Entrevista com Anne Mackenzie Pearson – Tradição, Fé e Diálogo Inter-religioso

(...) os direitos humanos são tanto individuais quanto coletivos, e nenhum direito humano é absoluto, especialmente se infringir os direitos humanos de outros.

Alyssa Lai, presidente do conselho de diretores da YMCA, e o vice-presidente Paul Gibel presenteiam Anne Pearson com uma Medalha da Paz de 2024 (Foto: Cathie Coward, The Hamilton Spectator)

Neta de Lester B. Pearson – Primeiro-ministro do Canadá de 1963 a 1968 e figura emblemática que dá nome ao Aeroporto Internacional Pearson, em Toronto –, Anne Mackenzie Pearson construiu sua própria trajetória de impacto, dedicando-se ao estudo e à promoção do diálogo inter-religioso.

Nascida em Londres, Ontário, Anne passou a infância no exterior, acompanhando o pai, diplomata em Paris, Nova Délhi, Cidade do México e Moscou. Além de viajar intensamente na adolescência, muitas vezes sozinha, viveu por vários anos na Índia, onde realizou pesquisas para seu doutorado.

Especialista em estudos religiosos, concentrou-se nas tradições do sul da Ásia, com ênfase no hinduísmo e no papel das práticas religiosas na vida das mulheres hindus. Doutora pela McMaster University, lecionou em instituições renomadas como McMaster University e Wilfrid Laurier University. Entre suas contribuições, destaca-se o livro “Because It Gives Me Peace of Mind: Ritual Fasts in the Religious Lives of Hindu Women”, no qual explora o significado dos jejuns rituais na religiosidade feminina.

Além da academia, Pearson tem forte atuação comunitária, refletindo seu compromisso com justiça social e equidade. Presidiu o Hamilton Interfaith Peace Group e foi vice-presidente do conselho da organização Empowerment Squared, dedicando-se a iniciativas de inclusão e transformação social. Em novembro de 2024, recebeu a Medalha da Paz do YMCA.

Em entrevista exclusiva para Rosemary Baptista, representando a Wave Magazine pelo programa Local Journalism Initiative (LJI), Pearson compartilhou suas experiências, reflexões sobre religião e sociedade. Também, sobre o seu compromisso com o diálogo inter-religioso no Canadá e no mundo. A matéria original e completa de Rosemary Baptista —em inglês— está disponível no site WaveMagazine.ca

Entrevista com Anne Mackenzie Pearson

WAVE: Você é neta de Lester Pearson, que é um dos primeiros-ministros do Canadá mais admirados deste século e deixou um grande legado. Como seu avô influenciou sua vida e suas escolhas?
ANNE – Eu diria que meu avô e também meus pais tiveram uma profunda influência nas minhas escolhas de vida. Tornar-me especialista em hinduísmo foi influenciado, claro, pela função de meu pai na Índia quando eu era uma jovem adolescente. Mas, em geral, a preocupação com a justiça social, com a paz – isso foi transmitido a nós pelo meu avô e pelos meus pais. Além disso, fomos educados com valores fundamentais como generosidade, humildade, compaixão e serviço. Acho que uma das coisas que meu avô realmente me influenciou foi esse conceito de internacionalismo. Ele falava muito sobre os perigos do nacionalismo extremo nesse momento da história humana. Um patriotismo saudável é bom e não há problema com isso! E, claro, ele trouxe a bandeira canadense que honrou a singularidade do Canadá, mas disse que vivemos em um mundo tão interconectado que também precisamos desenvolver um senso de cidadania mundial. Muitas pessoas observaram isso, mas ele praticou em sua diplomacia, ele praticou como primeiro-ministro, ele praticou em sua vida pessoal, continuando isso após sua aposentadoria como primeiro-ministro em 1968, quando, por exemplo, trabalhou com o Banco Mundial. Ele promoveu a ideia de interdependência mútua, de nossa necessidade de nos comprometermos com o bem-estar dos outros, enquanto também olhamos para nossas próprias necessidades – esse tipo de ideal. Embora eu tivesse 15 anos quando ele morreu, essas sementes foram plantadas profundamente em mim e em meus irmãos também.

WAVE: Quantos irmãos você tem?
Anne – Éramos cinco. Minha mãe tinha que nos transportar de um país para outro, o que era um trabalho e tanto!

WAVE: Você era próxima do seu avô?
Anne – Bem, como estávamos longe por muito tempo, e ele estava tão ocupado, não o víamos muito enquanto eu crescia – exceto pelo período em que ele foi primeiro-ministro, nós estávamos vivendo em Ottawa. Então, durante aqueles 5 anos em que ele foi primeiro-ministro, costumávamos almoçar aos domingos com nossos avós na casa do primeiro-ministro na Sussex Drive.
Tenho muitas memórias felizes daquela época. Meu avô amava seus 10 netos. Ele não tinha medo de se ajoelhar e correr atrás de nós por diferentes cômodos da casa, compartilhando seus amendoins e refrigerante de gengibre (Canada Dry Ginger Ale) conosco! Eu tinha entre 7 e 10 anos naquela época. Ele era um avô muito caloroso e amoroso.

Durante aquele tempo, meu pai estava envolvido nas negociações de desarmamento nas Nações Unidas. Como tanto meu avô quanto meu pai estiveram tão envolvidos na ONU e suas agências, isso também me influenciou a me envolver na filial de Hamilton da Associação das Nações Unidas do Canadá. Agora eu também sirvo no Conselho Nacional da UNA-Canada.

WAVE: É justo dizer que seu avô, Lester Pearson, iniciou o movimento multicultural no Canadá?
Anne – Trudeau realmente pegou isso de forma significativa, mas estava de acordo com a visão de mundo do meu avô. Pearson inicialmente se concentrou em bilinguismo e biculturalismo – uma época, a década de 1960, que viu o início do movimento separatista de Quebec. Ele estava profundamente preocupado com a divisão do Canadá em “two solitudes” (Duas Solidões). Assim, ele iniciou comissões de investigação sobre bilinguismo e biculturalismo, e ajudou a tornar o francês a segunda língua oficial do Canadá para incentivar os canadenses anglófonos a aprender francês e os francófonos a aprender inglês, para que tenham esse senso compartilhado de identidade como canadenses. E assim, o próximo passo seria criar o conceito de um Canadá multicultural – o multiculturalismo que Trudeau captou.

WAVE: Então, você sente que no mundo de hoje, o multiculturalismo está funcionando da maneira que deveria?
Anne – É difícil dizer que está funcionando como deveria, porque à medida que as décadas passam, o contexto muda. Mas acho que os fundamentos estão lá e funcionam. E os fundamentos têm informado uma identidade canadense que realmente está se tornando cada vez mais multicultural. Então, mesmo que os canadenses não estejam tão entusiasmados, talvez, quanto costumavam estar de algumas maneiras, acho que devemos nos orgulhar do que conquistamos como nação, como uma nação internacional. Precisamos continuar trabalhando neste experimento de unidade na diversidade!

Rosemary: Certo grau de expectativa em relação à acomodação que favorece a cultura de um indivíduo parece ser a demanda de hoje. Como pacificadora, talvez trazer conflitos violentos de uma parte do mundo para o Canadá não se alinhe com os ideais e o legado de seu avô, vencedor do Prêmio Nobel da Paz. Você concorda com isso?

Anne – Sim, concordo. É naturalmente difícil para muitos recém-chegados ao Canadá deixarem de lado sua cultura anterior, suas lealdades, suas visões de mundo. E isso está correto até certo ponto. Mas os recém-chegados, assim como os canadenses de longa data, devem fazer esforços para acomodar uns aos outros, e isso pode significar deixar de lado alguns preconceitos ou práticas anteriores. Uma perspectiva de direitos humanos pode ser uma boa maneira de olhar para essas questões, mas lembre-se, os direitos humanos são tanto individuais quanto coletivos, e nenhum direito humano é absoluto, especialmente se infringir os direitos humanos de outros. Além disso, devemos pensar em nossos deveres e obrigações para com os outros, não apenas em nossos próprios direitos.

WAVE: Anne, entendo que você tem um parente brasileiro?
Anne – Sim, meu genro tem uma origem brasileira.




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