros. Nas horas vagas, frequentava o Mercury Lounge, onde, segundo ela, se divertia com a programação variada e a música ao vivo. Foi ali que tudo mudou: chamada às pressas para ajudar na porta em pleno Canada Day, acabou contratada e, em pouco tempo, assumiu funções de hostess, chapelaria, bar e, por fim, a gerência geral.
A experiência abriu portas para uma carreira que já soma mais de duas décadas na indústria musical. De volta ao Canadá após morar na Austrália e viver uma gravidez inesperada, Claudia retornou ao Mercury Lounge como programadora musical, trabalhando de casa enquanto cuidava do flho recém-nascido, Gabriel. Ali ajudou a construir uma programação de quarta a domingo, incluindo noites 2SLGBTQ+, música eletrônica, world music e DJs internacionais. Ao longo dos anos, também produziu shows de artistas brasileiros como Bebel Gilberto, Céu, Rael, Bixiga 70, Da Lata, Drumagick, Florquestra Brasil, entre muitos outros.
Planos e legado
Para os próximos anos, Claudia quer consolidar a Saravah como referência nacional em cultura brasileira, no Canadá. Entre os planos estão expandir o Saravah Brazilian Festival, fortalecer colaborações com organizações culturais do Brasil, do Canadá e da América Latina e criar iniciativas de memória e documentação artística.
O legado que deseja deixar é o do pertencimento: “Que brasileiras e brasileiros que chegam ao Canadá sintam que existe um lugar para eles”. Para a cena musical, ela espera mais visibilidade, oportunidades e circulação de artistas brasileiros, abrindo portas e construindo pontes entre países.
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