Uma família não-tradicional: entrevista com o Vice-Consul do Canadá em Bogotá Eduardo Collier

"Sermos nós mesmos é a base de tudo" - Eduardo Collier reflete como os desafios de uma família não-tradicional em um país estrangeiro, a diversidade e a inclusão, podem fortalecer não apenas as famílias, mas também as comunidades e sociedades como um todo.

O primeiro contato que tivemos com Eduardo foi em 2017, o que resultou em uma entrevista publicada na edição #72 da Wave. Na época, o pernambucano, que havia recém regressado ao Canadá, conversou sobre a temporada que passou no Afeganistão, onde trabalhou como Primeiro Secretário e Cônsul na Embaixada do Canadá. Sete anos depois, a gente conversou com o diplomata mais uma vez, desta vez sobre sua família: eles são um casal homoafetivo, agora vivendo em Bogotá, na Colômbia.

Hoje, a família é composta pelo Eduardo (brasileiro de Recife), Stewart (o marido canadense de Fredericton) e duas filhas pequenas.

Eduardo (direita) com o marido Stewart e as duas filhas. (Foto: arquivo pessoal)
Eduardo Collier (Foto: arquivo pessoal)

ENTREVISTA COM EDUARDO COLLIER

WAVE: Como foi para vocês a experiência de se tornarem pais?
Eduardo: Tornar-se pais foi um sonho realizado. Tentamos por vários anos sem sucesso, mas nunca desistimos. Persistimos com determinação, até que as coisas finalmente começaram a dar certo. Sempre soubemos que queríamos ter dois filhos, então, assim que a primeira gravidez estava bem encaminhada, iniciamos o segundo processo, que, graças a Deus, também foi bem-sucedido. Agora, com nossas duas filhas, vivemos a alegria de uma família completa, gratos por cada passo dessa jornada e muito orgulhosos do nosso esforço e dedicação para estarmos onde hoje estamos. Faríamos tudo de novo se fosse necessário.

WAVE: Quais seriam as condições mais desafiadoras para as filhas de vocês, atualmente. E a futuro, o que vocês imaginam?
Eduardo: Toda criança que sai um pouco do molde acaba sendo vítima de bullying e criticada muitas vezes pela sua forma de andar, falar e se comportar. Isso afeta muito a autoestima de uma criança, que acaba escondendo um pouco sua essência para se proteger e cresce com o constante medo de estar sendo criticada. Por isso, falo que “sermos nós mesmos” é essencial e a base de tudo. Como casal homoafetivo, e principalmente como pais, temos essa missão de prover para nossas filhas um ambiente familiar onde elas se sintam confortáveis em suas próprias peles, e se transformem em crianças bem resolvidas e com uma autoestima forte, para poder enfrentar os desafios que com certeza virão.

No que diz respeito às condições mais desafiadoras, por enquanto elas são muito pequenas, completando 2 anos em junho e em dezembro desse ano, mas no futuro, sei que teremos que enfrentar vários obstáculos, como a falta de representação e aceitação em alguns ambientes, os questionamentos de colegas de escola, ou preconceitos em geral. A ideia é enfrentar esses desafios à medida que eles forem aparecendo e de forma muito aberta, com muito diálogo. No futuro, esperamos que a sociedade seja mais inclusiva e que nossas filhas encontrem cada vez mais espaços onde nossa família se sinta plenamente aceita e respeitada.

WAVE: Vocês estão morando na Colômbia, atualmente. Você diria que a sociedade colombiana é mais aberta ou conservadora em relação à brasileira?
Eduardo: Vivemos em Bogotá, na Colômbia, desde 2020 e nos mudaremos a um próximo destino agora em julho desse ano. Percebemos que a sociedade colombiana está se tornando mais aberta e inclusiva, especialmente nas grandes cidades como Bogotá e Medellin, mas em geral continua sendo um pouco mais conservadora em relação à sociedade brasileira e ainda existem desafios relacionados à aceitação plena da diversidade, incluindo famílias homoafetivas. Como chegamos aqui sem filhos, notamos que o nível de aceitação muda muito quando eles percebem que a idéia de família (tradicional) que eles têm está sendo subvertida.

Felizmente, da mesma forma que algumas vezes nos sentimos julgados, também recebemos muito carinho e mensagens positivas por onde passamos. Pessoas completamente desconhecidas nos parabenizam e nos oferecem um sorriso.

WAVE: Diversidade e inclusão são conceitos políticos e sociais bastante atuais e importantes. Mas, desde um olhar pessoal, estamos falando de muitas coisas como aceitação, adaptação, resiliência, orgulho, bem-estar… Você diria que está mais fácil agora? Como essa experiência ajudaria para uma próxima mudança?
Eduardo: Na verdade, o processo mais difícil é o de autoaceitação. Depois disso, tudo se torna mais fácil e você se fortalece. Embora tenhamos enfrentado desafios no passado, nossa experiência de vida nos ensinou a sermos resilientes, orgulhosos de quem somos e a buscar nosso bem-estar, independentemente das circunstâncias.

Claro que agora que nos tornamos uma família e somos mais visíveis e expostos a opiniões tanto positivas quanto negativas, tomamos mais cuidado e evitamos situações possivelmente delicadas. Esses últimos dois anos aqui na Colômbia, como família, nos ensinou muito nesse sentido. Serviu para abrir nossos olhos para o que realmente importa, quando fomos selecionar o nosso próximo destino. Coisas que não priorizávamos tanto antes, hoje se encontram no topo de nossa lista de pré-requisitos. Nos sentimos bem-preparados para enfrentar qualquer desafio que possa surgir em uma próxima mudança.

WAVE: Quais desafios vêm sendo mais facilmente superados por vocês com a maturidade? Quais ainda persistem?
Eduardo: Já enfrentamos diversos desafios juntos, ao longo dos últimos 14 anos. Por muito tempo tivemos que conciliar carreiras diferentes, o que exigiu flexibilidade e comprometimento de ambas as partes. Também temos personalidades muito diferentes, mas com o tempo e a maturidade aprendemos que o importante é entender as diferenças pessoais, respeitá-las e sempre buscar o equilíbrio entre nossos objetivos individuais e os da relação. Com o tempo, também aprendemos que é nas diferenças onde temos nosso valor agregado, onde podemos ajudar um ao outro. É nas diferenças que nos fortalecemos, nos aspectos em que precisamos de um empurrãozinho. Eu não estaria onde estou hoje, se não fosse por esse apoio que eu recebi do Stewart.

WAVE: A carreira de vocês envolve viagens pelo mundo todo conhecendo diferentes realidades. O que há de bom no Canadá e no Brasil, quando o assunto são as relações homoafetivas e famílias diversas?
Eduardo: Quando fomos ao Canadá no ano passado, fiquei surpreso com a forma como as pessoas olhavam para nossa família com tanta felicidade, nos cumprimentavam e nos davam um sorriso daqueles que dizem “que linda sua família”. Foi uma experiência maravilhosa e um contraste do que, de vez em quando, sentimos aqui na Colômbia. Isso vale muito e por isso mencionei antes que realinhamos nossas prioridades quando pensamos no nosso próximo destino. Também, vale ressaltar que, como trabalho para o governo canadense, pude ver de primeira mão, como os processos burocráticos de benefícios sociais, licença paternidade, etc. já são modernizados para atender às famílias diversa como a nossa. Não tivemos nenhum problema sequer com esses processos.

No que diz respeito ao Brasil, ainda não fomos visitar em família para sentir na pele como será essa recepção da sociedade, mas imagino que seremos muito bem acolhidos. Na minha opinião, o que falta mais é visibilidade. A sociedade precisa ver que famílias como a nossa podem coexistir, e é por isso que faço questão de ser o melhor exemplo possível ao invés de confrontar. A minha bandeira pessoal é essa, ser a mudança que queremos ver no mundo. Quem sabe dando o bom exemplo, opiniões serão mudadas e atitudes mais positivas virão.

WAVE: O que o Eduardo e Stewart de hoje diriam para o casal que estava iniciando o relacionamento há anos?
Eduardo: Se preparem para uma montanha-russa emocional e aproveitem cada momento, mesmo aqueles em que vocês parecem estar indo de cabeça para baixo. Muitas vezes, as melhores coisas acontecem quando tudo parece estar dando errado e você só entende depois, na retrospectiva, que tudo tinha que dar errado para depois dar certo. Assim foi com o nosso projeto família e com o nosso maior orgulho: o nascimento das nossas filhas. O importante é fazer a sua parte, seguir em frente, e nunca desistir.

WAVE: Qual a sua mensagem final para os leitores da Wave?
Eduardo: Queremos encorajar todos os leitores a abraçarem suas autenticidades, celebrarem suas diversidades e a de suas familias e lutarem por um mundo onde todos se sintam plenamente aceitos e valorizados por quem são.

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