Integração na ponta da língua

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Ela é capaz de determinar uma região, uma origem, o desenvolvimento econômico, social e até mesmo cultural de um povo. A linguagem nos permite realizar, trocar, conhecer.  O que dizer então de sua importância na integração de um imigrante?

Seria o aprendizado da língua um fator determinante para a integração a um novo país? Numa visão mais ampla, sim. Porém, ele por si só, não basta. Exemplo disso é o caso de Michele Aguiar, que imigrou para o Canadá há dois anos e conta que, no início, mesmo falando inglês, se sentia um peixe fora d’água na conversa com os colegas. “O aprendizado da língua é fundamental, mas nem sempre é suficiente para integrar-se. Isso porque a língua é uma parte viva da cultura e está sempre se modificando de acordo com a história e o contexto social. Se o imigrante não conhece ao menos um pouco da realidade local, até pequenas coisas do cotidiano ficam mais complicadas”, relata Michele.

Se a exclusão social é um ponto desanimador, mais desafiante ainda são as dificuldades naturais de se aprender uma língua em fase adulta. Com a eterna pirâmide: preocupação financeira – casa – trabalho, estudar se torna algo secundário. Outro fator que pode atrapalhar é quando o aprendizado dessa língua se torna uma obrigação. “O processo de imigração já é altamente estressante e quando a pessoa ainda tem que aprender uma língua diferente da sua, sabendo que isso é crucial nas conquistas nesse novo país que ela está adotando, essa obrigação pode virar até um bloqueio para essas novas informações”, conta Michele.

Mas, para quem consegue superar os obstáculos, estudar novas línguas pode ser extremamente enriquecedor e gratificante. “Quando você visita uma cidade fora do seu país sem saber a língua, ao retornar uma segunda vez, você descobre o quanto você perdeu na primeira visita. Imagine em uma situação de imigração!”, destaca Cínthia Low, brasileira, imigrada para o Canadá há dois anos e meio. “Aprender uma língua é vivenciar plenamente uma cultura, uma sociedade. É como abrir um novo mundo diante dos nossos olhos”, afirma.

Ao chegar, Cínthia também se viu diante das diferenças culturais, porém, ela utilizou os seus conhecimentos do idioma para preencher essas lacunas. “Eu perguntava ‘o que é isso’ o tempo todo, ficava até com medo de parecer chata! Mas meus colegas de trabalho morriam de rir e adoravam me explicar o significado de algumas expressões ou palavras desconhecidas”, conta..

No campo pessoal, quando buscamos aprender a língua do país que nos recebe, nos mostramos mais abertos ao descobrimento dessa nova cultura. É esse interesse que vai abrir as portas para a nossa boa socialização. Já numa visão mais profissional, o fato de saber outras línguas mostra a nossa capacidade de adaptação, de facilidade no aprendizado, de ir além na busca de conhecimentos.

Segundo o professor Língua Portuguesa Ricardo Sternberg, da Universidade de Toronto, há casos em que a língua não vai ser determinante na conquista de um emprego, porém, num país tão receptivo como o Canadá, onde o imigrante tem acesso a tudo, seria quase uma obrigação aprender o inglês (e em algumas áreas, o francês) tanto para facilitar não só a integração e até mesmo a entrada no mercado de trabalho, como para evitar a “guetização”. “O Canadá tem uma postura tão aberta que ele sempre procura estimular as comunidades culturais. Porém, se o imigrante se fechar nisso, corre o risco de se isolar”, explica. Para o professor, a comunicação é uma atividade primordial na vida do homem, então, o aprender e o falar, além de enriquecer, nos tornam entes sociais.

De buqui is ón de teibou”!

Muitas vezes o aprendizado de uma língua passa pela necessidade de uma “limpeza de sotaque”. “Algumas pessoas possuem um sotaque tão forte que isso acaba atrapalhando a comunicação. Não se trata de apagar uma característica cultural mas sim de tornar a transmissão da mensagem mais clara”, afirma Ricardo Sternberg. O número de cursos de redução de sotaque vem aumentando e alguns são realizados inclusive via internet. Entre as principais dicas estão: falar lentamente e articuladamente, prestar atenção à musicalidade de cada idioma, ler em voz alta e, finalmente, observar bem o movimento da boca e a entonação dos nativos da língua que você está aprendendo.

Por Silvana Fonsêca