Entrevista – Luisa Cisterna

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Para esta edição, a Wave foi até Calgary (AB) entrevistar a escritora brasileira Luisa Cisterna. Casada com o pastor Jaime Cisterna e mãe do Tiago, da Débora e do Lucas, ser escritora é uma das diversas atividades de nossa convidada.

Por Arthur Vianna

Formada em Letras no Rio de Janeiro e com duas pós-graduações, Luisa Cisterna é professora de português e de inglês no Canadá, tradutora de inúmeros livros, revisora, co-autora de livros didáticos e cronista premiada no Brasil. Recentemente, ela lançou o seu primeiro romance, “Amor em Construção”. A obra, editada em português, pode ser encontrada no site da Amazon (www.amazon.ca). Na entrevista, Luisa fala de sua vida no Canadá, de sua intensa atividade profissional e, claro, do lançamento de seu livro.

Wave – Por que Canadá? Como esse país entrou em sua vida?
Luisa Cisterna – Sempre quis morar fora do Brasil. Sonhei em morar na França, na Escócia, mas depois de formada comecei a procurar um Mestrado nos Estados Unidos. A ideia de vir para o Canadá veio do meu marido, naquela época namorado, que estava de malas prontas para estudar aqui no interior de Alberta. Assim, viemos, nos casamos e ficamos de 1991 a 1993. Voltamos para o Brasil, mas o Canadá não saiu mais do nosso coração. Em 2006, viemos como imigrantes, já com 3 filhos.

Wave – Conte um pouco de sua vida familiar e sua inserção na comunidade canadense de Calgary.
Luisa Cisterna – Quando chegamos em Calgary, meus filhos tinham 3, 8 e 10 anos. Hoje meu filho mais velho é formado, minha filha está na universidade e o mais novo no High School. Para eles não houve qualquer problema de adaptação. Para mim e meu marido, por causa da nossa experiência anterior quando estudamos aqui, também não encontramos muitas barreiras para nos integrar na nossa comunidade aqui em Calgary. Gosto muito dessa diversidade do país e tenho amigos brasileiros, claro, mas também canadenses e de outras culturas. Acho que isso facilita em muito a inserção na comunidade porque criamos pontes importantes para que possamos exercer alguma influência na sociedade. Gosto de pensar que eu e minha família temos contribuído bastante para que nossa cidade seja um lugar onde as pessoas se sentem bem recebidas e confiantes de que também podem se integrar. Digo aos meus filhos, amigos e alunos que quanto mais temos uma atitude de dar aqui nesse país, mais recebemos em troca.

Wave – Como profissional, quais os maiores desafios que você enfrentou no Canadá?
Luisa Cisterna – Não acho que enfrentei muitos desafios. Logo que cheguei em 2006, comecei a dar aulas de ESL (mais precisamente no LINC que é inglês para os imigrantes) no Bow Valley College, onde estou até hoje. Ao mesmo tempo, recebi uma proposta da Universidade Mount Royal de reestruturar o curso de português para estrangeiros. A partir daí, adquiri muita experiência e respeito nesse meio. A única coisa que acho que ficou faltando foi fazer meu tão sonhado Mestrado. Tentei algumas vezes, mas eu já estava há muito tempo longe do ambiente acadêmico de pesquisa para que tivesse alguma oportunidade. Quis dar uma melhorada no meu currículo para abrir mais portas de trabalho ou promoção e fiz alguns cursos na Universidade Mount Royal e Universidade de Toronto. Depois participei de vários treinamentos de professores no próprio Bow Valley College, o que acabou me garantindo mais visibilidade e respeito na área. O bom do Canadá e que estudar e perseverar sempre compensam.

Wave – Depois de trabalhar como professora, revisora, co-autora de diversos livros e cronista, como foi a experiência de lançar um romance?
Luisa Cisterna – Escrever para mim sempre foi uma paixão. Passei por várias fases, como a de escrever crônicas e acabei até ganhando um prêmio com uma das crônicas. Nunca tive coragem de escrever um romance. Achava uma tarefa absurdamente complicada. Sou uma leitora voraz e a Biblioteca Pública de Calgary é parada obrigatória para mim. Há pouco mais de um ano, algumas histórias começaram a surgir na minha cabeça. Alguns personagens nasceram e, com eles, outras histórias. Decidi então estudar sobre o processo de escrita de um romance. Li tantos livros que perdi as contas. Passei meses indo à biblioteca para estudar a arte de escrever romances. Daí comecei a colocar no papel essas histórias e elas foram tomando forma. Digo que quando um personagem nasce (não o criamos), ele amadurece e vai tomando vida própria. Não é raro um personagem me acordar de madrugada “pedindo” que eu reescreva alguns capítulos ou mude algumas características dele para que seja mais real. Assim, comecei meu primeiro romance que não foi o que acabei de publicar. O que publiquei é, na verdade, meu terceiro romance. O primeiro precisa ser reescrito porque a técnica não é muito boa. No terceiro, eu já estava um pouco mais confiante de mostrar ao público. A experiência de lançar um romance é maravilhosa principalmente quando o leitor diz que chorou ou que ficou com raiva de um personagem. Se consegui mexer nos sentimentos do leitor, acho que estou no caminho certo. Escrever para mim tornou-se uma necessidade e fico angustiadíssima se não escrevo todos os dias. Tenho muito o que aprender, mas é a partir dessa necessidade que vou crescendo como escritora.

Wave – Você poderia, em poucas linhas, adiantar um resumo de seu livro “Amor em Construção” para os nossos leitores?
Luisa Cisterna – “Amor em Construção” é a história de Isadora, brasileira e blogueira, que mora em Kelowna, B.C. A pedido da família, ela ajuda uma tia viúva a transformar um casarão antigo em um Bed & Breakfast. A tia contrata os serviços de Diogo, filho de portugueses, que largou a agitação do mundo financeiro em Vancouver para reformar casas. Obviamente os dois se apaixonam, mas Isadora está de viagem marcada para ir morar na Itália com sua irmã. Por causa da obra e da descoberta de alguns documentos da tia sobre a chegada dos portugueses no Vale do Okanagan, Isadora e Diogo se aproximam cada vez. Entre alguns desenhos de Diogo, Isadora descobre o que realmente importa e, assim, toma sua decisão.

Wave – Uma curiosidade: por que a sua obra foi ambientada no Vale de Okanagan?
Luisa Cisterna – Adoro responder a essa pergunta. Há anos que eu e minha família passamos parte das férias de verão no Okanagan, lugar de vinhedos e pomares inigualáveis. Sempre tive a curiosidade de saber por que muitos desses vinhedos e pomares são de propriedade de portugueses. Comecei a ler a respeito e descobri que, depois da Segunda Guerra, o Canadá entrou em acordo com Portugal para trazer portugueses para trabalhar na plantação de vinhas e frutas. Nessa época, não havia muita mão de obra e até alunos de high school eram recrutados para a colheita. Meu personagem Diogo nasceu a partir dessa descoberta. O Vale do Okanagan me pareceu o lugar ideal para uma história alegre, cheia de encontros e desencontros românticos e com um sabor luso-brasileiro.