
O encontro entre diferentes culturas amplia repertórios e inaugura novas formas de criação. Nascida no Brasil e radicada no Canadá há 27 anos, Geisa Roveri construiu uma trajetória artística que atravessa territórios geográficos, estéticos e afetivos. Especializada na recriação de móveis, ela transforma cada peça em algo único, revelando histórias, identidades e um olhar atento ao tempo, ao cuidado e à singularidade dos materiais.
Criada em uma família bastante ligada às artes, Geisa conviveu cercada por referências criativas que, por muito tempo, lhe pareceram mais desafiadoras do que acolhedoras. A distância física e simbólica em relação às suas origens e à família despertou um desejo de reconexão. Foi na cultura brasileira que ela encontrou as referências essenciais das quais precisava, ou seja, o afeto pelo fazer manual, o respeito pelo artista e a valorização da singularidade do fazer.
Se o Brasil lhe deu a herança e a sensibilidade, o Canadá ofereceu a estrutura necessária. Ali, Geisa encontrou o acesso a materiais de alta qualidade e a proximidade com mestres europeus, criando o ambiente ideal para experimentar e evoluir. Hoje, o seu trabalho se equilibra entre o rigor técnico e a liberdade poética.
A relação do mobiliário como meio artístico surgiu de forma orgânica. Inicialmente atraída por linhas limpas e acabamentos minimalistas, Geisa passou a se interessar pelas reações entre tintas, vernizes e madeira. Pintar móveis deixou de ser suficiente, e eles passaram a ser telas. Para a artista, os móveis não precisam se limitar à função original, pois podem ser pontos de encontro, provocações visuais e portadores de memória.
Essa visão explica a sua escolha pela transformação, e não pela restauração tradicional. Embora respeite esse ofício, Geisa encontra inspiração em reinventar. Para ela, um móvel esquecido pode ganhar nova linguagem sem perder a sua história. Entre o boêmio, o mid-century e peças de aparência museológica, as possibilidades são infinitas. E vale destacar que, muitas vezes, é o próprio objeto que indica o caminho.
No Canadá, o público responde com curiosidade e envolvimento. Muitos clientes levam peças herdadas, pedindo que o vínculo emocional seja preservado, mas atualizado. O processo é colaborativo e o resultado vai além de um móvel renovado: é um objeto que reescreveu a sua trajetória.
Criar em um mercado que privilegia o institucional e o monocromático é desafiador, mas Geisa vê nisso uma oportunidade de diálogo. Embora a produção em massa ainda predomine no Canadá, mercados como o dos Estados Unidos já demonstram maior abertura ao mobiliário transformado.
Grande parte de suas criações nasce de móveis simples ou esquecidos. Para Geisa, é inconcebível conviver com objetos que não despertem algum sentimento. Cada peça resgatada é também um gesto de consciência ambiental e uma oportunidade de aprofundar o seu processo criativo.
Ao dizer que os seus móveis têm alma, a artista se refere às memórias: mesas de almoços de domingo, cadeiras que acolheram gerações e objetos marcados por histórias cotidianas. Dar nova vida a essas lembranças é, para ela, uma maneira de honrar o passado sem impedir que o móvel pertença ao presente.
Entrevista com Geisa Roveri
WAVE MAGAZINE – Você nasceu no Brasil e vive no Canadá há 27 anos. Como essa vivência entre culturas influenciou a sua identidade artística?
GEISA ROVERI – Eu venho de uma família muito artística no Brasil, algo que, por muito tempo, me intimidou. Foi justamente a distância entre mim, minhas raízes e minha família que trouxe a necessidade de uma reaproximação, ainda que etérea. A riqueza da cultura artística brasileira e o carinho que o brasileiro nutre pelo artista, do poeta de cordel ao artesão, passando pelos grandes precursores, foram molas propulsoras para que eu pudesse, como artista, acreditar na possibilidade de canalizar a minha criatividade. O Canadá me ofereceu o habitat, com acesso a materiais de alta qualidade e uma distância relativamente curta entre mim e alguns dos meus mestres na Europa. O Brasil me presenteou, e continua me presenteando, com a herança artística da minha família, o amor pelo feito à mão e uma riqueza histórica e cultural que nunca deixa de me surpreender.
WAVE MAGAZINE – Em que momento você percebeu que o mobiliário poderia ser mais do que funcional, um meio de expressão artística?
GEISA ROVERI – Para mim, isso foi um processo. No início, eu utilizava tintas e técnicas comerciais, primer e tinta spray, buscando um visual moderno, limpo e minimalista. Esse período de simplicidade me levou a querer entender a reação química das tintas e vernizes em relação aos diferentes tipos de madeira. Era como se algo estivesse comprimido e que precisasse de um canal de expressão. Apenas passar uma demão de tinta nos móveis já não me interessava. Foi quando compreendi que móveis são canvas, telas onde diferentes artistas se expressam de maneiras distintas. Foi, sem dúvida, um processo de crescimento, autoconhecimento e de reconhecer com humildade que há beleza no imperfeito, no desajuste e no não padronizado. Uma mesa não precisa ser apenas uma mesa. Ela pode ser um ponto de encontro, um assunto, um elemento de decoração e ainda assim cumprir sua função. Não existem regras que impeçam um guarda-roupa de ser mais do que um simples armazenador de roupas. Essas regras foram criadas pela produção em massa de mobiliário e itens decorativos. Móveis podem e devem contar uma história, além de cumprir a função para a qual foram criados.
WAVE MAGAZINE – O que te levou a escolher o caminho da transformação e não apenas da restauração de móveis antigos?
GEISA ROVERI – Transformar móveis é, para mim, reinventar e desordenar um padrão. Eu acredito profundamente na restauração e respeito muito os artistas que vivem disso, mas não a vejo como o meu processo criativo. Transformar peças em móveis únicos é o que me inspira. Para mim, transformação pode significar pegar uma carteira escolar dos anos 1950 e reinventá-la como uma penteadeira. Ao mesmo tempo em que respeito a estética original do móvel, me permito criar uma nova história, uma nova função e um aprimoramento na sua linguagem visual. A transformação também me permite experimentar uma gama enorme de técnicas e estilos, do boêmio ao farmhouse, do mid-century a peças que parecem terem sido de um museu. As possibilidades são infinitas e, muitas vezes, são os próprios móveis que me mostram qual caminho seguir.
WAVE MAGAZINE – Como o público canadense reage ao seu trabalho? O que as pessoas aqui do país preferem?
GEISA ROVERI – O interesse pela transformação de móveis é bastante grande. O público consegue perceber que está diante de arte, e não apenas de um móvel pintado com uma cor moderna. Muitas pessoas me trazem peças herdadas ou móveis que já não conversam com o estilo atual da casa, pedindo que eu crie algo que preserve o vínculo emocional, mas que fale uma nova linguagem. Para mim, é essencial escutar a história do dono do móvel e compreender o resultado que ele busca. Juntos, escolhemos a paleta de cores, discutimos técnicas e possibilidades. A partir daí, o processo se torna orgânico. O resultado é um móvel que reescreveu a própria história por meio de um catalisador artístico. Se a peça continuará sendo importante daqui a 20 anos é irrelevante. Assim como as histórias mudam, mudam também os móveis que as acompanham. Meus clientes entendem isso.
WAVE MAGAZINE – Você comenta que o mercado norte-americano tende a buscar peças mais institucionais e monocromáticas. Como é criar arte em um ambiente que nem sempre está aberto ao diferente?
GEISA ROVERI – É desafiador e, ao mesmo tempo, estimulante. Historicamente, muitos artistas apresentaram ideias novas e tiveram inúmeras portas fechadas antes que alguém se interessasse pelo seu trabalho. Eu não me considero uma pioneira, mas confesso que me acostumei com portas fechadas. Cada porta que se fecha cria uma oportunidade de educar com cuidado o público sobre a importância de investir em arte sustentável e funcional. É comum ouvir que uma casa moderna não combina com as minhas peças. Eu vejo isso como um ponto de partida para introduzir a ideia de visuais ecléticos e contrastantes. Algumas peças de mobiliário são atemporais, mesmo pertencendo a períodos históricos ou estilos diferentes. Não acredito que tudo precise combinar, nem que tudo precise ser institucional ou monocromático. Levar essas ideias a um público acostumado à produção em massa é, de fato, desafiador. Ainda assim, eu só preciso de um comprador para cada peça. O trabalho é extremamente individualizado e único. (…)
Os Estados Unidos estão um pouco à frente do Canadá nesse aspecto. Na Carolina do Sul, Texas e Geórgia existe um mercado de antiguidades e mobiliário upcycled vibrante e em plena atividade. Acredito que seja apenas uma questão de tempo até que o Canadá chegue a esse mesmo estágio. (…)
WAVE MAGAZINE – Muitas das suas criações partem de móveis comuns ou industriais. O que mais te atrai nesses objetos esquecidos?
GEISA ROVERI – A versatilidade. Móveis pequenos, que não chamam atenção pela construção ou pelo estilo, podem ser transformados de inúmeras formas. Acredito que seja uma grande perda conviver com um objeto mobiliário que não desperta absolutamente nenhum sentimento. Estantes, gaveteiros e pequenas mesas de canto podem contar histórias, decorar, embelezar o ambiente e gerar novas conversas. Na minha opinião, é inconcebível não encontrar beleza e função no imperfeito, no pequeno ou no esquecido. Além disso, cada objeto abandonado ou esquecido representa uma oportunidade não apenas de exercer a minha consciência ambiental, tanto no uso de produtos naturais quanto na reutilização do móvel, mas também de explorar um processo criativo que há até bem pouco tempo eu sequer sabia que existia em mim.
WAVE MAGAZINE – Você costuma dizer que seus móveis têm “alma”. O que dá alma a uma peça para você?
GEISA ROVERI – Toda peça carrega uma história: a mesa que testemunhou os almoços de domingo, conversas despretensiosas e reuniões importantes. A cadeira de balanço que acolheu avós tricotando, mães amamentando ou pais lendo o jornal no fim de semana. O banco de onde se assistiu ao jogo de futebol, ou se deu o primeiro beijo. A mesa de centro marcada pelos anéis deixados por uma xícara de café esquecida, porque a conversa estava boa demais para ser interrompida. Essas histórias constituem a alma de um móvel. Para mim, é uma honra imensa poder dar nova vida a essas memórias, honrando o passado e, ao mesmo tempo, criando a ponte que permite que o móvel pertença ao presente sem esquecer o que ele já foi. Respeitar essa simbiose, para mim, é compreender que as peças têm alma.
WAVE MAGAZINE – O upcycling é um pilar do seu trabalho. Como você enxerga o papel do artista na discussão sobre consumo e sustentabilidade?
GEISA ROVERI – Essa é, para mim, a parte mais importante do meu trabalho. Cada peça transformada, além de ter sua carga emocional revalidada, representa também um pedaço de madeira que escapou do esquecimento e do descarte. Quanto mais conseguimos resgatar essas peças, menor é a pegada de carbono que deixamos pelo caminho.
Meu trabalho depende de materiais naturais e artesanais, como caseína, cola de coelho, gesso, sal e pigmentos naturais. Grande parte do processo criativo envolve o uso desses materiais em detrimento de produtos fabricados em massa. O resultado é uma arte intencional, paciente e consciente. Seria fácil utilizar tintas comerciais, mas isso iria contra a minha convicção de oferecer uma arte sustentável do início ao fim, da qual eu possa me orgulhar. Os materiais que utilizo são os mesmos empregados em períodos muito antigos da história ou produtos nos quais eu confio por serem elaborados com consciência ambiental e responsabilidade sustentável.
WAVE MAGAZINE – Que conselho você daria para artistas que trabalham fora do eixo tradicional da arte e do design?
GEISA ROVERI – Durante essa jornada, eu recebi muitos conselhos, dos quais nunca me esqueci. Com o tempo, porém, aprendi que nenhum é mais valioso do que a escuta atenta da própria intuição. Trabalhar fora do eixo tradicional exige resiliência, paciência e convicção. É um caminho solitário em muitos momentos, no qual a validação externa nem sempre chega no tempo esperado. Portas se fecham, silêncios se prolongam e o reconhecimento, quando vem, costuma ser tardio. Ainda assim, é nesse espaço que uma linguagem própria se constrói.
O meu conselho é simples, mas exige coragem: respeite o seu tempo, aprofunde o seu processo e não negocie a sua identidade criativa em troca de aceitação imediata. Aprenda a trabalhar e conviver com as tendências, sem comprometer a sua essência. Buscar excelência técnica é fundamental, assim como compreender o contexto histórico, cultural e material do que se produz. Mas é o tumulto interno que transforma trabalho em obra. Criar fora do eixo tradicional não significa estar à margem. Muitas vezes, significa estar à frente e esperar que portas se abram. O público certo um dia conhecerá e responderá.















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