Imigração e saúde mental – Páscoa: entre tradição e transição

Família em atividade de Páscoa. Imagem ilustrativa. (Foto: Nightunter)

Feriados em geral nos oferecem a oportunidade de pausar, refletir e nos afastar da correria da vida cotidiana, permitindo-nos conectar com o verdadeiro significado que esses momentos trazem. Ao celebrarmos a Páscoa, é importante considerar o que esse feriado representa para diferentes comunidades. Para muitos, a Páscoa é um momento de introspecção, no qual se reflete sobre o que precisa ser mudado, restaurado ou renovado.

Páscoa em Família

No Brasil, a Páscoa é o segundo feriado mais importante, ficando atrás apenas do Natal. Além de desfrutar de pratos tradicionais — como o ensopado de frutos do mar (moqueca maranhense) e o arroz cozido com folhas de hibisco vermelho (arroz de cuxá), ambos típicos do meu estado natal, o Maranhão —, nós, brasileiros, costumamos celebrar a Páscoa reunidos em família, participando de missas e de grandes procissões ao longo da Semana Santa.

Embora essa seja a realidade para pessoas que vivem no Brasil, famílias imigrantes no Canadá podem vivenciar a Páscoa de maneira diferente, reunindo familiares e amigos independentemente da fé religiosa. Aqui, assim como no Brasil, as tradições e os alimentos típicos variam conforme a região e a história familiar, mas há elementos comuns, como refeições compartilhadas com pratos como peru, presunto ou cordeiro, geralmente acompanhados de batatas e legumes da estação.

Entre Duas Culturas: Entendendo a Aculturação

Para as famílias imigrantes, esse contraste pode evidenciar o processo de aculturação e o desafio de manter tradições culturais, ao mesmo tempo em que se adaptam ao novo ambiente social. De acordo com a Associação Americana de Psicologia (AAP), a aculturação refere-se ao processo pelo qual indivíduos ou grupos adaptam seus valores sociais e culturais, crenças e comportamentos, à medida que interagem com uma cultura diferente.

A aculturação pode trazer tanto benefícios, quanto desafios. Estudos sobre a saúde de imigrantes sugerem que a adaptação a uma nova cultura pode levar ao enriquecimento da vida, ao crescimento pessoal e à redução do estresse. Ao mesmo tempo, esse processo pode gerar tensões na coesão familiar, à medida que as famílias negociam como preservar valores culturais, enquanto se ajustam às normas da sociedade anfitriã.

Esses desafios podem ser especialmente complexos para crianças e adolescentes, que muitas vezes estão formando suas identidades, enquanto enfrentam barreiras como diferenças linguísticas, discriminação, marginalização ou traumas passados. Como resultado, feriados como a Páscoa podem se tornar momentos em que questões de pertencimento, identidade e bem-estar se tornam ainda mais evidentes.

Rede de Apoio a Famílias Imigrantes

É importante lembrar que o acesso a redes de apoio pode ser uma ferramenta valiosa para famílias imigrantes, à medida que constroem suas vidas em um novo país. Por exemplo, aulas de idiomas e serviços de interpretação podem melhorar a comunicação e facilitar o acesso a serviços essenciais. Além disso, oportunidades educacionais e de emprego promovem estabilidade e confiança.

Grupos de apoio comunitário, organizações culturais e instituições religiosas também podem ajudar famílias a se sentirem conectadas e compreendidas, oferecendo orientação que reflita seus valores culturais. Instituições como a Access Alliance (torontocentralhealthline.ca), em Toronto, atuam na defesa e no apoio a imigrantes e refugiados. Promovem saúde e bem-estar, especialmente entre comunidades impactadas por barreiras sistêmicas e pela pobreza.

Da mesma forma, o Durham Region Action Group oferece serviços de apoio comunitário, como banco de alimentos, programas para idosos e iniciativas de desenvolvimento e capacitação para jovens. Em momentos de maior vulnerabilidade emocional, famílias também podem recorrer a centros comunitários de saúde e médicos de família para obter apoio adequado.

Acima de tudo, é importante continuar celebrando e honrando tradições e heranças culturais. Isso permite que famílias mantenham forte o senso de identidade e conexão com suas raízes, ao mesmo tempo em que constroem um sentimento de pertencimento em seu novo lar.


(*) Izabel Dolhy é Psicoterapeuta Registrada (Q). Diretora Clínica da Inner Clarity Wellness and Mental Health Clinic [email protected]

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