Eu sei que dá medo

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Crônica de Nilson Lattari: Eu sei que dá medo (Foto © Olga Zanchurina | Dreamstime.com)

Quando lemos, ouvimos, conversamos com aqueles que divergem da atual política, da atual situação, sentimos medo, eu sei, das argumentações que nos parecem tão precisas, cortantes, de que a opção pela política social é errada. Principalmente daqueles que receberam o peixe até ficar bem grandinhos, mas mandam para os outros que devam aprender a pescar. E, nessa questão do peixe, também podemos incluir uma cabeça melhor para os estudos, uma família razoavelmente organizada, não desestruturada, com pais omissos, mães solteiras etc.

Será que estamos errados? Que o mundo deva funcionar com a livre iniciativa, lições de grandes homens, capitães de indústrias, aqueles que tiveram sucesso empresarial e que, portanto, estão a cavaleiro para demonstrar as grandes oportunidades?

O que são histórias de sucesso, de tanto sucesso que podem subir nas tribunas e dar lições de moral a todos?

Se vários funcionários de grandes empresas, de pequenos empresários, que alcançam o sucesso funcionam por que não tentarmos todos a livre iniciativa, livres dos empregos públicos, das estatais?

Na verdade, dos vários funcionários que chegam à presidência, ou ao sucesso nos negócios, contamos uma centena, talvez milhares que não chegam. Simplesmente porque uma simples conta matemática resolve: só existe um presidente em cada empresa, e só existe um ou poucos empresários que acham o seu nicho de mercado. Não se enganem, uma questão de sorte ou azar, contadas em prosa e verso como fórmulas perfeitas, mas não copiáveis. Caso isso fosse verdade, seria somente copiar e comemorar.

Talvez a história, a verdadeira história seja aquela que os derrotados tenham para contar. Ninguém liga para os motivos que alguém foi derrotado, mas, ali estão as lições do como não fazer.

Relatar grandes feitos de grandes homens não é vantagem nenhuma, é contar simplesmente a História. Mais valeram as grandes derrotas e as grandes decepções e as comemorações longe dos holofotes daqueles que deram força ao grande nome. Ninguém é dono da História, e também ninguém é suficientemente grande para determinar a um povo qual o caminho que deva escolher.

Portanto, o discurso é apontar a falha do outro, comparando com o seu sucesso, que é individual, de si mesmo, e não se pode a partir dele determinar a todo um povo que somente exista uma vontade, um caminho determinado.

Citam, muitas vezes, Maquiavel, um manual de embuste que tenta dar ares de moralidade a uma imoralidade política que é um tirano, assim como o Contrato Social que não passou de uma maneira de organizar a sociedade para que tudo seja “bom para os negócios”. Ou a uma bem-vinda organização matemática cartesiana.

Todorov, em sua Conquista da América – a visão do outro, define muito bem quando os espanhóis chegam ao continente e encontram um povo que não tem como princípio de vida “o que eu quero ser”, libelo de uma sociedade organizada para que haja vencedores, mas um povo que consultava oráculos para que seus rebentos soubessem o que eles “deveriam ser”, a partir de um adivinho. E era uma sociedade que funcionava, apesar dos sacrifícios humanos, que eram numericamente inferiores ao massacre que sofreram dos conquistadores, por motivos bestiais e desumanos.

Medo do outro discurso? Eu acho que não. Como se pode ter medo de um discurso que prega a natureza humana dividida como o reino animal onde existem as águias e as formigas, o leão e o lobo? Um discurso que esquece que somos todos iguais, baseados no primeiro Contrato Social: os Dez Mandamentos.

Essa sociedade, finamente organizada, matematicamente predestinada a colocar cada um no seu lugar, se esconde atrás do discurso do medo, esse sim um discurso difuso e covarde.

É difícil nos desprender deste temor. Afinal foram séculos de raciocínio na base da razão, do custo e benefício, do vestir a camisa, trabalhar em equipe. Os pretensos donos da verdade têm medo de que a dispersão desse discurso torne cada um de nós provedor de nós mesmos, e a competição real nos iguale, e alguns discursos de vitoriosos se transformem em vitórias de Pirro, expostos à concorrência e reduzidos da genialidade à mediocridade.

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