Imigração para o Quebec – Congelamento do Programa de Experiência Quebequense (PEQ) aprofunda crise entre imigrantes no Quebec

Grupo de manifestantes em Quebeque contra o congelamento do Programa de Experência Quebequense

O congelamento e, mais recentemente, o cancelamento definitivo do Programa de Experiência Quebequense (PEQ) têm provocado impactos profundos na vida de milhares de imigrantes temporários no Quebec — incluindo estudantes, trabalhadores qualificados e suas famílias. Entre eles está Sérgio Silva educador popular brasileiro que vive na província desde 2022 e hoje integra o movimento de mobilização contra as mudanças na política migratória.

Sergio (direita) com esposa, Alline, e os filhos, Enzo e Gianluca (Foto: arquivo pessoal)

Com mais de dez anos de experiência na formação de educadores e professores, Sérgio chegou ao Canadá com a esposa, Alline, e os dois filhos gêmeos, Enzo e Gianluca, hoje com 16 anos, para cursar um mestrado em Educação em Montreal. A família se estabeleceu rapidamente: os filhos ingressaram em classes de acolhimento e passaram a estudar em francês; a família frequentou cursos de francização; e Sérgio realizou toda a formação universitária em francês, além de participar de sessões de integração cultural desde a chegada. Segundo ele, a decisão de permanecer no Quebeque foi tomada de forma consciente, com base nas regras vigentes à época.
“Quando saí do Brasil, em 2022, o PEQ existia e era apresentado pelo próprio governo do Quebec como um programa estruturado, previsível. A proposta era clara: estudar ou trabalhar na província, comprovar proficiência em francês e, depois, solicitar a residência permanente.”

Impacto na saúde mental e na carreira

O cenário mudou drasticamente em novembro de 2024, quando o governo anunciou o congelamento do PEQ para determinados perfis — justamente quando Sérgio havia acabado de se formar e se preparava financeiramente para aplicar.

“O impacto foi imediato na minha saúde mental. Comecei a ter crises de ansiedade por causa da imprevisibilidade. Logo depois vieram sintomas de depressão. Isso afetou diretamente meu desempenho profissional.”

Recém-contratado para um trabalho na sua área de formação, Sérgio relata que precisou iniciar tratamento medicamentoso e que sua performance no trabalho foi prejudicada. Os efeitos se estenderam à família: um dos filhos passou a apresentar dificuldades escolares, e a esposa começou a ter problemas de sono, também recorrendo a medicação. Em junho de 2025, ao fim do contrato, ele optou por não renová-lo.

“Eu poderia ter continuado, mas sentia que não estava entregando o que eu era capaz. Hoje trabalho de forma autônoma, oferecendo formações pontuais, mas ainda não consegui me recolocar formalmente. Isso tem um impacto financeiro real.”

A falta de dados oficiais

Estima-se que existam entre 500 mil e 600 mil residentes temporários atualmente no Quebec. No entanto, ainda não há dados precisos sobre quantos são diretamente impactados pelas mudanças no PEC.

Na comunidade brasileira, uma pesquisa independente está sendo lançada para mapear os impactos, mas os dados ainda são preliminares. Os relatos, segundo Sérgio, se repetem: adoecimento mental, instabilidade financeira e insegurança quanto ao futuro. “Ninguém quer ir embora. As pessoas só querem que o governo reconheça o que foi prometido e permita uma transição justa.”

O que diz o Ministério da Imigração do Quebec

Procurado pela reportagem, o Ministério da Imigração, da Francização e da Integração (MIFI) afirmou que não há previsão de retomada do Programa de Experiência Quebequense (PEQ) nem de adoção de uma cláusula de grand-père para pessoas que estavam no território e pretendiam aplicar pelo programa antes de seu encerramento.

Em resposta enviada por escrito, o ministério informou que seguirá analisando todas as solicitações recebidas antes do fim oficial do PEQ, em 19 de novembro de 2025, assim como pedidos de inclusão ou retirada de dependentes. Esses dossiês, segundo o MIFI, continuarão sendo avaliados de acordo com as regras do antigo programa.

Já as pessoas que pretendiam aplicar, mas não conseguiram submeter a candidatura antes do encerramento, são orientadas a depositar uma declaração de interesse na plataforma Arrima, para possível seleção por meio do Programa de Seleção de Trabalhadores Qualificados (PSTQ).

De acordo com o ministério, candidatos com diploma obtido no Quebec e experiência de trabalho na província — especialmente fora dos grandes centros urbanos — podem receber convites para apresentar uma solicitação de seleção permanente no novo programa. Os critérios de convite, afirma o MIFI, estão disponíveis em seu site oficial.

Questionado sobre o número de pessoas diretamente afetadas pelo fim do PEQ, o ministério afirmou que não é possível fazer uma estimativa, já que não há dados sobre quantas pessoas pretendiam utilizar o programa como via de acesso à residência permanente.
Sobre as alternativas ao PEQ, o MIFI reforçou que o encerramento do programa “não marca o fim do acesso à residência permanente”, destacando que o PSTQ permite a seleção por convite, com base em perfis considerados prioritários para o Quebec. Ainda assim, o ministério ressaltou que ter status temporário não garante a obtenção do Certificat de sélection du Québec (CSQ) nem da residência permanente.

“A responsabilidade de manter as informações atualizadas e completas na plataforma Arrima é de cada candidato”, conclui a nota.




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