Entrevista | Alceu Valença é um espelho de seu público

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Pernambucano se apresenta pela primeira vez no Canadá neste domingo, 4 de agosto, e conversou com a WAVE

Alceu Valença em Lisboa – Crédito Aline Camargo / Maranhas Filmes

Por Christian Pedersen

Alceu Valença ama estar em um palco. Não é à toa que o cantor, compositor, instrumentista, poeta e advogado chega a fazer cerca de 80 shows por ano e tem energia pra muito mais, e olha que ele tem diversos tipos de shows para demandas diferentes.

Pela primeira vez se apresentando em terras canadenses, no encerramento de turnê pela América do Norte, Alceu tem algo em comum com o Canadá: ambos nasceram em 1º de julho.

Em uma entrevista muito bacana com a WAVE, Alceu fala sobre o que esperar pelo show em Toronto, sua paixão pelo palco e a época em que estudou em Boston nos anos 60.

Sou como um espelho do meu público. Eu me reconheço nele e ele se reconhece em mim.

WAVE | Eu vi que você possui diversos tipos de shows. Como surgiu essa ideia e como foi estruturar tantos tipos?

Foi algo que desenvolvi naturalmente. Não sou tradicionalista, mas gosto de preservar algumas tradições. Por exemplo, nos meus shows de carnaval, que atraem milhares de pessoas, sobretudo no Nordeste, no meu Recife e em São Paulo, canto somente os gêneros que constituem a essência da folia pernambucana, como o Frevo, a ciranda, o maracatu. Já no período das festas juninas, que tem como base as expressões do sertão, faço muito forró, xote, baião, embolada. Tem o meu show de sucessos, com as músicas que mais marcaram a minha carreira, como “Tropicana”, “Anunciação”, “Belle de Jour”, “Coração Bobo”, “Como Dois Animais”, “Táxi Lunar”. Tenho ainda um show acústico, somente com violões e sanfona. Há o espetáculo Valencianas em que atuo ao lado da Orquestra Ouro Preto, onde interpreto minhas músicas com arranjos para orquestra de câmara. E o Grande Encontro, onde subo ao palco ao lado de colegas de geração como Geraldo Azevedo e Elba Ramalho. Em Toronto vou apresentar um mix com músicas que estão no repertório de todos estes shows.

WAVE | Toronto será o último show da turnê pela América do Norte, apesar de que você vem fazendo shows pelo Brasil desde fevereiro. Como você faz pra manter tanta energia?

Costumo dizer que o palco para mim é vitamina, onde eu mais gosto de estar. Tem artista que fica com medo do palco, com tremedeira, sente vontade de fazer xixi (risos). Pra mim, não. Nunca tive medo dele. Desde que subi pela primeira vez no palco, aos sete anos, na minha cidade natal, São Bento do Una, no agreste de Pernambuco, me encantei para sempre com as luzes da ribalta. Mas claro que ter uma vida regrada ajuda bastante. Não fumo, não bebo, cuido da alimentação e da cabeça. E caminho dez mil passos todos os dias marcados pelo aplicativo do celular. Faço cerca de 80 shows por ano, não só nas grandes cidades, sou do interior, gosto de cantar no Brasil profundo. Sou como um espelho do meu público. Eu me reconheço nele e ele se reconhece em mim.

WAVE | Você e o Canadá tem aniversário em comum, 1º de julho. Você já fez shows no Canadá anteriormente?

Que ótimo, não sabia. Uma feliz coincidência. Já cantei em vários países, Portugal, França, Inglaterra, Holanda, Alemanha, Espanha, Itália, Argentina, Estados Unidos… fiz cinco vezes o festival de Montreux na Suíça, três vezes o Rock in Rio. Mas no Canadá será a primeira vez.

WAVE | O que os brasileiros em Toronto podem esperar do show Estação da Luz?

O público de Toronto vai assistir a um espetáculo vibrante, cheio de energia e identidade, com meus maiores sucessos e também musicas de Gonzagão e Jackson do Pandeiro. Soube que tem grupos de maracatu em Toronto. É a cultura nordestina se espalhando pelo planeta, Pernambuco falando para o mundo. É uma honra para mim fazer parte disso!

E como diria o filósofo Ortega y Gasset, eu sou eu e as minhas circunstâncias.

WAVE | O primeiro show da turnê norte-americana foi em Boston. Como foi estar em Boston ou Massachusetts em geral novamente já que você estudou por lá nos anos 60? Você ainda tem contato com pessoas que você conheceu naquela época? Como está o seu inglês hoje em dia?

Pois é, Boston foi uma cidade importante na minha trajetória. Quando eu tinha 23 anos e estudava direito na universidade federal de Pernambuco fui aprovado para um curso de verão em Harvard, mesmo sem falar uma palavra de inglês. Eu respondi a uma questão sobre a diferença entre marxismo e cristianismo com um poema que fiz na hora e o pessoal achou tão inusitado que resolveu me aprovar (risos). Isto foi em 1969, o ano em que o homem subiu à Lua, a época de woodstock. Eu costumava ir para a praça com um violão e cantava os xotes e baiões do meu Pernambuco. Os hippies e hare krishnas dançavam em torno de mim como se estivessem num ritual (risos). Chamei tanto a atenção que um jornal local resolveu me entrevistar. Perguntaram que tipo de musica eu fazia. Respondi que eram protest songs contra a ditadura no Brasil. No dia seguinte estamparam na capa que eu era o Bob Dylan brasileiro. E eu nunca tinha escutado Bob Dylan (risos)! Mas isso foi determinante para que eu optasse pela carreira de artista quando voltei ao Brasil pouco depois. Não tenho contato com nenhum americano que conheci naquela época, embora tenha cantado na cidade em 1994 e voltado agora no início da turnê, onde o show na House of Blues foi um grande sucesso. Voltei inclusive a Harvard há poucas semanas, acompanhado do meu filho Rafael que me filmou nos jardins da universidade para um documentário que estamos produzindo. Sobre o meu inglês, não evoluiu muito, não. Quando as pessoas perguntam se eu conheço bandas de rock daquela época como o Yes, eu ainda digo: no! Ou sobre os Rolling Stones, eu repito: I can’t get no satisfaction (risos).

WAVE | Se o Alceu de hoje, pudesse encontrar com aquele Alceu que se apresentava em praças americanas nos anos 60, o que você diria pra ele?

Naquela época eu lia muita poesia, lia autores como Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Rubem Braga, muita Filosofia, que aprendi a gostar com as aulas da professora Bernadete Pedrosa na faculdade de Direito. Isso estimulou meu pensamento, mas também me trouxe a angústia de pensar na condição humana e suas limitações. Então eu acho que diria: não leia tanto, não pense demais. Bote um boné na cabeça, tome uma cerveja e esqueça as questões existenciais. Só é feliz quem não pensa em nada (risos). É uma brincadeira, claro. Porque, apesar de toda a angústia que as reflexões filosóficas provocam, eu ainda prefiro pensar. E como diria o filósofo Ortega y Gasset, eu sou eu e as minhas circunstâncias.

Serviço

Arraiá de Toronto com Alceu Valença

  • Quando: Domingo, 4 de agosto, 2019
  • Horário: 5:00pm – 11:00pm
  • Onde: LIUNA Local 183 – 1263 Wilson Ave, Toronto, ON M3M 3G3
  • Quanto: CAN$ 10.00 – CAN$ 60.00
  • More info e ingressos: https://bit.ly/2YdDGtM

Realização: T2 Party e Brasil Remittance

Produção: Angela Mesquita, Rafael Terzarolli e Ulysses de Paula