
Conte-nos sobre você (seu nome, idade, de onde você é, estado civil, filhos, há quanto tempo você está no Canadá)
Meu nome é Fernanda, tenho 33 anos. Sou casada há 5 anos com o Michael (etíope-canadense) de 35 anos. Não tenho filhos biológicos, mas tenho um enteado de 12 anos que passa os finais de semana conosco. Esse ano vai fazer 10 anos que vim para o Canada e virei canadense ano passado.
- O que você fazia no Brasil? Você estudou culinária em casa ou aqui no Canadá?
Sempre fui apaixonada com cozinha, aprendi muito com minha mãe, avó materna e um tio paterno. Fiz alguns cursos específicos de cozinha enquanto estava no Brasil, mas não sou formada em Gastronomia. Na verdade eu vou formada em Administração no Brasil e fiz uma pós graduação em marketing. Mesmo pensando muitas vezes em fazer gastronomia eu nunca pensei que seria uma carreira para mim, afinal com um pai médico, a família toda queria que eu fizesse medicina, então fugir dessa expectativa para administração já foi difícil e infelizmente gastronomia na época que eu fiz faculdade era visto mais como um hobbie que uma carreira.
- Por que você imigrou para o Canadá?
Teve alguns fatores. Se eu falar que era meu sonho me mudar do Brasil eu estaria mentindo. Acho que para mim foi um pouco de fuga pessoal. Eu nasci e morei até meus 24 anos em Brasília, em uma cidade satélite chamada Taguatinga. Uma frase que é muito comum escutar em Brasília como um todo é que a cidade é do tamanho de um ovo de codorna, todo mundo conhece todo mundo, ou pelo menos conhecem alguém em comum. E eu sempre me senti muito na sombra do pai, muito comparada com ele em todo lugar que eu ia, consequentemente eu sentia que eu não podia fazer nada errada, porque logo alguém ia ficar sabendo e chegaria nos ouvidos dos meus pais. Sinceramente essa sempre foi uma pressão mais interna de um medo de quebrar expectativas, nunca veio diretamente dos meus pais.
No momento que eu me formei em Administração eu decidi que queria fazer uma pós fora do Brasil, que já era um desejo do meu pai e assim esse processo começou. A intenção não era imigração, era realmente ter uma independência em um lugar que ninguém sabia quem eu era e principalmente quem era os meus pais. Mas depois voltaria. Mas depois de um tempo eu fui criando a minha vida lá, chegando no ponto que hoje já sou cidadã, cada e com o meu próprio negócio.
- Quais são as diferenças entre cozinhar aqui e no Brasil?
Forno elétrico ainda é algo que me incomoda para ver sincera, não que no Brasil não tenha, mas é muito mais comum o a gás. Então foi algo que tive que me adaptar, principalmente para os preparos dos bolos.
Outro fator é sem dúvida alguns ingredientes. Depois de um certo tempo no país e algumas pesquisas a gente acaba aprendendo o equivalente de determinados produtos. Por exemplo fubá que se encontra como cornmeal em qualquer mercado, ou creme de leite, que é mais fácil achar o creme de leite fresco (table cream com 18% de gordura) e por ai vai.
O único ingrediente que eu ainda dependendo bem do mercado brasileiro para os meus produtos é a tapioca granulada para os dadinhos.
- Toronto é uma cidade muito multicultural. Você aprendeu sobre alguma das outras culturas enquanto esteve aqui? Você tem uma favorita?
Sem dúvida, eu na verdade demorei a conhecer outro brasileiro quando me mudei. Eu até escutava um português aqui e ali, mas na minha turma de inglês (um programa de pathway que eu fiz antes da pós) não tinha nenhum outro brasileiro, a turma tinha muitos coreanos, alguns japonese e um ucraniano e um árabe. Então tive a oportunidade de conhecer melhor essas culturas, principalmente a coreano no qual fiz muitos amigos na época. Infelizmente com o final do programa cada um foi para uma cidade diferente para fazer os seus colleges, então acabamos perdendo o contato. Fora esse grupo, eu morei com uma família italiana quando eu me mudei, estudei com vários indianos e paquistaneses e trabalhei com iranianos e novamente com coreanos. E em cada um desses casos eu fazia questão de conhecer o máximo da cultura deles.
Mas, claramente, eu só posso ter a Etiópia como a minha favorita. País onde meu esposo e toda a sua família nasceram. A família dele vieram para o Canada quando o meu marido tinha os seus 18 anos. E eles são pessoas que mesmo eu sendo de uma cultura diferente me receberam de braços abertos. E sou muito sortuda de terem eles como família perto de mim. Inclusive, muitas das nossas bases culturais são bem parecidas.
- Você criou um negócio lidando com a culinária brasileira, como, quando e por que começou? Como você surgiu com o nome Suflê?
Sinceramente, por mais que eu sempre tenha gostado de cozinhar eu nunca imaginei que estaria fazendo o que eu faço hoje. Em 2019, eu fiquei um tempo sem visto de trabalho, pois o meu PR estava sendo processado. Então fiquei ali uns 6 meses sem poder trabalhar, quando finamente eu recebi a permissão de trabalho o COVID veio. Eu cheguei a fazer varias entrevista uma semana antes do lockdown, mas todas tiveram que esperar para continuar o processo de contratação. E nesse momento, as minhas economias foram se acabando.
Durante o tempo que eu ficava em casa, eu tinha uma amiga que volta e meia pedia para eu fazer bolo de cenoura para ela. Ela comprava os ingredientes e eu preparava, e foi ela, Vanessa, e o meu esposo que me incentivaram a fazer um Instagram e começar vender ali no bairro mesmo.
Acabou que eu tive muita sorte de morar em uma área com muitos brasileiros, inclusive no prédio que eu morava, na Yonge e Eglinton. Eu imprimi um papel falando que eu estava começando a vender alguns produtos e direcionando ao meu instagram e colei perto do elevador no andar da . E foi aí que as pessoas começaram a me conhecer. Eu na verdade, até então, nem sabia que existia tantos brasileiros daquela área. Pois tinha me mudado para lá para morar com o meu atual esposo há pouco tempo.
E algo que deveria ter sido só temporário está ai até hoje.
O nome Suflê, não é referencia ao prato, por mais que minha mãe tenha uma receita de suflê de chuchu maravilhosa, na verdade, Suflê é o meu apelido desde do 7° ano. Eu tinha acabado de começar nessa escola nova e algumas pessoas começaram a me chamar de Suelen por engano. Aparentemente tinha uma aluna no ano anterior ao que entrei que era muito parecida comigo e se chamava Suelen, e alguns amigos começaram a brincar tentando misturar o nome Suelen e Fernanda. Sufe, Fesu, Felen… Até que alguém falou Suflê. Automaticamente virou meu apelido. E é muito legal vendo pessoas que não são dessa minha época de escola me chamando de Suflê hoje. Hoje daquele tempo eu ainda tenho um pequeno grupo de amigos que ainda me chamam só de Suflê.
- Qual o maior desafio em abrir um negócio no canadá?
Acho que muitos dos desafios são semelhantes aos do Brasil. Eu tive o meu esposo para me ajudar no inicio comprando as primeiras embalagens, a minha cunhada que me emprestada o carro para eu entregar em alguns lugares mais distantes e varias outras pessoas que me ajudaram de alguma forma. Mas o maior desafio pessoal meu é que eu ainda faço tudo sozinha. Eu tenho um excelente amigo, Daniel da accent branding que criou a linguagem e o visual do Suflê, quando eu percebi que realmente esse hobbie virou negócio, mas no geral sou eu que cozinho, faço compras e entrego. E definitivamente esse é a parte mais desafiadora. Há uns dois anos eu tive que dar uma pausa do Suflê por uma questão de saúde e depois voltei bem aos poucos, de 30 produtos que eu tinha antigamente, no momento eu só tenho 5. Ainda estou passando por uns desafios de saúde. E por essas pausas e irregularidades que eu até hoje não tive condição de colocar alguém para me ajudar. Eu finalmente estou numa etapa final dessas minhas questões de saúde e acredito que em Junho estarei voltando com muitas novidades e quem sabe com alguém para se juntar no grupo Suflê.
- Qual o prato brasileiro você recomendaria para um canadense?
Strogonoff é um prato que dificilmente desagrada qualquer gringo. As vezes é mais fácil desagradar um brasileiro, porque todo brasileiro tem uma referência de como o strogonoff é feito na sua casa. Vai Ketchup? Vai mostarda? Vai molho de tomate? Cogumelo? Azeitona? Milho? E por ai vai. Inclusive foi um dos primeiros pratos que eu fiz para a família do meu esposo.
Agora se a gente for pensar em doce… Bolo de cenoura com cobertura de brigadeiro também não tem como não gostar. Podem até entortar o nariz achando estranho a mistura de cenoura com chocolate, mas é só provar eles passam a entender o carinho que a gente tem desse prato. Inclusive eu tenho um cliente canadense de descendência chinesa que sempre pede 4 bolos de cenoura de 2 em 2 meses. Ele já apresentou esse bolo para todos que ele conhece. E mesmo sem nenhum evento para levar o bolo, ele compra para congelar as fatias e ir comendo de pouco em pouco
- O que a Fernanda de hoje diria para a Fernanda que estava chegando no Canadá?
Se eu pudesse falar algo para a Fernanda que estava ainda pesquisando sobre o que estudar no Canada, eu definitivamente iria falar para cursas gastronomia. Mas para a Fernanda que estava chegando eu diria para ter paciência, você vai conhecer pessoas maravilhosas e finalmente vai ter a independia que procurava ter. Mas também para nunca sair do seu primeiro apartamento alugado que na época eu só pagava $800.
- Quando pedimos que você nos fornecesse uma receita para publicar, por que você escolheu esta receita de bacalhoada?
Ok, talvez essa receita que vou passar deixe algumas pessoas revoltadas, mas de uma chance.
É uma bacalhoada com molho de tomate.
O primeiro ano que eu vendi bacalhoada para a pascoa eu coloquei a versão com e sem molho de tomate. Tive muitas pessoas falando que nunca nem ouviram falar de bacalhoada com molho de tomate. Fiquei surpresa, porque para a minha família ter o molho de tomate é fazer a bacalhoada de verdade. Pelo menos para a minha família materna de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo.
– 3 pimentões vermelho
– 3 pimentões amarelo
- 3 pimentões verde
- 300g de azeitona (de preferência em rodelas)
- 5 cebolas
- 10 tomates picados
- 3 cabeças de alho
- 4kg de bacalhau
- 3kg de batatas
- 1 litro de azeite
- sal e pimenta a gosto
- salsinha para finalizar
Essa é a proporção que usamos quando fazemos a bacalhoada na minha família, claro que todos os itens podem ser colocados a gosto
Você pode comprar o bacalhau já dessalgado, mas eu sinto que ele perde um pouco o gosto, prefiro dessalgar em casa. Deixe todo o bacalhau coberto por água e vai trocando essa água a cada 3 ou 4 horas, pelo menos 4 vezes, mas você vai percebendo o sal diminuindo pela claridade da água; Não precisa se preocupar em deixar ele sem nada de sal. Ele vai ajudar a salgar os demais elementos da receita.
Outro preparo antecipado que você pode fazer, mas não é obrigatório é queimar a pele dos pimentões para tirar a caspa. A casca do pimentão é o que da indigestão em algumas pessoas. Se você tiver um fogão a gás é só colocar o pimentão em um garfo e ir rodando ele perto do fogo até queimar ele todo por fora. Assim que ele ficar todo queimado, você joga eles em uma bacia com agua e vai esfregando os pimentões até sair toda a casca. Infelizmente eu não tenho fogão a gás, então eu uso um maçarico, mas claro que não é todo mundo que tem um em casa, nesse caso você pode deixar com a casca ou tirar a casca com descascador de vegetais, mas nesse caso você perde o defumado que fica.
Pimentão pronto e Bacalhau defumado a gente começa o preparo do prato.
Corte bem fino os pimentões, as cebolas e, principalmente as batatas. E quebre o bacalhau em pedaços menos com as mãos.
Caso você prefira usar um molho de tomate pronto, você pode pular a próxima etapa.
Refogue o alho e a cebola em azeite. Assim que começar a dourar, coloque todo o tomate picado e vai amassando com um amassador de batata. Nisso você vai criando o seu próprio molho de tomate. Na minha família, não temos o costume de tirar a pele do tomate nessa preparação, mas você pode optar por fazer isso também.
Adicione um pouco de água e deixe cozinhar em fogo baixo até começar a ter a aparência de um molho de tomate. Caso você queira um molho, mais liso, você pode bater ele em um liquidificados, só cuidado caso o liquidificador seja feito de vidro. Pessoalmente, eu prefiro com uns pedacinhos de tomates.
Nesse molho de tomate, você pode adicionar as azeitonas, um pouco de sal e pimenta. E caso queira uma cor mais marcante para o molho, você pode adicionar um pouco de páprica ou coloral.
Agora vamos para a montagem.
Em uma panela ou frigideira alta, você vai preparar esse prato em camadas
Começando com uma camada de azeite, em seguida batatas, molho, bacalhau, pimentão e volta com o azeite e vai fazendo camadas até acabar os ingredientes.
Azeite é primordial nessa receita, você não necessariamente vai usar o litro de azeite, mas você vai regando a cada camada.
Terminando as camadas, coloque a tampa e deixe cozinhar em fogo médio. A bacalhoada está pronta quando a batata estiver cozida.
Sirva com arroz e salsinha.
Ficarei aguardando feedbacks de quem testar essa receita.
- Você gostaria de acrescentar algo?
Eu sou gostaria de agradecer a minha família, que coloca a mão na massa se eu precisar e a todos os meus amigos e clientes fiéis que me ajudam a divulgar o meu trabalho.















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