Felizes são aqueles

Uma crônica para quem aprecia e desfruta de uma escrita rica em emoções, que nos fazem sentir, e de provocações, que nos fazem pensar. A cada semana uma nova publicação de Nilson Lattari, aqui na Brazilian Wave Online. Boa leitura!

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Silhueta de um jovem que celebra o nascer do sol do alto de uma montanha e de braços abertos. Predomina na foto, a cor de laranja e alguns tons de marrom. O sol brilhante tem destaque especial para insicar que felizes são aqueles que...
Crônica de Nilton Lattari: Felizes são aqueles. (Foto por Zac DurantUnsplash)

Felizes são aqueles

Felizes seriam aqueles que se casam apaixonados. Que podem planejar suas vidas futuras, com projetos de contos de fadas, de histórias de super-heróis, cada um casando e vivendo com o seu. Felizes seriam aqueles que sentem a falta um do outro. Felizes seriam aqueles que têm os mesmos gostos ou, se não os têm, apreciam o gostar do outro, simplesmente porque é o outro de quem se gosta.

Felizes seriam os amantes que se encontram nas ruas e trocam um beijo apaixonado, ignorando as pessoas que passam, indiferentes aos olhares invejosos, dos repúdios rancorosos, mascando no peito a mesma vontade de ter um amor assim, ou resgatá-lo de volta.

Felizes seriam os artistas, os famosos que trocam de par à medida que encontram um novo rosto, e se iluminam a cada vez, mostrando que a felicidade está aberta a todos, e basta escolher o novo produto, o novo acabamento, diriam alguns, expectadores crédulos.

Felizes seriam aqueles que saem de casa todos os dias para fazer o que gostam, para se divertirem em troca de um salário, de um ganho ao final do dia, ao final do mês. Que podem comprar o que quiser, na hora que bem entender, que podem ser caridosos, amigos do outro, de coração.

Felizes seriam aqueles que têm a boa saúde para dar e vender, que nascem com um belo rosto, uma cor de olhos indecifrável, o cabelo no lugar, o corpo perfeito, que podem se dedicar a ele em horas trabalhadas nas academias, que podem usar as melhores roupas, as mais inusitadas e permanecerem belos e elegantes.

Felizes seriam os poderosos que podem ditar regras, podem delegar outros poderes, ou podem ajudar os outros ou, sem o menor constrangimento, cobrar a dívida com outro favor, podem ser experts em alguma coisa, mesmo que essa alguma coisa implique na perda do outro; que podem dizer, à força de argumentos e com os exemplos da própria vida, que o mundo não é injusto, ele apenas pertence àqueles que trabalham duro. E depois disso tudo podem pousar a cabeça no travesseiro e dormir em paz.

Felizes seriam aqueles que passam pelo mundo e ignoram a existência do mundo à sua volta, que são bafejados pela sorte, que podem dizer que a justiça poderia ser assim e assado, que, com suas regras, e seus ditos moralizantes, podem, simplesmente, excluir os outros que atrapalham suas trajetórias, e, mesmo assim, são aplaudidos e festejados por seus pares, meros bajuladores do sucesso alheio.

Felizes, realmente, são aqueles que têm tudo isso, ou uma parte disso, e não esquecem, de verdade, todos os outros que não podem ter a sua mesma felicidade.

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