Entrevista com o duo português Lavoisier, no Canadá

O duo musical português, Lavoisier, em apresentação em Toronto

O duo português Lavoisier compartilha com a Brazilian Wave Magazine —em entrevista com a jornalista Mariana Schuetze, LJI Reporter— sua trajetória musical, as influências que moldaram sua identidade e os projetos que têm explorado ao longo dos anos. Com uma fusão única de tradições, influências de diferentes culturas e uma visão artística em constante transformação, os membros da banda, Patrícia Relvas e Roberto Afonso, discutem os marcos de sua carreira, a colaboração com as Cantadeiras do Campo de Gêres e a recente homenagem a José Afonso, ícone da música portuguesa. A entrevista também abre um pequeno espaço para o futuro da banda, com detalhes sobre o seu novo projeto musical.

WAVE: Para começar, vocês podem se apresentar e contar um pouco sobre o grupo Lavoisier? Como surgiu a banda e um pouco das influências de vocês?

PATRÍCIA RELVAS: Lavoisier começou há alguns anos, não sei exatamente quantos, talvez 10, 11 ou 12. Em Berlim, nós havíamos acabado de estudar nas Caldas da Rainha. O Roberto estudou imagem e som, e eu estudei design de cerâmica e vidro, que tem tudo a ver com música, claro. Depois, decidimos começar a fazer música. Já tínhamos alguns projetos mais informais e, quando fomos para Berlim, decidimos formar este duo chamado Lavoisier. Encontrar um nome foi muito difícil, mas o nome surgiu porque achamos que a música é isso, é transformação, certo? Não existe esse lugar de posse. Então, pensamos que o conceito “Na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma” seria perfeito para associar à música. Além disso, começamos a trabalhar com música tradicional portuguesa em Berlim. Foi lá que passamos a conhecer mais sobre a música tradicional, porque, muitas vezes, estando no próprio país, não conseguimos perceber essas coisas. Outro fator importante foi a influência da música brasileira, que sempre foi muito presente para nós. Também lemos um livro muito importante de Caetano Veloso, A Verdade Tropical, que falava muito sobre a antropofagia e a fusão de várias culturas. Também éramos filhos dos anos 80, então ouvíamos música do Paquistão, música brasileira, e de repente queríamos começar a ouvir também a música que vinha de nossa raiz, a música popular portuguesa. Então, essa fusão toda, com uma guitarra elétrica e duas vozes, o tropicalismo e a antropofagia em termos de conceitos, foi muito importante para nós.

ROBERTO AFONSO: Eu acho que tem tudo a ver com isso. Primeiro, havia uma necessidade de fazer música, porque tanto o background da Patrícia quanto o meu, em termos acadêmicos, não era relacionado à música. Não estudamos música formalmente. Fomos aprendendo por conta própria. Eu comecei a tocar guitarra bem tarde, mas houve algo que nos chamou, e em Berlim acho que encontramos o lugar ideal para começar, porque há muitas opções de lugares onde você pode apresentar seu projeto. E Berlim é uma cidade muito aberta a novos projetos, não é nada julgadora. As pessoas simplesmente iam aos nossos shows e gostavam muito do que fazíamos. Acho que isso nos deu ainda mais motivação.

PATRÍCIA: Acho que isso também aconteceu. Além disso, viemos de uma escola de artes, então, para nós, fazer música tinha que ter um conceito ou algo que fizesse sentido. Tivemos muitas reflexões artísticas sobre o porquê de fazer música e qual tipo de música queríamos fazer. Tudo isso foi importante. E Berlim, claro, sendo uma cidade cheia de artistas, também nos influenciou muito, porque todo mundo se influencia mutuamente. Queríamos fazer música e ter um espaço de pensamento, de reflexão, e tudo o que fazemos tem uma questão política, como é óbvio. Não é política partidária, mas política no sentido de nos posicionarmos. Nesse sentido, estar fora de Portugal e, de alguma forma, nos envolver com a música popular portuguesa foi uma postura que tomamos em nosso trabalho. Depois de passarmos quatro anos em Berlim, decidimos voltar para Portugal e tentar viver de música. Caso não desse certo, voltaríamos para Berlim. A verdade é que estamos aqui há 10 anos. Às vezes, não é viver, é sobreviver, com altos e baixos, mas estamos em Portugal.

WAVE: Durante a apresentação, vocês também comentaram sobre o álbum Polifonias Singulares, que contou com a colaboração das Cantadeiras do Campo de Gêres. Como esse projeto dialoga com a ideia de transformação musical? Como foi o processo criativo por trás dele?

PATRÍCIA: Foi um processo muito interessante, que aconteceu em uma época muito atípica, que foi durante a pandemia. Elas nos convidaram para fazer uma residência artística e trabalhar com o grupo das Cantadeiras, ficar lá por duas semanas, aprender as músicas e as vozes, e depois apresentar um concerto. Foi uma ótima oportunidade, porque já estávamos um pouco cansados de Lisboa, e quando chegamos à aldeia, o campo, só natureza, foi maravilhoso. O processo foi muito bom: passamos duas semanas com as senhoras, aprendemos as músicas, e depois fizemos o concerto, que fazia parte de um festival. A relação com elas foi tão boa que pensamos em continuar, porque elas não tinham registro das músicas que estavam fazendo. Então, surgiu a ideia de gravar um álbum. Mas também havia a necessidade de fazer um álbum de estúdio, sem a pressão de ter que apresentá-lo ao vivo. Por isso, chamamos o álbum de “álbum-estudo”. No lado A, gravamos o grupo tradicional, as Cantadeiras do Campo de Gêres. Trouxemos um engenheiro de som muito importante, o José Fortes, nosso amigo de longa data, que tem 85 anos. Ele é o nosso “Guru do Som”, e ele foi essencial para o projeto. Gravamos as cantadeiras em Gerês, onde também cantamos com elas, e depois fomos para o estúdio para fazer nossas versões dessas canções, como sabíamos e queríamos, sempre explorando o estúdio, mas com o objetivo de criar um trabalho de estudo, o Polifonias Singulares Volume 1. Queremos fazer mais volumes, e quem sabe até sair da cultura da música popular portuguesa. Talvez gravemos algo na Bahia, no Brasil, pois a música brasileira também nos influencia muito. Este é o Volume 1, mas esperamos chegar ao Volume 7.

WAVE: Essa foi a primeira vez de vocês no Canadá. Como foi essa experiência? Como se sentiram tocando para um público canadense?

ROBERTO: Acho que a experiência de tocar fora é algo que já vivemos bastante, conseguimos levar Lavoisier a vários lugares, e gostamos muito de tocar para um público estrangeiro que não entende a língua, mas que é sensível à emoção que tentamos transmitir. Sentimos que é um bom teste quando temos essa oportunidade. Claro, existem lugares onde as referências são mais semelhantes, e o contato é mais direto, mas, no geral, gostamos muito de tocar fora. Sentimos que o público é receptivo ao nosso trabalho porque trazemos uma parte diferente de Portugal. A música e a cultura portuguesa exportadas ficam muito ligadas ao fado. E nós sentimos que isso é muito restritivo, então, sempre que temos a chance de apresentar nosso trabalho, que mistura diversas referências, também mostramos um Portugal mais atual, uma cultura viva.

PATRÍCIA: Agora em Toronto foi muito bonito, o local era espetacular. E o silêncio na sala foi uma grande revelação para nós, isso já nos mostrou que estávamos todos ali em comunhão. Um espaço, uma energia, e para nós isso é o suficiente para chegar ao objetivo de um concerto: estarmos todos juntos.

WAVE: Durante a celebração do Sons de Portugal, vocês também apresentaram um documentário sobre o grupo Wanderer Songs, que reúne outros artistas portugueses e busca trazer a música de José Afonso para o século XXI. Para quem ainda não conhece esse projeto, qual é a importância de José Afonso para a música portuguesa e como foi homenageá-lo dessa maneira?

PATRÍCIA: Bem, o Zeca, nós o chamamos de Zeca, José Afonso, é uma pessoa muito especial, muito importante para nós, para Portugal, e para todos os músicos. Foi uma pessoa muito relevante no período pré e pós-25 de abril… principalmente no período pré, claro, e depois, no pós-25 de abril, ele não foi tão lembrado quanto deveria ter sido. Mas ele é um artista completo, ativista, extremamente consciente de seu tempo, super politizado, e com uma força e vontade enormes de ajudar, principalmente o povo, quem não tinha dinheiro, quem não tinha voz. Esse projeto surgiu porque no ano passado celebramos os 50 anos do 25 de abril, uma data muito significativa. O Pedro Afonso, filho do Zeca, teve a ideia de reunir artistas contemporâneos e passar por essas músicas de um concerto especial. O Nuno Saraiva foi quem reeditou todos os álbuns do Zeca. E nós fizemos uma residência artística no ano passado, eu e o Roberto, o PS Lucas, a Selma Uamusse, o Tiago Correia-Paulo, o diretor musical, o Diogo Sousa e Augusto Macedo, além do Nástio Mosquitto, que fez toda a parte visual com o Vic Pereiró. O projeto também teve um foco especial em Moçambique, pois o Zeca viveu lá, e isso fez todo sentido. O Zeca foi um dos primeiros a abraçar essa fusão de influências. Ele pegava a música popular e dava uma nova roupagem, mudava letras e fazia novos arranjos, sempre com a ideia de que a música popular e a cultura devem ser dinâmicas, sempre em mutação, e não puristas. O Zeca foi muito visionário com essa abordagem.

ROBERTO: Quando você vive em uma ditadura, sua identidade é muito restrita, você perde o orgulho de ser quem é. O Zeca devolveu esse orgulho, mostrou o que significa ser português, o que significa ter uma cultura popular. Ele foi fundamental para isso, porque nos disse que não precisamos ter vergonha do que somos, somos o que somos. Fazer esse projeto com esse coletivo foi uma maneira de… não diria “atualizar”, porque a música do Zeca continua super atual. Se ouvirmos seus álbuns, eles ainda são incríveis, frescos, modernos. O jeito como ele fazia arranjos para contar histórias é tremendamente moderno. O que fizemos foi mais como um filtro das nossas gerações. E é fundamental fazer isso, porque o Zeca foi censurado na ditadura, mas também foi censurado após a ditadura, porque tocava em feridas que o governo não queria mexer. Ele falava sobre questões como a colonização, que hoje é um tema muito presente, mas que ele já abordava há 50 anos.

PATRÍCIA: E se conseguimos levar o trabalho do Zeca a mais pessoas, especialmente a uma nova geração, é isso que importa. Cantar suas palavras e músicas é um prazer imenso, mas nosso objetivo é espalhar o trabalho do Zeca para o maior número possível de pessoas.

Advertisement