A força do sorriso

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Aos 21 anos, a medalhista paraolímpica e campeã mundial Verônica Hipólito supera problemas de saúde e esbanja otimismo rumo às Paraolimpíadas de 2020.

Entrevista com a atleta Verônica Hipólito, medalhas de prata (100 metros rasos) e bronze (400 metros) na classe T38 feminino nos Jogos Paralímpicos Rio 2016 – Foto: Washington Alves/MPIX/CPB

por Luiz Humberto Monteiro Pereira
humberto@esportedefato.com.br

Aos 13 anos, Verônica Hipólito teve de deixar o judô por conta de uma cirurgia na cabeça para retirar um tumor no cérebro. Aos 14, a paulista de São Bernardo do Campo sofreu um AVC que paralisou todo o lado direito do seu corpo e o atletismo serviu como forma de reabilitação para ela voltar a andar. Dedicou-se às corridas curtas e em 2012, com 17 anos, ganhou seu primeiro Campeonato Mundial de Atletismo Paraolímpico Adulto. No mesmo ano, descobriu que o tumor na cabeça havia voltado e começou um tratamento com remédios.

Em 2015, aos 19 anos e às vésperas do Jogos Parapan-Americanos de Toronto, seus exames revelaram uma síndrome digestiva rara, chamada Polipose Adenomatosa Familiar. Mesmo com o diagnóstico, participou dos Jogos de Toronto, conquistando três medalhas de ouro e uma de prata. Após os Jogos, realizou um procedimento cirúrgico para remover 90% do intestino grosso e voltou a treinar somente em fevereiro de 2016. Por causa do tumor no cérebro, Verônica seguiu tratamento com medicação com foco nos Jogos Paraolímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. Lá, conquistou uma medalha de prata (100 metros rasos) e uma de bronze (400 metros) na classe T38 e se tornou uma das figuras mais populares da delegação brasileira. “Comecei a fazer alguns vídeos da galera na Vila Paraolímpica, esses vídeos começaram a ir para o Sportv e o público gostou”, relembra a velocista que, no início de 2017, foi submetida a uma nova cirurgia no cérebro para a retirada do tumor. Depois de quatro meses, voltou aos treinos e retomou a carreira.

Tantos problemas de saúde não deixaram a atleta desanimada. Longe disso. Aos 21 anos, Verônica ostenta uma alegria permanente e não esconde seu encantamento com a vida de atleta de alto rendimento. “Quero ir às Paraolimpíadas de Tóquio em 2020, de Paris em 2024 e de Los Angeles em 2028 para ganhar medalhas! Quero ser a melhor do mundo! Sei que é uma trajetória difícil, mas uma coisa eu dou certeza: vou me esforçar muito”, avisa a atleta, soltando mais uma de suas risadas.

É chato ter que ficar operando, é chato ficar quebrando ciclos, mas o mais importante é a minha saúde. E sempre volto mais forte.

Esporte de Fato – Você convive – de forma admirável, diga-se de passagem – com diversos problemas de saúde. Qual é o seu segredo?
Verônica Hipólito – Tive um tumor na cabeça e operei em 2009, um AVC em 2011, o tumor na cabeça voltou em 2013 e fiquei tratando com remédios, em 2015 precisei retirar 90% do meu intestino grosso e em 2017 operei a cabeça de novo. É chato ter que ficar operando, é chato ficar quebrando ciclos, mas o mais importante é a minha saúde. E sempre volto mais forte. São novos aprendizados, coisas que me deixam até mais estimulada. Então, vamos comemorar por estarmos vivos, não?

Esporte de Fato – Você participa das corridas de 100 m, 200 m (que estão deixando as Paraolimpíadas), 400 m e salto em distância. Dessas modalidades, quais gosta mais e quais gosta menos?
Verônica Hipólito – Eita… Olha, ainda estou conhecendo mais sobre essas provas. Antes eu odiava os 400 m rasos, mas hoje não. Acho até uma prova divertida. Então, fico entre os 100 m e os 400 m rasos entre as provas que eu mais gosto. Agora, o salto em distância é uma prova que ainda não gosto muito. Mas quem sabe eu passo a gostar dela também, né?

Muitas empresas patrocinam nas vésperas dos Jogos Paraolímpicos, às vezes somente no ano do evento, e depois somem.

Esporte de Fato – Depois dos Jogos Rio 2016, muitos atletas brasileiros reclamam que os patrocínios desapareceram. Como foi com você?
Verônica Hipólito – Tenho patrocínios da Nike, Caixa, Time SP e a bolsa pódio do Ministério dos Esportes. Mas fazer parte do Time Nissan é especial. Recebi a proposta para entrar no Time algumas semanas antes da minha cirurgia, e mesmo sabendo disso, eles não me viraram as costas. E virou uma relação de família – todos os atletas se apoiam, trocam experiências, virando algo muito gostoso e motivador. Muitas empresas patrocinam nas vésperas dos Jogos Paraolímpicos, às vezes somente no ano do evento, e depois somem. A Nissan tá fazendo um trabalho de ciclo completo, o que é incrível, com atletas olímpicos e paraolímpicos, homens e mulheres, de várias modalidades.

Esporte de Fato – Além do esporte, quais são suas atividades?
Verônica Hipólito – Comer e dormir! Hahaha, brincadeira! Eu sou curiosa, então gosto sempre de aprender. Gosto de fazer origamis, ler, escutar músicas, escrever, assistir filmes/documentários/séries… Quando tenho tempo, invento de cozinhar algo também. Não que saia algo bom, mas tento cozinhar, né?

Esporte de Fato – Quais são as próximas competições que pretende disputar até as Paraolimpíadas de Tóquio?
Verônica Hipólito – 2018 é um ano mais calmo. Vamos ter o campeonato brasileiro e alguns Grand Prix ao redor do mundo, as chamadas World Series. Já 2019 será mais intenso – teremos os Jogos Parapan-Americanos, em Lima, no Peru, e o Mundial de Atletismo Paraolímpico, em Doha, no Catar.

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