Memórias de 11 pontas

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Crônica de Helena B. Souza – Memórias de 11 pontas

Quando recebi o convite para escrever sobre o Dia do Canadá, que acontece no dia 1° de julho, devo admitir que no começo foi difícil. Apesar de ter mantido uma certa relação durante toda a vida com o país, por meio de parentes canadenses, e mesmo de já ter visitado duas ou três cidades, seria prepotência minha dizer que, de fato, conheço o Canadá. Afinal, minha noção sobre sua cultura, história ou geografia não ultrapassa em muito a superficialidade. Mas tem sim uma coisa que muito me atrai faz anos: sua bandeira. Sem querer partir para um viés muito nacionalista nem nada parecido, mas sempre achei um bom exemplo do que uma bandeira deveria ser: simples, com cores marcantes e com um belo toque de personalidade, que é a folha de bordô.

Como tenho família parte canadense, cresci no Brasil recebendo anualmente aguardadas remessas de maple syrup. Para mim, era simplesmente delicioso. Panquecas que não viessem acompanhadas do xarope estariam necessariamente incompletas. Opinião esta, no entanto, que não era exatamente compartilhada pelos meus amigos de infância que iam lá para casa. Não que achassem ruim ao experimentar, de maneira alguma. Mas é que não era um sabor conhecido ou desejado, não havia conexão. De fato, a maioria não tinha sequer ouvido falar. Mesmo eu, na minha ignorância infantil, apesar de amá-lo, também não sabia do que era feito. Foi apenas tempos depois que fui descobrir que se tratava da seiva circulante das árvores de bordô. Aquela mesma árvore que possui uma folha tão bonita e característica e que adorna a bandeira.

Por anos aquela informação ficou guardada na minha cabeça, até que, em 2015, a convite de meus tios canadenses, fui fazer um intercâmbio em Toronto, junto de minha prima. No auge da adolescência e sem a presença de pais, aquela viagem era só alegria. Adorávamos cada passeio, cada experiência e cada aventura. Tudo era novidade. Tiramos milhares de fotos, vídeos e fizemos amigos, tanto canadenses como intercambistas como nós. Mas, dentre todos esses momentos maravilhosos, não me esqueço de quando me deparei com minha primeira maple tree.

Nem o aeroporto, nem a CN Tower, nem mesmo a língua inglesa por todos os lados fizeram com que eu me sentisse no Canadá com tanta certeza quanto aquela árvore fez. Era verão, por isso, de começo, não a reconheci (na minha cabeça estavam sempre com tons avermelhados, vê se pode). Mas, após uma aproximação cautelosa, não havia dúvidas. Era ela. O símbolo do Canadá. A origem do meu amado maple. A folha de 11 pontas que, no Brasil, encontraria apenas em sonhos. Ali. Bem na minha frente. Na ponta dos meus dedos. Naquele momento, não era mais um órgão vegetal da região terminal do caule responsável pela fotossíntese. De fato, para mim, nunca foi. Era a prova. Era a síntese de todo um sentimento. A certeza de que estava no outro polo das Américas, em um lugar que sempre quis conhecer. Era a representação da alegria em viajar e em descobrir. A personificação – ou melhor, ‘’folhificação’’ – de uma viagem inteirinha, que eu queria guardar comigo pro resto da minha vida. Foi então que, ao levá-la pra casa, não hesitei em colocá-la sobre um papel em branco e seguir seus contornos com a primeira caneta que vi. Todas as emoções daquelas 3 semanas não podiam se traduzir melhor do que neste esboço.

Hoje, 5 anos depois, guardo com carinho o desenho que fiz naquele dia. Isso porque muitas das fotos acabaram se perdendo com o passar do tempo, seja por falta de memória, um erro na troca de celulares ou embaralhadas entre tantas outras. Da mesma maneira, os contatos e amigos que fiz foram se afastando ao longo dos anos. Mas o desenho… ele não ocupa tanto espaço, muito menos se desfez com o tempo. Mesmo assim, continua sendo uma fonte de memórias e de sentimentos de armazenamento infinito. Basta olhar para ele que meu coração se inunda, viajo no tempo e revivo todas as aventuras daquelas belíssimas 3 semanas no Canadá.