Vizinhos

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Crônica de Naná Garavagia: Vizinhos

Não sei de que época você é, mas eu sou do tempo em que conhecíamos nossos vizinhos pelo nome e sobrenome, em que dávamos bom dia, boa tarde e boa noite. Eram todos conhecidos, frequentávamos as casas uns dos outros e convivíamos em plena harmonia. Tudo e todos os problemas da rua eram resolvidos pelos mesmos, sem brigas, até porque todos falavam a mesma língua, digamos assim.

Moro em uma rua sem saída onde, até os meados dos anos 70, só havia casas. Ok, menos vizinhos, o que torna mais fácil o conhecimento e convívio. Com o decorrer do tempo e o crescimento da população, acabei sendo testemunha da triste demolição de três das seis lindas casas – a primeira a ir abaixo era um castelinho, mas não recordo, não vivi… Confesso que foi difícil e me marcou fortemente. Eram casas centenárias, com histórias, com alma…

Mas, com a construção dos prédios, novos vizinhos foram chegando. Agora, não era mais uma nova família se mudando, eram várias novas pessoas convivendo e dividindo esse pedacinho da cidade que era “meu” e de outros poucos.

Alguns ainda se conheciam e novas amizades até surgiram, mas o convívio, a sintonia e a magia da rua nunca mais foram as mesmas. Hoje, são raras as exceções. Conheço pouquíssimos moradores que dividem o mesmo CEP e, os que conheço, se limitam a cumprimentos raros e rasos.

Há uns meses tivemos problema com um vazamento em um dos prédios vizinhos e precisamos recorrer a outros, e pensei: – que sorte que conhecemos a “Barbara”, que bom poder contar com a ajuda de um vizinho quando se realmente precisa! – E isso me fez lembrar dos tempos em que todos os vizinhos eram como extensão de nossas famílias. Tínhamos carinho, respeito, referência.

Durante essa pandemia, em que ficamos mais tempo em casa, acompanhei a chegada de novos moradores – pelo menos duas novas famílias, e eu não faço ideia de seus nomes, de onde vieram, se são recém-casados, quantos são… E não é curiosidade pela vida alheia somente, não sei que nome dar, mas acho que é natural uma situação como esta aflorar nossos interesses.

Também participei do aniversário de alguns deles. Bem no começo da quarentena, quando as pessoas estavam mais sensíveis e solidárias, as varandas foram uma atração à parte, um cantinho que antes não era aproveitado pela maioria.

E quando um carro de som entrava na rua, tocando música em homenagem ao aniversariante do dia, todos, sem exceção, iam cantar o tradicional “parabéns pra você”. Era emocionante e gratificante poder fazer parte desse momento que, normalmente, nem teria tomado ciência! Os nomes ditos e gritados com tanto entusiasmo aos quatro cantos da rua hoje já não são lembrados… e vida que segue!

Tenho amigos que têm vizinhos maravilhosos, solidários, que se prontificam a ajudar na mesma hora, sendo pra cuidar da planta, do filho, do dog, ou até socorrendo com aquela xícara de açúcar que ficou fora da lista de compras. Mas também tenho amigos que não têm um bom relacionamento, que não suportam seus companheiros de porta, de andar, que brigam por conta do capacho da entrada, do barulho silencioso… O que deve ser muito ruim dividir espaço com pessoas que não somam, não se envolvem, não cedem, não se abrem. 

E você? Que tipo de vizinho você tem ou é? 

2 COMENTÁRIOS

  1. Adorei seu texto. Sou um vizinho à moda antiga: solidário e recebo essa solidariedade de volta. Moro num prédio que possui 34 unidades por andar. Só não gostei de você chamar o velho e bom cachorro de dog.Argh!

  2. Olá, Márcio! Feliz por saber que gostou e que tens um bom relacionamento com os seus! Ter 34 unidades por andar e ter um convívio sadio com a maioria já é de surpreender! Mas não fique chateado com meu jeito de me referir aos nossos melhores amigos…! Foi apenas uma maneira carinhosa! Espero continuar agradando sua leitura com os próximos textos! E pode “puxar minha orelha” quando discordar de algo! 😊

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