Entrevista com Marina Varella, St. Catharines, Ontário

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Transcrição da entrevista, em áudio, com Marina Varella: St. Catharines, Ontário

Eu sou o Christian Pedersen e, neste episódio (de Ontário Não é só Toronto) , conversamos com Marina Varella. Ela veio ao Canadá, pela primeira vez, para estudar inglês em Vancouver e, na época de estudante, se apaixonou pelo país. Acerca de dois anos, Marina e o marido decidiram se mudar para o Canadá. O casal reside em St. Catharines, que é a maior cidade da região de Niágara, conhecida como a Cidade Jardim pelos diversos parques e praças que existem por lá. St. Catharines é a sexta maior cidade da Província de Ontário e, por rodovia, fica a mais ou menos 112 km ao sul de Toronto e apenas a 19 km da fronteira internacional com os Estados Unidos, que é definida pelo rio Niágara.

Christian: Olá, Marina, tudo bom?

Marina: Olá! Tudo joia, Christian, e você?

Christian: Tudo ótimo! Marina, seja bem-vinda! Primeiro, nos conte por que você escolheu Vancouver para estudar? Você esteve lá antes dessa fase de Ontário.

Marina: Eu era mais nova e queria estudar inglês. Na época, eu queria Irlanda ou Canadá. Acabei me decidindo pelo Canadá. Eu conheci umas pessoas que já tinham ido para Vancouver, daí eu li um pouco…, e fui né? Fui para estudar inglês. Fiquei por seis meses e foi quando eu me apaixonei! Tive a oportunidade de conhecer bastante o Canadá, nessa vinda. Depois de seis meses, eu fui para Toronto, Montreal, Quebec e Ottawa.

Christian: Pelo menos vocês puderam conhecer bastante o Canadá.

Marina: Foi. Eu acho que eu viajei mais nesses seis meses do que neste um ano e meio que eu estou aqui, agora. Porque, agora, eu estou trabalhando e não dá tempo.

Christian: E aí, você voltou para o Brasil?

Marina: Eu voltei para o Brasil para terminar a faculdade e aí comecei a trabalhar. Eu, com o meu namorado (agora meu marido, mas na época a gente namorava), a gente com aquela ideia de ir embora do país e ele não conhecia o Canadá. Foi quando a gente decidiu vir para o Canadá para ficar um mês, estudando inglês. Fizemos um intercâmbio e ficamos em homestay. Foi em 2017.

Christian: Como foi a experiência para vocês?

Marina: Foi bacana! Para mim não era novidade, porque eu já tinha tido essa experiência em Vancouver. Mas pro meu marido foi! No finalzinho da viagem, a gente teve um pouco de problema com a homestay por questão de higiene, de comida…, só que eu não me importava tanto porque a gente comia muito fora. Então, não foi tanto problema. Nessa mesma viagem, eu me lembro de que muita gente teve muito problema com o homestay. Engraçado, porque, em Vancouver, eu nunca escutei nenhum problema (pelo menos no período que eu estava lá). Mas, em Toronto, eu escutei alguns problemas que as pessoas tiveram. Mas, o nosso, deu para a gente resolver… Mas foi uma experiência boa! Até porque tinha mais estudantes na casa. Então, o tempo que eu estava com meu marido e tinha algum estrangeiro, a gente estava sempre falando inglês. Então, foi uma experiência melhor do que se a gente tivesse ficado em um Air BNB ou em algum lugar só nós dois, porque a gente ficaria o tempo todo falando português.

Christian: Aí vocês voltaram para o Brasil, ficaram um tempo e decidiram voltar para cá, certo?

Marina: Aí, quando a gente veio para ficar esse um mês, em 2017, foi que a gente decidiu que voltaria [para o Canadá] para morar. Só que nessa época, a gente não tinha certeza de onde. O meu marido queria fazer gastronomia (na época ele trabalhava com logística, nada a ver com gastronomia, né?). E aí, a gente estava em dúvida. A primeira cidade que a gente viu foi Toronto. Só que em questão do custo de vida, nós começamos a pesquisar outros lugares. Só que a gente pensou em Ottawa e London. Quando a gente entrou em contato com uma empresa de consultoria, ela apresentou para gente o Niagara College. Então, a gente começou a pesquisar região, a pesquisar o Niagara College (que é muito bacana!). Até tem o curso de cervejaria, que é o segundo curso que meu marido também é muito encantado, porque a gente fazia cerveja no Brasil. E o College também é bem completo. A gente deu uma pesquisada legal, antes. E aí, foi que a gente decidiu… ah! outra coisa também, que a gente começou a pesquisar o custo de vida na região de Niágara e a diferença é muito grande de Toronto! É muito grande! Um aluguel chega a ser 40% mais barato. Com isso, a gente decidiu. Na época, nós entramos em grupo de Whatsapp de London e da região de Niágara. Foi até legal porque eu entrei em contato com algumas pessoas de London, para saber como é que era, para saber a questão de transporte e tudo mais.

Christian: Quando você veio, na primeira vez, você chegou a ir a Niagara Falls ou só depois, quando você veio na segunda vez?

Marina: Em 2010, quando eu vim para Toronto, eu não vim para Niagara Falls. Porque eu me lembro de que estava nevando muito e acabou que eu decidi não vir para Niagara Falls. Na segunda vez que nós viemos, agora, em 2017, nós viemos passear em Niagara Falls, mas eu não fazia ideia que a gente ia morar aqui! Porque, para mim, Niagara Falls não passava das cataratas, daquele centro o turístico e acabou. Eu nem imaginava tudo o que tem na região, que é uma região muito bacana para se morar!

Christian: Qual a razão que fez vocês quererem sair do Brasil? Foi aquela coisa de violência?

Marina: Na verdade, eu estava muito insatisfeita com o meu emprego. Acho que uma coisa que pesou bastante foi essa falta de valor que eu sentia no Brasil. Ainda mais no interior! A gente é do sul de Minas, do interior. Eu estudei engenharia e recebia muito mal lá. Então, eu vivia muito insatisfeita com isso. E muito essa questão também, de conhecer outras culturas, melhorar o inglês…. isso pesou muito. Todo mundo fala muito que aqui há relação da segurança e qualidade de vida. Em relação à segurança, eu nunca tive problema porque sendo do interior… apesar de hoje em dia, estar um pouco perigoso, não tem como comparar com o Rio [de Janeiro] e São Paulo, né?

Christian: E como a Marina foi parar em St. Catharines. Como foi isso?

Marina: Quando a gente veio, a gente ficou em um hotel por uma semana para alugar um apartamento aqui. E foi aqui que a gente decidiu. Como o campus do [college do] João é em Niagara-on-the Lake, é mais fácil a gente morar em St. Catharines do que morar em Niagara Falls. Niagara Falls até também tem ônibus, mas, onde a gente mora, é bem perto! Apesar de ser outra cidade… por exemplo, de carro da minha casa até o campus, são 10 minutos. Então, é bem perto. E a gente decidiu assim: St. Catharines é a maior cidade da região. E apesar de não ser muito grande, aqui tem 130 mil habitantes. No Brasil, a minha cidade tem uns 90 ou 95 [mil habitantes] e não tem nada! Comparado a uma cidade no Brasil de 130 mil habitantes, aqui tem tudo. Eu não tenho que reclamar! Apesar de ter gente que reclama, que fala que aqui é interior e não tem nada para fazer. Eu vim de uma cidade que não tem nada, então para mim tem shopping, tem cinema, tem tudo! Eu não tenho do que reclamar. A gente acabou encontrando um apartamento aqui e foi por isso que a gente decidiu morar aqui. Mas, eu moraria também… não sei ainda, depois que o João se formar, pode ser que a gente more em Niagara Falls, em Welland, ou em alguma outra cidade aqui da região. Se a gente for ficar por aqui. Por ser tudo muito perto, né?

Christian: E como foi encontrar um lugar para morar na região? Foi difícil? Vocês procuraram em vários lugares ou foi uma coisa que até nem foi tão complicada?

Marina: Nós chegamos em maio do ano passado, então, foi tranquilo. Porque dizem que em setembro é bem difícil. Porque o ano letivo começa em setembro, muitos cursos… no Niagara College, poucos cursos começam em maio, então foi bem tranquilo. Quando nós chegamos, foi bem corrido até, porque nós chegamos em uma quinta-feira e as aulas começaram na segunda-feira. Foi bem em cima da hora! Na sexta-feira nós começamos a procurar apartamento. No sábado, a gente aplicou… foi bem rápido! Porque na sexta-feira nós olhamos uns cinco apartamentos e eu gostei de onde a gente mora, hoje em dia. A gente aplicou no sábado e, na segunda, nós fomos aprovados. Mas, eu conheço pessoas que tiveram mais dificuldade. Que demoraram um pouco mais de tempo para encontrar um lugar para morar.

Christian: Vocês estão em uma área central de St. Catharines ou é mais residencial?

Marina: Tem tudo o que eu preciso aqui perto de casa. Mas, é mais residencial aqui, sim. Nós chegamos de carro, mas tem um ponto de ônibus bem em frente a minha casa. Se eu andar um quarteirão, tem outro ponto. Então, tudo isso influenciou também na nossa decisão.

Christian: Então, é fácil se movimentar por aí na região.

Marina: Eu acho. Eu não sei se é porque antes de eu vir, eu escutei tanta coisa ruim sobre o transporte público daqui… que, para mim, eu não acho tão ruim assim. Eu não posso comparar com Toronto. Muito menos com Vancouver, que tem o transporte público… eu me lembro que, se o ônibus estava cheio em Vancouver, eu falava: “vou esperar o próximo”, que era dali a cinco minutos. Aqui, não. Aqui eu tenho que esperar meia hora. E final de semana e feriado é a cada uma hora, o ônibus. Outra coisa ruim aqui, na questão do transporte público, é que, por exemplo, no final de semana não funciona o ônibus regional. Então, se eu moro em St. Catharines e trabalho em Niagara Falls, eu não vou ter ônibus [regional]. Eu vou ter que pegar algum outro ônibus. Tem um ônibus o “Go” que vem de Toronto (que é até mais caro), porque o regional não funciona. Isso é ruim. Mas, como eu trabalho em St. Catharines e moro em St. Catharines, quando eu preciso pegar o ônibus, para mim não é problema.

Christian: Aí você teve que comprar um carro?

Marina: É. Porque o meu marido começou a trabalhar em Niagara Falls. E trabalhando em restaurante, saindo tarde e não tinha ônibus. A cada volta [para casa], o Uber era Can$30.00 a Can$35.00. A gente estava gastando mais de Uber do que se tivesse comprado um carro. Foi aí que a gente decidiu. Aqui nessa região, ter carro faz diferença. Mas, quem não tem carro consegue viver, mesmo no inverno.

Christian: E falando em inverno, você passou o primeiro inverno 2019/2020. Como é que foi?

Marina: Dizem que foi muito mais tranquilo do que normalmente é. Sinceramente, eu achei bem tranquilo. A parte mais chata que eu achei, foi ter que limpar o carro. Porque a garagem não é coberta, essas coisas… tipo: “eu tenho que acordar mais cedo, porque eu tenho que limpar o carro para ir para trabalhar”.

Christian: Qual foi a parte mais difícil dessa mudança toda?

Marina: A nossa espera do visto foi muito difícil para a gente! A gente teve até um probleminha. A gente pagou pelo college (até nem foi culpa do college) e, quando aplicaram, já tinham sido encerradas as vagas internacionais. Então, era para a gente ter vindo em janeiro de 2019 e nós só conseguimos vir em maio de 2019. Então assim, a gente já não estava mais trabalhando, já estava organizando tudo e aquela espera e ansiedade pelo visto!… porque ainda corria o risco de ser negado, né? Quando eu cheguei aqui, apesar de todo mundo falar para mim “olha fica tranquila, você vai chegar e você vai conseguir um emprego”, eu tinha muito medo, sabe? Eu tinha muito medo de não conseguir um emprego. Por que a gente chega e está gastando em real. É tudo muito caro para a gente, quando a gente chega! Eu sofri bastante no início, de ansiedade por conta do emprego. Que foi uma coisa que, realmente, é questão de tempo e a gente consegue emprego aqui. Eu acho que, aqui, só não trabalha quem não quer. Eu falo “quem não quer” porque tem gente que é muito exigente. Pelo menos, aqui na região, todo mundo consegue emprego.

Christian: Você já tinha inglês fluente quando chegou aqui?

Marina: Não e nem é fluente ainda, não! Na verdade assim, eu me viro, né? Mas, eu passo perrengue todo dia! É gente falando rápido, é gente que eu tenho que perguntar de novo… porque eu trabalho no Walmart e tem gente pedindo coisas, que eu não sei nem o que é, em português! Imagina! E aí eu pesquiso e me viro no dia a dia. Mas eu ainda tenho uma insegurança com o meu inglês.

Christian: Então para se chegar aqui sem inglês algum, não é uma boa ideia….

Marina: A gente vê muito na internet, que pode vir sem o inglês, que é fácil. Eu não acho que seja! Eu tenho uma amiga que veio sem inglês. Ela tem um canal no Youtube e ela fala disso: “Estudem antes, no Brasil”. Porque o pessoal fala muito: “não…. você pode ir tranquilo. Vai sem o inglês, que você aprende rápido”. Mas a gente sabe que a realidade é outra, né? Até porque o inglês de uma sala de aula é completamente diferente do inglês da vida real.

Christian: E como é o inglês do seu marido? Como foi para ele chegando à faculdade [college], no primeiro dia, com o inglês que ele trouxe do Brasil?

Marina: Ele fala que a minha gramática é melhor que a dele. Mas o inglês dele é melhor. Na verdade, o meu inglês, acho que o meu problema é o meu listening. O pessoal fala muito rápido aqui. Eu sempre brinco: “imagina um brasileiro caipira falando rápido!” é a mesma coisa! Porque tem horas que eu não entendo. São muitas gírias e o pessoal falando rápido! Eu não sei se ele é mais desenrolado, se ele pega as palavras ali mais importante e entende… não sei, mas ele…, na verdade, no primeiro dia de aula, eu me lembro que ele comentou de um professor que ele teve um pouco dificuldade de entender (não sei se o professor era escocês… eu não me lembro direito). Mas, para ele, foi bem tranquilo.

Christian: Foi fácil conseguir esse emprego? Antes, você trabalhou na Tommy Hilfiger.

Marina: É. Eu trabalhei na Tommy por 4 meses, mas não estava gostando. Então eu comecei a aplicar para o Walmart, porque eu ouvi dizer que era um ambiente bom para se trabalhar. Conheci um cara que trabalhava lá e aí eu apliquei para a vaga. Não foi difícil. Já faz um ano e um mês que eu estou lá.

Christian: Com o que você ganha, você consegue sobreviver bem aí em St. Catharines, no geral?

Marina: Se você for comparar com uma pessoa que trabalha em supermercado e ganha um salário-mínimo no Brasil, nunca vai ter a vida que a gente tem aqui. Nunca! Tipo comprar videogame, comprar os eletrodomésticos que a gente gosta, né? O poder de compra, aqui, é muito maior e dá para viver sim.

Christian: E sobre St. Catharines, o que você mais gosta e o que você menos gosta daí?

Marina: É diferente do Brasil. No Brasil, quando você precisa fazer alguma coisa, você vai ao centro e encontra tudo. Para o carro e faz tudo. Aqui, você depende do transporte (seja ele público ou o carro) para poder ir ao banco, ao supermercado… por ser tudo muito espalhado, aqui. Essa é a sensação que eu tenho aqui da região. Apesar de ser normal para eles, para mim é estranho. Eu gosto de St. Catharines, porque têm muitos parques e eu acho uma cidade linda (apesar de ter uma região mais feia, como em qualquer lugar). Aqui tem muita coisa gostosa para se fazer, relacionada à natureza. Então, dá para fazer trilha, dá para fazer piquenique e aqui tem o lago. Do lago daqui, a gente consegue ver a CN Tower [que fica em Toronto]. Eu gosto bastante da cidade! Eu falo que eu namoro aqui todo dia. Quando eu passeio eu acho tudo lindo aqui!

Christian: Vocês curtem o que a cidade oferece na área de lazer?

Marina: Hoje em dia, para mim está ótimo. Talvez, se eu fosse mais nova, não! Aqui só tem barzinho mais tranquilo. Aqui é uma cidade bem pacata! Para mim é gostoso. A gente gosta de conhecer cervejarias e isso tem bastante aqui! Restaurante… mas assim, não é animado. Aqui também tem a Brock, a universidade. Eles fazem muita festa entre eles. Mas o pessoal que trabalha comigo, que faz a Brock, reclama muito. Se eles querem sair, têm que ir para Toronto, porque aqui não tem muita coisa para se fazer. Então, por exemplo, um dia desses, eu fui a uma fazenda de abóbora. E aí, é um passeio porque o lugar é lindo! Todo o caminho é lindo para chegar até a fazenda.

Christian: E teve algum preconceito, alguma coisa no emprego, por exemplo, por você ser brasileira ou foi algo normal?

Marina: No trabalho, com quem trabalha lá, não. Até, por ter muito estrangeiro trabalhando lá. Mas, eu já senti preconceito sim, de cliente. Na hora que começa a perguntar: “e para quê é isso?” (porque tem coisa que eu não sei o que é). E a pessoa fala [de forma irritada]: “Ah! Esquece!” Daí você percebe que, se chega um canadense, a pessoa fica mais confortável de conversar. Isso existe, sim! Eu tenho amizade com o pessoal do trabalho, com canadenses e com os estrangeiros. Mas eu sinto que no trabalho, os canadenses são bem entre eles. Assim… eles conversam muito, são legais, falam para gente marcar para fazer alguma coisa, mas na hora de sair, eles saem entre eles. Isso até de andar entre eles, eu não vejo nem como um preconceito. Até porque meus amigos também são brasileiros.

Christian: E vocês têm planos de um dia saírem de St. Catharines?

Marina: Eu não quero sair daqui. Mas, tudo vai depender. Porque o João se forma em maio. Tudo vai depender… se surgir uma oportunidade de emprego em algum lugar, a gente vai. Mas eu, por mim, eu continuo aqui na região. Eu adoro morar aqui!

Christian: Você conhece muitos brasileiros?

Marina: Sim, mas aqui não tem muitos brasileiros não. Assim, meus amigos mesmo são brasileiros. Tem grupo de Whatsapp tal. Mas, comparado a Toronto, por exemplo, é uma comunidade bem pequena. Você não vai entrar no ônibus e escutar português, por exemplo. Talvez em Niagara Falls, porque tem muito turista.

Christian: E quais são as suas recomendações para quem está se mudando para St. Catharines?

Marina: É importante vir preparado financeiramente, para comprar um carro. Com seis meses aqui, a gente financiou o nosso carro. Mas eu falo assim, não para o dia a dia (para o dia a dia você dá um jeito), mas para poder conhecer a região. Porque a região é muito linda e tem muito lugar legal, mas que só dá para você passear e conhecer, de carro mesmo. E também, tem que estar preparado para o frio né. Porque isso é importante em qualquer lugar do Canadá. É engraçado, que eu falo, por exemplo, “agora, eu acho que deve estar uns 6°C” e daí, eu saio na varanda de chinelo, só de moletom… mas eu sinto que 6°C no Brasil, é muito mais frio do que aqui. É estranho isso. Eu não sei se o corpo da gente vai acostumando… eu acho que é bem isso.

Christian: E o seu marido está curtindo essa experiência?

Marina: Ele adora! Por ele também, a gente não sai da região, não. Tudo vai depender mesmo das oportunidades que virão. Se tiver alguma oportunidade fora, a gente tem que aceitar né? Nós só estamos começando a vida aqui. Então, no início, a gente ainda está na fase do perrengue. Dizem que os três primeiros anos são os anos do perrengue. E a gente ainda tá nessa ainda! Tomara que, depois dos três anos, passe! (rsrsr)

Christian: Mesmo no perrengue, vocês já conquistaram bastante coisa como carro, casa e emprego.

Marina: Eu falo isso do perrengue, mais por causa de tanta correria. Porque assim, muitas vezes no horário em que eu estou trabalhando, ele está em casa. Aí depois, eu estou em casa e ele está trabalhando. Eu falo mais por isso mesmo. Porque, nossa, não tem o que reclamar, não! Graças a Deus as coisas aqui acontecem muito rápido. As conquistas acontecem muito rápido, aqui, graças a Deus!

Christian: E falando em burocracia, foi muito fácil conseguir o carro, a casa? Rolou muita papelada… como é?

Marina: Na verdade nós compramos o carro até aí em Toronto, com um brasileiro. Quase todos os brasileiros aqui da região compram com ele, porque que ele consegue fazer o financiamento e tal. Ele só pediu para a gente preencher uns documentos. Eu entreguei a carta do meu trabalho, coloquei em anexo que eu estava trabalhando e meu marido fez a mesma coisa. E depois ele aprovou e falou: “olha, eu consigo aprovação até o valor tal”. E aí, a gente escolheu o carro e foi lá buscar. Foi bem fácil até, foi bem tranquilo.

Christian: Você acha que se não tivesse vindo com o seu marido, seria mais difícil? O fato de ele estar aqui com você facilita ou fica mais difícil?

Marina: Eu acho que ajuda eu ter alguém aqui, sim. Eu conseguiria me virar também, sozinha. Ainda mais nessa região, que é uma região que tem muito casal e muita família. Está aí uma dica também, que faltou dar! Talvez, para quem venha sozinho, não sei se é a melhor região. Até por ser pacato, também. Aqui tem a vantagem da questão financeira. Por ser um custo de vida mais barato, acaba sendo… tem essa vantagem. Mas essa questão de ser mais pacato mesmo. Eu acho que é um pouco mais difícil de você conhecer pessoas solteiras.

Christian: Vocês têm planos, sonhos de abrir um negócio próprio aí em St. Catharines, uma padaria, por exemplo?

Marina: É sonho, né. Acho que todo mundo, que chega aqui, tem um pouco esse sonho de abrir alguma coisa. Mas, a gente pensa, sim. Por enquanto, ainda não é nem o objetivo. É sonho mesmo. Porque a gente pensa em várias coisas! Mas, tomara que um dia dê certo. E dê certo, quem sabe, aqui nessa região mesmo. Eu tenho visto bastante, hoje em dia, de brasileiros estão na região de Toronto… você acha padaria, pessoal que faz coxinha, brigadeiro… tudo você tem aí [em Toronto], hoje em dia. Isso é muito legal.

Christian: Já tem alguém fazendo isso aí?

Marina: Não. Aqui, eu sei que vai abrir um marketing [mercado] de itens brasileiros, mas não sei direito como vai funcionar. Ainda não abriu. Mas, assim, a gente tem algumas coisas que a gente compra, que tem duas empresas que vêm de Toronto e que trazem aqui na região, para a gente. Aqui, em frente à minha casa, tem um lugarzinho que se chama Los Amigos. Na verdade, é mais coisa mexicana, argentina. Mas você acha suco de maracujá, farofa, polpa de maracujá… mandioca eu compro lá. É aqui perto da minha casa, então, quebra o galho!

Christian: E como fica o Brasil? Vocês têm planos ou pensam em um dia voltar a morar no Brasil?

Marina: Eu não penso em voltar para o Brasil, não. Eu não sei o que vai acontecer da minha vida. Ultimamente, eu estou no tal do: “nunca vou dizer nunca. Para nada!”. Mas eu só penso em voltar para visitar a minha família e meus amigos.

Christian: E agora que você tem um ano e pouco aqui. Qual a visão que você tem do Brasil? As coisas que acontecem por lá, as notícias que você recebe de lá. Como é que você vê, agora com um olhar, assim, mais estrangeiro?

Marina: Quando as pessoas veem alguma notícia no jornal e vêm falar para mim, eu falo assim: “não é bem assim o que mostram”. Porque, no fundo, eu fico com vergonha da situação e de tudo que tá acontecendo, hoje, no Brasil. Eu fico um pouco constrangida, para ser bem honesta. E aí eu fico triste, né? Porque a minha família está lá. Apesar de eu estar aqui, eu me importo com tudo o que está acontecendo lá. Em compensação, tem muita coisa que hoje eu dou muito mais valor ao Brasil.

Christian: Por exemplo?

Marina: A higiene. O brasileiro é muito preocupado com a higiene pessoal. A gente é diferente, em relação a isso. Infelizmente, eu não sei se é porque eu estou no interior [do Canadá] e isso também é pior, as pessoas não se preocupam com os cuidados dos dentes, de escovar os dentes (eu não posso generalizar, mas eu vejo muito isso). Até em relação à comida, eu acho que a gente se alimenta muito melhor. Nós, os brasileiros.

Christian: Que tipo de conselho você daria para a Marina que chegou aqui, há um ano e meio atrás?

Marina: À Marina que estava a caminho do Canadá, eu diria para aproveitar o tempo. Ao invés de ficar depressiva e ansiosa, eu diria para estudar mais o inglês e aproveitar mais o restinho do tempo com os pais e os amigos. Porque foi um momento muito difícil. Essa ansiedade me fez muito mal. Mas, para a Marina que chegou aqui, eu diria também, em relação à ansiedade, para não sofrer tanto, porque tudo aqui caminha muito bem. É tudo questão de tempo. Vai mandar currículo e, depois de um tempo, vai conseguir o primeiro emprego. Não deu certo? Procura outro emprego. Aliás, é um conselho que sempre o meu marido me deu: para ir mais tranquila e mais leve. Porque a ansiedade é muito ruim, atrapalha muito. E quem está vivendo, quem está recomeçando a vida, a ansiedade é difícil de a gente controlar. Mas, é importante aproveitar mais cada momento. A gente trabalha mais aqui. Hoje, eu sinto que eu trabalho mais. É mais corrido. Mas ter o retorno também é muito bom! No final do mês, você trabalhou, mas pode aproveitar. Coisa que muita gente, no Brasil, não tem condições: só trabalha e não consegue aproveitar. Aqui, a gente consegue aproveitar a vida um pouquinho, apesar da correria. Uma coisa que eu acho muito legal é que eu não sou mais a Marina que chegou. Em um ano e meio, eu tenho certeza que eu mudei muito! Eu cresci muito! E eu sou muito mais forte do que eu imaginava! Apesar de existir ainda a insegurança (porque eu falo da insegurança do inglês), eu tenho certeza que eu sou muito mais forte do que quando eu cheguei aqui. Eu acho que a pessoa tem que se dedicar. Estar aqui, já é tudo tão difícil… tem que se dedicar para melhorar o inglês. Eu vejo gente que está no Niagara College que fala assim: “nossa, eu tenho que estudar inglês”. Porque não é porque você teve uma boa nota no IELTS, está estudando em inglês, que acha que o inglês está bom. Pelo contrário! Tem que evoluir sempre!

A gente agradece a participação da Mariana Varella no nosso episódio do “Ontário não é só Toronto” e vale o esclarecimento de que as opiniões e experiências relatadas pelos nossos convidados não significam que será a mesma coisa para outra pessoa. O importante, desses episódios, é que as pessoas conheçam um pouco de como é morar e viver nesses lugares. Se você chegou até aqui, agradeço audiência e até o próximo episódio.