Entrevista com Christiane Torloni

A atriz fala sobre a proteção da Amazônia, a teledramaturgia brasileira e os novos projetos.

A atriz Christiane Torloni, uma das estrelas consagradas da TV brasileira, que vem dando vida a diversas protagonistas importantes da teledramaturgia, passou a levantar bandeira, há alguns anos, por um tema bastante importante, pertinente e discutido em todo o mundo: as questões climáticas, mais especificamente, a proteção à Floresta Amazônica.

Para trazer o assunto à tona e ressaltá-lo não só no Brasil, mas também para o mundo, ela deu vida ao documentário “Amazônia – O Despertar da Florestania”, em 2019, um filme que discute como a Floresta Amazônica e a própria natureza vêm sendo tratadas desde o começo do século XX.

Christiane Torloni durante as filmagens do documentário sobre a Amazônia (Foto: Divulgação)

A ideia de criar o filme surgiu no movimento “Amazônia Para Sempre”, um abaixo-assinado feito por artistas que coletaram, em 2009, um milhão e duzentas mil assinaturas contra a devastação da Amazônia. A partir daí, a atriz sentiu a necessidade de se manifestar em prol da floresta brasileira e teve a ideia de criar um documentário que diz respeito a uma manifestação artística, um projeto de memória e não um projeto jornalístico. “Eu preciso usar uma outra ferramenta para a manifestação de uma angústia poética, criativa, existencial e planetária que é essa questão da Amazônia”, conta.
Segundo Torloni, o filme tem um valor agregado de imagens de arquivo que são incrivelmente difíceis de serem conseguidas, e isso também tomou muito tempo, espaço, valores e custo. “Foi muito difícil, mas o filme está aí e a proposta dele é essa. Ele faz parte do trabalho de uma rede mundial planetária que procura denunciar com muita força a questão das mudanças climáticas” – enfatiza.

Christiane destaca também que cada indivíduo pode fazer a sua parte para a preservação do planeta, e usa a encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, para afirmar que nós somos uma grande coletividade, mas que precisamos agir de modo individual. “Nós precisamos agir individualmente, com consciência, reflorestando mentes, porque os nossos maus hábitos é que são responsáveis pela situação atual do planeta”, diz.

Sobre a possibilidade de lançar um novo documentário, a atriz afirma que não está à vontade no momento para fazer outra produção de cinema, mas que apesar disso irá investir o seu tempo e a sua criatividade na florestania, porém em outras janelas de comunicação.

A atriz falou ainda sobre a teledramaturgia brasileira, os novos projetos e muito mais…

Christiane Torloni (Foto: Danilo Borges)

Entrevista com Christiane Torloni

WAVE – O documentário criado e dirigido por você, “Amazônia – O Despertar da Florestania” aborda uma questão bastante pertinente e que vem se agravando com o passar dos anos. Qual foi a sua intenção com o filme? Houve alguma iniciativa governamental desde então?

CHRISTIANE TORLONI — Essa questão do “Amazônia, O Despertar da Florestania” é muito interessante porque na verdade foi o momento em que eu disse “Eu preciso usar uma outra ferramenta para a manifestação de uma angústia poética, criativa, existencial e planetária que é essa questão da Amazônia. Então, o filme nasce no movimento “Amazônia Para Sempre”, que foi o abaixo-assinado que nós fizemos em 2009, com mais de um milhão e duzentas mil assinaturas contra a devastação da Amazônia. Então, a gênesis do filme está numa movimentação que foi política, de você ir para a rua pegar assinaturas quando a Internet ainda não era essa potência, na qual que você consegue um milhão delas num estalar de dedos, como hoje. A gente ficou por dois anos trabalhando nisso. Então, é uma manifestação artística, não é um projeto jornalístico, ele é um projeto de memória.

O filme tem um valor agregado de imagens de arquivo que são incrivelmente difíceis de serem conseguidas, e isso também tomou muito tempo, espaço, valores e custo. Foi muito difícil, mas o filme lançado em 2019 está aí, a proposta dele é essa. Ele faz parte do trabalho de uma rede mundial planetária que procura, através do espaço que ocupa, denunciar com muita força a questão das mudanças climáticas. Então, ele é uma ferramenta dentro de um trabalho de rede do nosso planeta. Tem gente no mundo inteiro trabalhando por isso e eu dou a minha contribuição.

WAVE – Como foi essa sua experiência como autora e diretora? Você pretende fazer outro documentário?

CHRISTIANE TORLONI — Quanto à questão de fazer um outro documentário, vai depender de muitas variantes para uma equação. Nós estamos passando um momento muito diferente do ponto de vista cultural no Brasil. Então, hoje, eu me sinto menos à vontade para começar uma produção de cinema do que há dez anos, por conta da pandemia, dos últimos quatro anos de um governo de extrema direita que foram muito danosos para o nosso segmento. Então, eu prefiro nesse momento estar investindo o meu tempo e criatividade na florestania, mas em outras janelas de comunicação que não o cinema.

Wave – Além dos artistas e de outras pessoas da mídia que podem mostrar a gravidade da situação na Amazônia, o que as pessoas comuns podem fazer para ajudar também?

CHRISTIANE TORLONI — Cada um faz muita diferença. Então, se a gente for olhar a encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, ele fala muito isso, que nós somos uma grande coletividade, mas que precisamos agir individualmente, com consciência, principalmente reflorestando mentes, porque os nossos maus hábitos é que são responsáveis pela situação atual do planeta. Então, reflorestar realmente é essencial para todos nós, é uma questão de mudança de comportamento, quebra de vários paradigmas e que, no dia a dia, com pequenos gestos, muito caseiros e rotineiros, a gente pode contribuir de várias maneiras, como usar bem a água, usar e reusar as coisas e reciclar o lixo. Quer dizer, nós somos os porcalhões do planeta. Então, a primeira coisa que a gente precisaria fazer, principalmente na nossa sociedade chamada civilizada, dos humanos, é ter uma mudança de comportamento e começar a limpar a nossa sujeira. Se cada um cuidar da sua casa como um planetinha pequeno, assim como no “O Pequeno Príncipe”, e fizer daqui um lugar sustentável, a gente pode ampliar isso para outras dimensões, ou seja, para a casa, o condomínio, o bairro, a cidade, o estado, o país e o planeta.

WAVE – Há muitos anos você vem sendo a protagonista de várias novelas de sucesso e recorde de audiência. Qual a sua opinião sobre os folhetins, os autores e a teledramaturgia brasileira nos dias de hoje?

CHRISTIANE TORLONI — Sim, eu tive oportunidade de fazer verdadeiros clássicos da televisão brasileira, que eram escritos por autores que tinham uma formação muito boa. Então, você pega autores como Manoel Carlos, Agnaldo Silva, Glória Perez, Ivani Ribeiro, Janete Clair, quer dizer, eu tive a oportunidade de transitar com o “crème de la crème” da dramaturgia brasileira. Então, com quase 50 anos de carreira, eu realmente eu recebi prêmios e entendo que houve uma renovação na teledramaturgia, como houve uma renovação em toda uma questão comportamental no mundo. Eu percebo que, principalmente quando a gente tem as reprises, mais do que os remakes, o público ressalta essa questão da qualidade da dramaturgia, que era muito boa. Eu vejo que quem fez, fez (risos), entendeu? Quem teve essa oportunidade, teve, e agora está vivendo um outro momento. Existem outros estilos de dramaturgia que chegaram também e são mais descartáveis. Eu não estou vendo atualmente na teledramaturgia brasileira o surgimento de uma obra que você diga “Essa vai entrar para o Pantheon das grandes obras da teledramaturgia brasileira”. Mas, eu espero que aconteça.

WAVE – A TV aberta sofreu várias alterações com o passar dos anos e deixou de ser a principal fonte de entretenimento do público, passando a competir com o streaming e a Internet. Os atores de TV sentiram essa nova realidade? Qual a sua opinião?

CHRISTIANE TORLONI — Sim, eu acho que com a abertura de novas plataformas de comunicação você tem uma economia criativa, que se potencializou. Então, você tem mais janelas para mais autores, atores, cenógrafos e equipes. Eu acho que tem um fenômeno de mercado que é muito interessante. Se a qualidade é muito boa ou muito ruim, ou mais ou menos, aí isso é uma questão de se ir escolhendo o trabalho, porque você tem uma demanda enorme para poder ocupar todos esses espaços, e às vezes, quantidade não significa qualidade. Eu acho que essa abertura de mercado só beneficia, porque nada como uma competição saudável para que o mercado melhore, e melhorem também as condições para todos os envolvidos.

WAVE – Qual a sua opinião sobre os novos atores, pessoas que muitas vezes vêm de reality shows ou que são influencers da Internet e disputam espaços com os atores profissionais?

CHRISTIANE TORLONI — Essa questão dos novos atores é assim, para mim é ator, não importa se ele foi faxineiro ou agente de turismo, se a pessoa tem talento, está conseguindo mostrar isso e entrar no mercado, maravilha, seja lá o que ele for. Se ele não for um ator, ele não vai durar, ele vai voltar a ser faxineiro ou agente de turismo, ele vai voltar a ser outra coisa para a qual talvez ele tenha mais talento. Ele vai passar por esse ambiente e não vai durar, porque só um ator de verdade dura, basta ler a história.

WAVE – Qual a sua opinião sobre as redes sociais? Elas mais ajudam ou atrapalham a carreira do artista? E para você, qual a importância que elas têm?

CHRISTIANE TORLONI — A rede social tem que ter um objetivo e um propósito. Se essa ferramenta está sendo utilizada só para a vaidade e para deixar a pessoa feliz, que ela seja feliz e viva as consequências de estar se expondo e se exibindo para a sua própria vaidade. Eu entrei finalmente nas redes sociais, no Instagram, quando do lançamento do meu filme. Até lá eu não tinha ou via um por quê, e muito uma motivação. Então, a questão da florestania, da luta pela preservação do meio ambiente foi o gatilho que me fez entrar nas redes. Hoje, eu compartilho outras coisas que não são só sobre o meio ambiente, mas sobre o viver bem com cidadania, com florestania, com consciência social. Talvez a minha rede não seja tão palatável para outros tipos de gosto, tanto que eu tenho lá um milhão e trezentos mil seguidores, o que já é um número muito bonito, dado o material que eu posto. Eu acho que a gente está vivendo um momento menos polarizado agora no Brasil e nesse sentido deu uma acalmada. Eu acho que a gente estava vivendo um momento um pouco mais hostil… enfim, é hostil para todo mundo, não tem jeito. Mas, eu devo dizer que não tenho do que reclamar, porque eu tento usar a minha rede de uma maneira quase profissional, numa medida em que as minhas questões muito pessoais ficam mais protegidas porque elas não interessam às outras pessoas.

WAVE – Quais são os seus cuidados com a saúde e a beleza? Você é adepta das cirurgias plásticas e dos últimos procedimentos? Existe algum segredo para você manter a sua jovialidade?

CHRISTIANE TORLONI — Eu acho que a gente tem que buscar algum tipo de equilíbrio. Eu pratico Ioga há mais de 20 anos com bastante disciplina. Eu gosto também das práticas lúdicas, como jogar frescobol na praia, andar de bicicleta… das coisas que tenham a ver com prazer, que tragam alegria para o corpo. Isso traz saúde e equilíbrio para a mente e para o espírito. No que diz respeito aos procedimentos, eu acho que tudo o que é feito com bastante sensatez, cuidado e profissionalismo pode nos ajudar. A gente só tem que tomar cuidado para não ficar correndo atrás de um tempo que já passou (risos) e deve se gostar a cada tempo que vai chegando. Então, vamos gostar da gente do jeito que a gente vai ficando, se respeitando, se amando, se tratando bem e procurando abrir outras janelas de beleza, que eu acho importantes também. O conceito de beleza também vai amadurecendo. Muitas coisas a gente vai achando mais bonitas depois, mas a gente precisa ter vida para chegar lá, e uma vida equilibrada de alguma maneira.

WAVE – Quais são os seus próximos projetos?

CHRISTIANE TORLONI —No segundo semestre, eu começo o espetáculo “Dois de Nós”, do Gustavo Pinheiro, uma turnê com o ator Antonio Fagundes, que foi o meu companheiro em vários projetos de televisão e de cinema. Nós estamos nos prometendo esse encontro nos palcos, então vai ser muito bonito. O espetáculo estreia em São Paulo, no teatro da FAAP, e provavelmente irá se tornar um filme, porque o Fafá está realmente muito interessado em se tornar um produtor de cinema, como ele já está fazendo agora, terminando o segundo filme dele.

O meu outro projeto é conhecer o Canadá. Eu quero conhecer as florestas do Canadá. Quem sabe essa pequena matéria não nos abre janelas? Eu adoraria passar o meu filme nesse país incrivelmente florestal e que eu não conheço. Mas, eu adoro assistir alguns documentários e, algum dia, eu irei aí.


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