Brasil – Cédulas carimbadas

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Estive no Chile em 2017. Programinha despretensioso de turismo com a família e um grupeto de amigos. Mas os olhos de jornalista não tiram férias e, claro, fiquei atento aos caminhos tomados pelo vizinho sul-americano.

Numa bifurcação lá de décadas atrás – anos de 1990 e 2000 – o povo chileno optou por um mercado independente, de câmbio flutuante e Estado menos intervencionista. Fez isso escolhendo um governo liberal nas urnas. Tivesse tomado a atitude de eleger um regime similar bolivariano, talvez estivesse hoje amargando mazelas venezuelanas, sem comida, sem infraestrutura, sem perspectivas.

Precisei comprar pesos e numa dessas casas de trocas de moedas que funcionam em cada esquina de Santiago tirei alguns dólares do bolso e também reais esquecidos na carteira. A atendente tinha um penteado impecável e seu uniforme havia sido passado criteriosamente, acredito, por ela mesma, de manhã cedinho, antes de partir pra labuta. O ambiente era limpíssimo, sem uma ponta de cigarro no chão e o vidro que nos separava cristalino.

Ela recusou uma nota minha de 50 reais. Não era falsa. Era maltratada. Amassada, meio rasgada nas pontas, feia mesmo. Fez uma cara de nojo e me devolveu.

Aquela atendente é latina, assim como eu. Colonizada por europeus, assim como eu. Nossos países têm idades parecidas – pouco mais de 500 anos – e características geográficas e climáticas que, em boa parte do ano, se assemelham. Mas nós não temos a mesma postura perante nossos patrimônios.

Naquela fração de segundos em que interagimos percebi o quão distante estamos em valorizar o conceito de “Nosso”. Ela possuía uma cédula chilena que lhe dava orgulho. Não era dólar ou libra esterlina, mas era um patrimônio de seu país, que caminha a passos largos como nação emergente, moderna, pulsante, com dificuldades – é claro – mas com objetivos.

Em Curitiba, no Brasil, Lula está preso desde abril, quando começou a cumprir pena de 12 anos condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex de Guarujá. O homem que certa vez foi apontado por Obama como “O cara”, está atrás das grades, com bens bloqueados, impossibilitado de disputar eleições e com mais meia dúzia de processos em lista de espera que podem resultar em outras tantas penas. Lula não é Mandela, Lula não é Martin Luther King, mas seus seguidores carregam na tinta para transformá-lo num preso político injustiçado. Aos olhos da lei, ele é apenas um político preso. Um político que cometeu erros graves.

E por conta dessa tinta pesada de fãs que miram ídolos, simpatizantes do ex-presidente tiveram a ideia insana de carimbar cédulas de Real com o slogan “Lula Livre”.
A cédula. O Real. O patrimônio brasileiro. Carimbado por nós, brasileiros. O que a atendente chilena diria da minha nota carimbada?