Duas faces do aquecimento global – Canadá e Tuvalu

Dois cenários reais

O aquecimento global é um fenômeno que afeta todo o planeta, com consequências que variam de região para região. Enquanto o Canadá, por exemplo —o segundo maior país do mundo em área, atrás apenas da Rússia— está vendo derreter uma parte importante de suas geleiras glaciais, o minúsculo e pouco conhecido Tuvalu —um país formado por ilhas de coral, na Polinésia— está preocupado com as suas terras sendo engolidas pelo mar, pouco a pouco.

Estes dois cenários são reais e nos dão uma ideia dos enormes desafios deste século. Servem também, para mostrar que dois países tão distantes e contrastantes —um polar e o outro tropical, separados por 12 mil quilômetros de distância— são palco de um dos temas mais atuais: os efeitos do aumento da temperatura no mundo.

O derretimento do Grande Norte Branco

Em 2017, a CBC Notícias publicou uma matéria que aborda o papel das geleiras canadenses no aumento do nível do mar, frente ao aquecimento do Ártico: “Enquanto a Groenlândia e a Antártida detêm a maior quantidade de água doce do mundo na forma de geleiras e mantos de gelo, o Canadá também detém sua parcela justa. O país abriga cerca de 20% das geleiras do mundo e, como resultado, é o terceiro maior contribuinte para a mudança do nível do mar”.

Cientistas de universidades do Canadá e da Islândia já alertavam, em 2015, para um cenário de rápida perda de geleiras no oeste da América do Norte. Simulações realizadas apontaram o período de 2020-2040 como a época de perda de maiores volumes de gelo.
O alerta internacional sobre as consequências do aumento do nível do mar vislumbram situações críticas, nos próximos 20-50 anos, para habitantes de diferentes países do mundo, principalmente para os que vivem nas regiões costeiras ou ilhas. Não apenas devido ao aumento do nível das águas, mas também pelo perigo representado por tempestades e furacões, de intensidades cada vez maior.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) publicou em 2022, o relatório “Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade”, onde apresenta a expectativa de que o nível do mar suba de 5 a 10 centímetros, entre 2030 e 2050. Além disso, indica que as inundações em cidades costeiras e pequenas ilhas vão acontencer em intervalos mais curtos, aumentando assim, a vulnerabilidade de seus habitantes. Segundo Martin Sharp, pesquisador glaciologista da Universidade de Alberta: “São 2 bilhões de pessoas que vivem a menos de dois metros do nível do mar contemporâneo”.

Os desafios de Tuvalu: futuros refugiados do clima?

Tuvalu é um pequeno país-arquipélago dominado por terras planas. Com uma área de apenas 26 km², é formado por uma cadeia de nove ilhas. O seu ponto mais alto está a apenas 5 metros do nível do mar. Por isso, à medida que o nível do mar sobe, o país vem enfrentando condições cada vez mais difíceis, como alagamentos, erosão costeira, salinização do solo e perda de biodiversidade, colocando-o em sério risco.

Localizado a meio caminho entre o Havaí e a Austrália, no Oceano Pacífico, é um país particularmente bonito. A areia branca de suas praias contrasta com o mar turquesa e o verde intenso dos coqueirais. Mas embora todo esse encanto, para as 12 mil pessoas que moram no país, a vida torna-se cada vez mais precária e o futuro, incerto.

Residentes falam de ondas invadindo o país durante as tempestades, enquanto relatórios técnicos mostram o aumento das marés. Com isso, o governo e a população estão em alerta, ante a possibilidade de perderem Tuvalu para as águas do Pacífico, nos próximos 50 a 100 anos.

Em entrevista ao PACNEWS, o ministro da Justiça, Comunicações e Relações Exteriores de Tuvalu, Simon Kofe, dá a dimensão do problema: “Atualmente, 40% do centro da capital de Tuvalu, Funafuti, já está abaixo do nível do mar na maré alta”, disse. E segue: “O pior cenário é, obviamente, que sejamos forçados a nos mudar e nossas ilhas ficarem completamente submersas no oceano”, indicando que a possibilidade dos moradores de Tuvalu se tornarem os primeiros refugiados do clima aumenta a cada ano.

De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a previsão é de que em menos de oito décadas, 95% do território do arquipélago já estaria inundado, deixando Tuvalu inabitável.

Tuvalu Digital: uma resposta inovadora ao aquecimento global

Diante das transformações climáticas, Tuvalu busca alternativas para o seu futuro. Em sua preparação para o que chama de “pior cenário” está o projeto “Future Now”, uma iniciativa de esforços coordenados: como país, TUVALU precisa reter o máximo possível de suas terras; como nação, moradores e autoridas querem conservar a sua memória, cultura e tradições polinésias; como Estado, busca garantir a continuidade de suas atividades públicas como um “pais marítimo”.

O país corre o risco de desaparecer porque pelo direito internacional atual, “um país só tem o direito de reivindicar uma zona marítima se possuir um território terrestre a partir do qual possa demarcá-la”, explica Kofe.

O projeto “Future Now” inclui iniciativas de proteção costeira para mediar o alcance e impacto das águas do mar em Tuvalu. Por exemplo, foram erguidas barreiras contra as ondas de tempestades em Funafuti, a capital.

Mas enquanto essa e outras importantes intervenções acontecem diretamente no territorio, o projeto “Future Now” também está focado em desenvolver uma iniciativa arrojada e totalmente inovadora: a criação da Nação Tuvalu Digital.

Esforços estão concentrados na digitalização de documentos familiares e históricos. Também, de registro de práticas culturais e de gravações de canções tradicionais, entre tantas outras necessidades. Estamos testemunhando o surgimento de uma “nação digital” no Metaverso, que tem por objetivo manter Tuvalu presente na vida das gerações futuras.

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